Sobre samba e censura
Tô atrasada pra falar de carnaval, mas vi tanta gente comentando que achei melhor dar meu pitaco logo.
A Viradouro teve um carro alegórico censurado. O carro representaria o Holocausto na Seguda Guerra Mundial. O carro era composto por imagens de torsos emagrecidos, escurecidos e retorcidos. Sobre ele, haveria um destaque vestido de Hitler.
O tema do samba-enredo era “O Arrepio”. Na letra do samba-enredo, como sempre, se misturam fatos históricos, citações literárias e versos pobres. Além do arrepio de frio, o samba fala do arrepio de excitação, de monstros e coisas de arrepiar. Numa estrofe, os versos:
“Vem cá me abraçar
Sentir o meu arrepio
Mexa, remexa, sacode a cabeça, me faz delirar
Vou no fricote, dou-lhe um beijo no cangote”
O verso dá a tônica do carnaval, do cheiro no cangote, da alegria de pular o carnaval a dois, a três, delirando, remexendo e saracoteando. Pura felicidade carnavalesca brasileira. Dá pra imaginar belas passistas vestidas de vampiras sensuais prestes a beijar nossos pesocços, foliões com criativas fantasias de cubos de gelo, a bateria vestida de quadro-negro e a madrinha de bateria vestida de unhas prestes a arranhar, quiçá uma ala de baianas vestidas de pinguins para representar o frio.
Imaginar seis milhões de pessoas mortas não me dá arrepios. Me dá ânsia, nojo, medo de que aconteça de novo, terror de imaginar que coisas semelhantes já estão acontecendo ou aconteceram em Kinshasa, Kosovo, em Sarajevo. Me dá raiva quando no século XXI gente ainda é tratada pior que lixo e exterminada por conta da cor da sua pele, da sua língua ou de uma religião diferente.
O que me dá arrepios é um carnavalesco não enxergar o terror que foi o Holocausto. Imaginar que pessoas estariam sambando e dançando ao som de uma bateria contagiante enquanto a representação de cadáveres humanos passaria sob os holofotes da Sapucaí é assustador. Talvez o desejo fosse apenas chamar a atenção. Conseguiram, e no fim o desfile teve protesto em nome da liberdade, uma vez que o carro foi proibido de desfilar.
A Congregação Israelita pediu a proibição. Se fosse um carro retratando negros sendo enforcados por supremacistas brancos, um grupo de Consciência Negra também protestaria. Se o carro mostrasse gays sendo espancados por skinheads, duvido que a União GLBT deixaria as coisas passarem em brancas nuvens.
Não é questão de ser de um grupo étnico ou religioso. É questão de respeito. Avenida é lugar de alegria, de peito e bunda, de samba, suor, beijo e arrepio. Não é lugar de mostrar gente morta, torturada, destruída. Hitler pertence ao panteão das figuras terríveis da história da humanidade, e é melhor deixá-lo por lá ao invés de colocá-lo sobre um carro alegórico.
Censura? Talvez. Não me importo. E tenho idade suficiente para lembrar da censura do regime militar no Brasil. São coisas muito diferentes. Proibir uma letra de música que critique o governo é estúpido. Proibir que sambem sobre gente morta é bom senso.
*Update*
O Inagaki deixou um mega comentário aí na caixinha. Dêem uma lida lá que eu respondo aqui: Ina, a diferença é que a imensa maioria dos filmes e peças de teatro feitas sobre o nazismo trata o tema com respeito e sensibilidade. E quando há comédias, como Primavera para Hitler, o Furhrer e seus seguidores são humilhados de tal forma que fica impossível não rir. Aliás, usar o humor pra fugir dessas coisas medonhas é extremamente válido – A Vida é Bela já é um clássico e comove justamente porque o pai faz de tudo para que seu filho escape do campo, nem que seja fantasiosamente.
O lance todo da escola de samba é que por mais que o carnavalesco ache que está fazendo arte e combinando história, dança, música e o escambau, a imensa maioria das pessoas que assiste o desfile tá ali mesmo pra ver mulé pelada e se acabar de dançar ao som de um samba bom. Protesto político funciona na avenida porque já faz parte da história do nosso país a irreverência: lembra dos cartunistas durante a ditadura? Então. Aí a coisa vai. Músicas incríveis como Apesar de Você, Meu Caro Amigo e Cálice (Pra ficar só no terreno do Chico) e tantas outras criticavam o regime militar maravilhosamente, passando pelo crivo da censura bem debaixo das barbas dos generais justamente por serem criativas e conseguirem “enganar” os censores.
No caso da Sapucaí, vale botar um bonecão tirando sarro do Lula, do FHC ou de quem quer que seja o presidente da vez. Usar o humor pra acabar com os políticos é uma delícia e todos adoramos. Misturar samba-enredo com massacre não me desperta nada além de vontade de levar o carnavalesco até Auschwitz pra ele dar uma olhadinha de perto no assunto.
Achei de mau gosto mesmo, muito mau gosto. O carro em si, principalmente, as imagens de corpos caídos… pensemos o seguinte: Imagine um enredo anti-aborto. Troque os judeus mortos do carro por fetos abortados e ponha lá em cima um cara vestido de cirurgião, com fórceps e curetas. Imagine os fetos ensanguentados e retorcidos. Isso seria agradável? No entanto, se o carro mostrar mães felizes sambando com bonecos nos braços, ou um bonecão de um bebê mexendo as perninhas, talvez fosse possível falar do mesmo tema de uma maneira mais adequada. Sei lá.


Gabi, vi o seu comentário no meu blog, li atentamente o seu post e peço desculpas de antemão pelo comentário-trolha que postarei aqui expondo meu ponto de vista, viu?
Todo esse imbróglio me fez lembrar de um certo cineasta que buscou inspiração nas histórias dos campos de concentração para filmar uma comédia. Isso poderia soar uma aberração tão dantesca quanto o tal carro da Viradouro, e no entanto “A Vida é Bela” ganhou vários Oscars da Academia. Independentemente do Roberto Benigni ser um chato de lascar, ele fez uma obra que respeita a tragédia dos judeus.
Acompanho os trabalhos de Paulo Barros desde 2004, quando ele comandou o desfile da Unidos de Tijuca e revolucionou o Carnaval carioca com um enredo que conciliava ciência e samba, marcando época com um carro de alegorias humanas simulando a estrutura do DNA. De lá pra cá, Paulo Barros tem trazido inteligência e complexidade aos enredos de samba. Quem viu o desfile da Unidos de Tijuca sobre ciência em 2004, ou o das peças de xadrez da Viradouro em 2007, sabe bem do que digo.
Pois bem: no episódio específico do carro censurado, Barros questionou: por que o cinema, o teatro e a literatura podem falar de assuntos que não devem e não podem ser esquecidos, como o Holocausto, enquanto uma escola de samba, que em um mesmo desfile concilia música, artes plásticas e cênicas não pode abordar o mesmo tema? É arte menor? Bem, há tempos os quadrinhos sofrem do mesmo estigma. Porém, quem leu “Maus” de Art Spiegelman, sabe que HQs não devem nada em complexidade e densidade a outras formas de arte.
O mesmo samba-enredo da Viradouro (do qual você pinçou uma estrofe para defender sua tese) faz uma necessária ressalva, em meio à alegria natural do Carnaval, a fim de resgatar momentos sombrios da História que seriam ilustrados pela alegoria censurada: “Porém nem tudo são flores/ Há dissabores, infelicidades/ Vidas perdidas nesse mundo de maldade”. Do mesmo modo que nos anos 70 compositores como Chico Buarque compunham sambas como “Apesar de Você” para descrever tempos ditatoriais, creio piamente que qualquer forma de expressão pode ser utilizada para fomentar o espírito crítico nas pessoas. Seja através de óperas, histórias em quadrinhos, blogs (que até pouco tempo atrás eram considerados meros “diários virtuais”) ou, por que não, de enredos carnavalescos.
Hitler já foi personagem de filmes, desenhos animados (inclusive um curta-metragem oscarizado da Disney com Pato Donald como um dos personagens), livros e óperas. Não seria muito diferente no enredo original de Paulo Barros, que previa que um passista estaria presente na polêmica alegoria, personificando porém um Hitler cabisbaixo, meditabundo, calado e de cabeça baixa diante da representação artística de suas atrocidades. Algo muito distante de se “sambar sobre gente morta”, pois: seria mais como abrir um hiato em meio ao Carnaval para relembrar um momento escabroso da História. Um resgate bastante apropriado em tempos nos quais torcidas de futebol na Itália, na Espanha e no Brasil entoam publicamente cânticos neo-nazistas, enquanto sites criados por imbecis desmemoriados surgem aqui e acolá absurdamente contestando a existência dos campos de extermínio. É preciso, pois, fomentar o surgimento de mais e mais debates públicos recordando o passado e relembrando a outras gerações as absurdas atrocidades cometidas pelos desmandos de um medíocre ditadorzinho (que inclusive promoveu a censura de obras de arte e a queima de milhares de livros). Debates até mesmo em caixas de comentários de blogs, diga-se de passagem.
Não creio, enfim, que permitir que determinadas pessoas decidam por todas as outras o que possamos ou não ver, impedindo-nos de apreciar uma obra e contestá-la, questioná-la, fruí-la dentro de um determinado contexto, seja uma atitude defensável (isso sim me soa a total desrespeito, tanto à liberdade de expressão quanto às inteligências alheias de pessoas que querem formar suas próprias opiniões sobre algo que, no final das contas, sequer pudemos vislumbrar por causa da Censura). E penso assim por conhecer as obras anteriores de Paulo Barros (que passam muito ao largo de apenas “quererem chamar a atenção”), por ter visto outros enredos em Carnavais passados que tratavam de temas seriíssimos como direitos humanos, globalização e injustiça social, por enxergar nessa atitude uma intromissão ao estado laico brasileiro, assim como um preconceito arraigado com relação a uma expressão legítima, criada por artistas gabaritados e com formações nas mais diversas áreas: a concepção do desfile de uma escola de samba.
Tudo isso é porque a Viradouro não quis colaborar com a grana da demissão do Henry Sobel. Pô, o Gravatinha vai levar R$ 7 milhões saindo da CIP! O.O
Olha. O. Tamanho. Desse. Comentário. Inagaki :O
O que é Holocausto?
Questao de TATO obviamente Gabriela.
Em 2001 um programa de televisão foi cancelado no Reino Unido por causa de piadinhas de mau gosto com pedofilia.
A diferenca reside no fato que o programa foi cancelado apos ser exibido.
Existe uma equipe de producao por tras do desfile e estes deveriam ser os censores. Acredito que a escola aprenderia uma licao muito pior se o desfile tivesse acontecido, e ao som de vaias da plateia e ojeriza da populacao.
Marketing negativo corre sete vezes mais rapido que o positivo e certamente a escola perderia muitos seguidores por causa de tal atitude, e as outras escolas pensariam duas vezes antes de tentar criar tematicas duvidosas.
Proibir o erro, cria apenas revolta por parte das equipes criativas. E a escola sempre se faz de vitima.
Explicar a falta de tato de sua producao criativa e se redimir com o publico ofendido seria uma tarefa muito mais dificil…
Mas você nunca vai conseguir falar sobre o aborto com mães felizes carregando seus bebês debaixo dos braços e um bonecão mexendo as perninhas. Isso não é aborto. O aborto é feio, triste e dolorido. Mas no entanto é algo a ser discutido. Assim como o Holocausto.
O caso é que o carnaval também é um espaço para levantar bandeiras, principalmente porque sempre foi uma festa independente de religiões. E a gente bem sabe que as religiões não deixam levantar nenhum estandarte de maneira geral, visto a campanha da fraternidade desse ano.
A gente tem é que saber reconhecer todos os espaços de diálogo que a gente tem. O carnaval também pode ser um deles.
O holocausto é algo que tem que ser contado mil vezes por dia, para que nunca mais chegue nem perto de acontecer (e a gente bem sabe que existe muito nazi por aí). Assim como os torturadores na ditadura militar, o massacre dos curdos, o apartheid, etc etc etc etc.
Bom, eu poderia conversar horas e horas e horas e horas sobre isso. Só comentei, na bem da verdade, por conta da comparação ao aborto! rs
Beijos
Até entendo seu ponto de vista, mas continuo não concordando com a proibição.
Questão de opinião.
Eu acho que deveriam ter censurado mais coisas. Afinal, o milésimo enredo sobre família real deve ser crime de lesa-majestade. Isso sem falar nas homenagens a cidades obscuras, ao cabelo e ao sorvete. Mesmo que a patrocinadora Kibon ficasse putinha