17
Mar

Um sábado produtivo

por Gabi

O sábado começou como outro sábado qualquer: com um maldito caminhão recolhendo caçambas na rua as 5 da manhã.

Acordamos assustados com o barulho altíssimo de correntes, metal, coisas batendo e caindo. Enquanto eu olhava pela janela em pânico, o namorado abria um olho e tentava entender o que acontecia. Depois de estabelecer que o problema era o tal caminhão, e não uma invasão viking na Pompéia, despertei de vez. Afinal, eu havia ido dormir por volta das 20:30 na noite anterior.

Aproveitando o estado semi-desperto do Eric, puxei conversa:

- Amooooor…
- Mmmmphhh?
- Você tá acordado?
- Mmmmnãommmph.. droga, tô.
- Ah, que bom! Então, já que você está acordado….
- Não.
- Não o que?
- Não topo o que quer que você diga.
- Como não?? Você nem sabe o que é!
- Certo. Até parece que você vai completar essa frase com alguma coisa boa, tipo “Já que você está acordado, eu vou fazer um strip e depois cobrir meu corpo com chocolate pra você comer!”
- Mas… mas…
- Mas o quê? É óbvio que você vai dizer: Já que você está acordado, me ajude a lavar a roupa, ou a limpar a casa, ou a fazer compras no supermercado lotado, ou a arrumar o armário, ou abraçar uma árvore, ou fazer qualquer coisa que eu, Eric, odeie fazer!

Tive uma crise de risos de acordar a vizinhança. Quando consegui me controlar (não com a ajuda dele, uma vez que Eric aproveitou e fez todas as piadas possíveis, envolvendo sexo, futebol, massagem nos pés, cerveja gelada e outras coisas masculinas) depois de uma meia hora, eu soltei:

- Bem, eu só ia dizer que queria aproveitar e ter um sábado produtivo…

Nisso, Bill resolveu ajudar: disparou a miar de maneira assustadora, alto e desafinado como uma sirene. No susto, corri pra ele e apalpei barriga, patas… cada vez que eu chegava perto do rabo ele berrava mais alto. Chegou a rosnar pra mim. Eric pulou da cama, escovou os dentes e perguntou:

- Existe veterinário 24 horas, né?

Enfiamos o gato na casinha de transporte, corremos pra garagem, entramos no carro e… nada. A bateria não respondia. Num ato de desespero, corremos pra rua atrás de um táxi. Por sorte, tinha um no ponto da minha rua. Por azar (do Eric) a rua é uma baita ladeira e o Bill é pesado pra caramba. Entramos no táxi e fomos ao veterinário 24 horas na Cerro Corá.

Toquei a campainha. Nada. Toquei de novo. Nada. Aí vi a placa de preços…

- O quê? Consultas 140 reais???

Examinei rapidamente o gato na caixa. Ele parecia bem melhor e não miava mais. Decidimos voltar pra casa e esperar Dr Ney, o veterinário japonês mais legal do mundo, iniciar seu horário de atendimento. Paralelamente a isso, começou a chover. Enquanto me molhava à espera de um novo táxi, liguei pra seguradora. Chegamos em casa, Bill comeu, bebeu água, fez cocô… parecia realmente bem melhor. Eric sugeriu:

- Vai ver ele só queria dar um passeio…

Fuzilei-o com os olhos e desci pra receber o moço da Porto Seguro. Usando cabos, o rapaz fez minha bateria funcionar e avisou: não deveria desligar o carro em hipótese alguma, sob pena de parar de vez de novo. Corremos na MercadoCar pra comprar uma bateria nova, instalamos a dita cuja, fomos ao mercado comprar comida, voltamos pra casa, pegamos o gato, enfiamos o infeliz na caixinha de transporte de novo, sob ruidosos protestos, e fomos pra clínica do Dr Ney.

Cabe um parenteses: Dr Ney é um japonês feioso que usa aparelho nos dentes. Cuida com zêlo de todos os bichos da família, que não são poucos. Dois cachorros e meia dúzia de gatos na minha mãe, mais os 4 de casa. Ele está acostumadíssimo com histórias de bichos recolhidos na rua, de baixo de carros, de telhados, resgatados de pedradas… Há anos que Dr Ney é meu cúmplice no método Gabi de convencer Mamãe a ficar com o gatinho: eu dava banho no bicho, levava no Dr Ney pra vermifugar e tratar eventuais problemas, depois esperava Mamãe chegar cansada do trabalho e mostrava um bicho infinitamente mais fofinho e saudável do que a tranqueira que eu havia recolhido na rua.

Agora ele atende numa clínica maior, mais longe de casa, no estacionamento de um Wal Mart. Mas vale a viagem. Por me conhecer bem, ele sabe que eu não sou aquelas mães que entram em pânico. Quando eu disse que “O gato miou muito estranho” ele entendeu perfeitamente e fez um exame completo, com direito a termômetro nos países baixos e apertão nas bolas do Bill. Pesou a criança: 5,8Kg. No decorrer da consulta, confundiu o Eric com meu ex, mas eu nem liguei. O que importava é que meu filhote estava em boas mãos. No fim, ele decretou:

- Infecção urinária. Injeção e remédios. Ele toma remédio? Você consegue dar comprimido pra ele?
- Tenho um método envolvendo uma toalha king size, movimentos rápidos dos dedos e focinho tapado. Geralmente sem derramamento de sangue.
- Como?
- Consigo, Dr Ney. Manda ver.

Paguei a consulta. Contando com a injeção e os remédios, saiu menos do que o assaltante veterinário da Cerro Corá cobrava. Voltamos pra casa, Eric me obrigou a fazer almoço pra ele, e quando reclamei que estava cansada, ele solta:

- Ué, não era você que queria um sábado produtivo?

Em nome da paz conjugal, não respondi. Afinal, ele estava certo.

Este post é parte do Blogagem Inédita. Participem!

5 Responses to “Um sábado produtivo”

  1. Gabi says:

    Qualquer um consegue ser produtivo as 05:30 da manhã indo dormir quando o ainda está claro no dia anterior. :-/

  2. Gabi says:

    O seu carro é a kombi do Pequena Miss Sunshine? hihihihi

  3. Gabi says:

    Eu queria um MercadoCar perto da minha casa :/

  4. Gabi says:

    “não com a ajuda dele, uma vez que Eric aproveitou e fez todas as piadas possíveis, envolvendo sexo, futebol, massagem nos pés, cerveja gelada e outras coisas masculinas”

    Trocou de Eric? Quem é esse novo que eu não conheço? /hum

  5. Gabi says:

    Pavor de ‘sábados produtivos’. Meus dedos dos pés se contircem ao ouvir isso.

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