01
Mar

Pulando o carnaval

por Gabi

O carnaval começou muito bem: desfile da Gaviões e tudo. Por volta das 3 da manhã, pegamos a estrada rumo à Ponta Negra. Viajamos a noite inteira, Elisa (não a do trabalho, uma outra, legal) dando uma de samambaia no banco de trás e dormindo no meio da conversa.

No sábado de manhã, chegamos à Laranjeiras, condomínio chiquetérrimo próximo a Paraty. Depois de passar por um esquema de segurança digno do FBI, paramos o carro e nos dividimos: as pessoas com problemas mentais – Cyntia, Xan e Dani – foram por uma trilha de 4 horas e nós, as pessoas normais – eu, Kuwahara, Elisa e Paula – fomos de barquinho, carregando todas as malas e mais uma prancha. Durante os 25 minutos de navegação, fomos vendo as praias:

- Ó, os amigos de vocês que vieram pela trilha vão passar por aqui… e por aqui… e por aqui…

Vendo a areia causticante e as montanhas íngremes, nos congratulamos por nossa esperteza em não ir de trilha. Chegando à Ponta Negra, uma vila de pescadores bem rústica nos aguardava. Logo de cara encontramos a dona da casa que iria nos hospedar. Com a ajuda de 35 crianças, fomos seguindo a mulher por uma trilha. Essa trilha começava na praia e subia por mais ou menos 7 milhas náuticas até a casa, ou pelo menos assim nos pareceu enquanto subíamos carregando as malas depois de passar a noite em claro. Fomos humilhados pelas crianças que carregavam malas maiores do que elas e saltitavam pelas pedras do riacho sem demonstrar cansaço algum.

Praguejando contra meus 28 anos de sedentarismo, finalmente chegamos à casa. A casa era rústica. Muito rústica. Rupestre. Bucólica. Não tinha luz nem forro no teto. Era do lado de uma cachoeira. A casa era grande e espaçosa, e tinha cama pra todo mundo.

Tudo nessa vida tem dois lados. Casa sem luz: gostoso, luz de velas sempre é agradável. Ou péssimo, na hora de tomar banho. Falta de forro: gostoso, porque de noite a casa fica fresquinha. Ou péssimo, porque facilita a entrada de bichos peçonhentos e a propagação do som. Do lado da cachoeira: gostoso ouvir barulhinho de água e poder tomar banho de cachoeira facinho. Ou péssimo, por conta dos mosquitos que ali habitam. Cama pra todos: ótimo, na hora de dormir. Péssimo, porque a Cy e o Xan estavam na bolha de amor e a casa não tinha forro.

Descemos pra praia, pra relaxar na areia. Depois de muitas horas, o resto do pessoal chegou e nos dedicamos ao ócio e à comilança desenfreada de PF’s. À noite, num arroubo de insanidade, decidi descer com o pessoal até a praia, o que foi bom, porque foi a noite mais estrelada que já vi na minha vida. Estrelas cadentes surgiam sem parar e todas as constelações estavam visíveis num céu sem lua. Lindíssimo. Na hora de subir foi um pouco complicado, no escuro, com apenas uma lanterna e sem saber o caminho direito. Mas tudo bem. Caí na cama pra dormir um sono atrasado de 3 dias. Ou assim eu esperava. Na manhã seguinte…

O Xan é um cara legal. Dentista em Ubatuba, bem humorado, cozinha bem, serviu o exército no Amazonas… O tipo de pessoa que você quer ter por perto quando a viagem envolve mato, bichos e facões. Entretanto, ele tem um probleminha. É um problema bem pequenininho. Quase imperceptível… Ele é hiperativo. Acorda assim que o sol clareia. E canta, assobia, conversa… Uma beleza. Por isso, após acordar bem cedo – muito cedo mesmo – fomos todos pra praia pra fazer uma trilha:

- Vamos aproveitar o dia!
- Jura que a trilha é fácil?
- Juramos!
- Dá pra eu ir de chinelo?
- Dá!
- Preciso levar os paramédicos?
- Gabi!!!
- Tá, tá…

A primeira subida era completamente íngreme e aberta, sem árvores. O sol batendo no coco. A segunda subida era longa, lenta e torturante. A terceira… não me lembro da terceira. Uma combinação de calor e desespero me fez ter uma leve crise de hipoglicemia. O Kwa ficou feliz com isso, porque proporcionei alguns minutos para que ele fumasse um cigarro enquanto eu me recuperava. Continuamos. Eu me sentia como aqueles gnus que são deixados pra trás na savana africana, enquanto o grupo de jovens e fortes gnus corre pra se salvar das garras dos guepardos. Eu lá atrás, arfando. E o Xan:

- Agora é!
- A praia???
- Não, outra subida…


- Agora é!!!
- arf..A.. arf…praaaiaaaa…arf…???
- Não… mas olha que paisagem linda.
- Se eu tivesse forças, juro que te batia.

Eu só via pontos pretos dançando na frente dos olhos. Finalmente, a praia. Muito bonita, mesmo. Quase valeu a caminhada. É que pra valer a caminhada, deveria haver um quiosque na praia com massagistas de plantão, champanhe gelado, incenso e músicas relaxantes. Como não havia, caí no mar e depois caí na areia. Dormimos, nadamos, Xan pegou ondas – sim, porque ele carregava uma prancha o tempo todo. Na próxima encarnação eu juro que aprendo a ter esse pique. Contemplamos a paisagem, comemos Nutry, relaxamos na sombra. Uma delícia.

Na hora de voltar, me concentrei, fiz algumas orações, chorei durante alguns minutos e cogitei até mesmo ficar por ali até algum barco me resgatar. No fim, comecei a andar. A volta realmente foi mais tranquila, as piores subidas estavam na ida. Exceto pela cobra que estava no meio da trilha e foi retirada pela prancha do Xan, e pela queda no barro protagonizada pela Elisa e por mim, e pelo tombo da Cyntia na cachoeira, não houve grandes incidentes. Voltamos pra Ponta, sentamos no quiosque e comemos toneladas de lula e diversos PFs.

À noite, jogávamos cartas à luz de velas, quando resolvi lavar um copo na pia. E vi…

- Aaaahhhh! Uma barata! Duas! Não, três!!! Aaargh!

Era uma invasão. Acendemos milhares de velas e Xan e Kwa, nossos heróis, chinelos em punho, começaram a matar os temíveis insetos. E eu, novamente…

- Que que é aquilo saindo do buraco na parede??? Uma aranha? Um escorpião??? Aaaahhhh!!!

Era uma aranha armadeira, vindo ver o que acontecia. Além disso, milhares de formigas apareceram e fizeram trilhas pela casa. Velas de citronela, cobrinhas de baygon defumando o ambiente. Na porta do quarto da Cy, surge uma derradeira barata. Enquanto Xan lutava na cozinha, Kuwahara, com a dignidade de um samurai, pegou a havaiana da Dani e adentrou o quarto. A porta se fechou atrás dele. Barulho de chineladas. Tropeções. Depois, o silêncio.

- Será que o Kwa tá bem, Gabi?
- Ele deve estar lutando karatê com a barata.
- Vamos ver?
- Vai na frente. Eu entro lá daqui umas duas horas.

De repente, Kwa surge com a havaiana na mão. Aparentemente, a barata havia perdido a luta. Só consegui dormir porque estava mais cansada do que apavorada.

Na segunda feira, meu corpo todo doía. Músculos desconhecidos latejavam. Minha bunda doía. Minhas pernas doíam. Até mesmo meus braços doíam, devido à minha técnica de escalada de quatro apoios (por vezes cinco, porque caí de bunda em vários momentos). Me recusei a fazer qualquer coisa que não fosse sentar na praia e comer lula tomando cerveja. Um dia de ócio, coroado com um monte de pinga com mel, com gengibre e com canela. Todo mundo rindo bastante.

À noite, a partida de Mau-mau mais engraçada do mundo, com a Elisa sem entender as regras e o resto do povo bêbado o suficiente pra esquecê-las. Paula, sabiamente, se retirou para seus aposentos, embora eu não saiba como ela conseguiu dormir com nossos gritos e gargalhadas, e com a Dani cantando Hang Up, da Madonna, em modo repeat do refrão (time goes by, so slowly…)

Na terça, dia de ir embora. Pegamos o barquinho, voltamos pelo condomínio, paramos numa praia muito linda e gostosa chamada Almada, em Ubatuba. Depois de algumas porções de camarão, bolinhos e açaí, seguimos viagem. Estava preparada para o trânsito de uma vida, mas a viagem foi super tranquila e chegamos cedo em São Paulo.

Ao chegar em casa, chorei de emoção ao acender a luz. Tomei um banho quente e demorado, porque ao olhar para meu pé, pensei: “Nossa, como meu pé está bronzeado…” Só que não era bronze. Era sujeira, mesmo. Me esfreguei com a bucha até quase voltar a minha cor original. Da próxima vez, fico suja. Pelo menos as pessoas vão achar que estou queimada. Deitei e dormi o sono dos justos, porque hoje tinha que trabalhar.

Contabilidade da viagem:
Quilos de lula consumidos: 58
Picadas de mosquito: 12, sendo 4 só no pé
Baratas assassinadas: não o suficiente
Vezes que a Dani cantou Time goes by so slowly: 294
Músculos doloridos da caminhada: 32
Músculos doloridos de tanto rir: 18
Sambas ouvidos: 0
Bronzeado obtido: 1/2

No fim das contas, viagem muito boa, muito engraçada e exatamente do jeito que eu estava precisando. Agora é voltar ao trabalho. Só preciso de uns dias de folga pra descansar dos dias de folga.

Se o pessoal mandar as fotos, eu posto aqui. Olha aí uma foto de lá:

5 Responses to “Pulando o carnaval”

  1. Gabi says:

    Bom, eu ainda não desbravei Pirituba, mas deve ser mais ou menos nos mesmos moldes. Ah, tem aborígenes e tal, mas já converso legal com eles… :o P Ainda bem que temos a Bandeirante Gabi para nos mostrar o quanto luz, água encanada, cama, mesa e, principalmente, banho, fazem bem à alma… :o )

  2. Gabi says:

    Arrá!!! Mijei de rir!

  3. Gabi says:

    Gabi, vc nem comentou que sobrevivi sem dormir na volta!! Adorei seu blog. beijos Elisa

  4. Gabi says:

    Ah propósito sua presença é obrigatória na consumação do meu inferno astral :o )

  5. Gabi says:

    A melhor coisa do Carnaval é ficar bem longe dele. Beijos!

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