05
Oct

Osso duro de roer

por Gabi

Acabei de assistir Tropa de Elite. Baixei e assisti. Lembrando que é pra uso doméstico, e não pra exibir por aí. Não me processem. Eu vou ao cinema depois. Não dei dinheiro pro contrabando nem pro mercado da pirataria.

Não achei que o filme seja pró-BOPE. Um filme que mostra o quanto eles são filhos-da-puta, torturadores e abusam do poder não pode ser pró-BOPE. O herói do filme não é um herói. É um homem perturbado, doente, com distúrbio de ansiedade. Um cara que toma remédio.

Fiquei com a sensação que esse batalhão é formado por psicopatas treinados pra caçar psicopatas. O treinamento é duro, terrível. De uma classe de 20, se formam 5. Ou 3. Só se forma quem aguenta o esforço físico hercúleo, a humilhação, o abuso. Se forma quem consegue fazer o corpo cumprir tudo que mandam. Quem se dissocia. O cara que consegue colocar a mente fora dali. Ou pior, o cara cuja mente combina com esse treinamento.

Não é um filme fascista. Pelo menos, não mais que qualquer filme americano sobre como o exército americano é bem legal e mata traficantes por aí; Tropa de Elite é tão fascista quanto Jack Bauer. Usa métodos semelhantes, não hesita em atirar primeiro e nem perguntar depois, não se vexa a largar corpos em sua ascenção morro acima. Não entendo porque o choque, porque o repúdio e o dedinho apontando esse filme como um exemplo de propaganda direitista. O filme não emula a máxima “bandido tem que morrer”. O filme emula a máxima “O BOPE mata.” E pronto.

Talvez a classe média tenha se sentido envergonhada em pensar sobre a questão de quem financia o tráfico, um ponto até agora pouco explorado pela mídia. A Revista Trip há alguns anos defende a legalização da maconha como ponto crucial para o fim do narcotráfico. E uns anos atrás publicou uma reportagem com pessoas que pararam de fumar maconha por conta dessa tomada de consciência: que aquele baseado recreativo faz com que mais um moleque se torne avião, fogueteiro, olheiro. Talvez assuste o jovem profissional liberal ver isso retratado ali, na tela do cinema.

Em determinado momento do filme, um professor afirma que a polícia é perversa, e isso faz explodir uma discussão na classe. Os jovens burgueses citam exemplos de blitz policiais violentas, de policial que bate em pobre. O soldado que também é aluno levanta a voz para defender a polícia, argumentando que não é bem assim. No entanto, não se identifica como um membro dela. Que medo é esse que cala a voz do estudante-policial?

Talvez seja o medo de reconhecer que a polícia é realmente perversa. Nos quadros da polícia há corruptos. Há também gente honesta. Quantos há de cada lado? O que leva um policial a se tornar corrupto? Quanto ganha um policial no fim do mês? Quantas horas trabalha, e em que condições? Que educação recebeu sua família? E que exemplos viu ao longo da carreira? Como é possível justificar a corrupção? Uma instituição corrompida se torna perversa porque cerca o honesto de monstros.

Quanto ao filme, ele mostra que nos morros do Rio se trava uma guerra entre os policiais honestos e os traficantes e policiais corruptos. Mas não me parece uma guerra justa. Porque numa guerra normalmente os uniformes de cada exército têm uma bandeira, uma identificação, uma cor. Os policiais do BOPE ali retratados não tem cor. Não são os mocinhos vestidos de branco nem os bandidos com roupas pretas. São cinzentos, somando a integridade de uns com os métodos de outros.

Me preocupa, esse filme. Me deixa acordada à noite. O que será que a esta hora acontece nos morros do Rio ou na periferia de São Paulo? O que o BOPE, o GOE, o GARRA, o GATE e tantas outras siglas fazem agora? Combatem o crime, tenho certeza. Mas não me fazem dormir mais tranquila. Me perturba pensar que talvez esses homens cinzentos sejam tudo que resta para me proteger dos homens vestidos de negro.

Mas mais que tudo, o que me tira o sono é uma lei da física. A Lei da Ação e Reação. Ela afirma que toda ação gera uma reação idêntica e oposta. Fico imaginando a que ponto o crime chegou para que fosse necessário criar esse tipo de grupo.

E o que o crime vai fazer, de maneira idêntica e oposta, para responder a isso?

6 Responses to “Osso duro de roer”

  1. Gabi says:

    Tem presente no uatafoc pra vc. Senta o dedo nessa porra :-P

  2. Gabi says:

    mas num país que vc nao sabe quem deve temer mais, se é polícia ou ladrão, fica difícil termos uma opinião formada e esperança de melhora ou soluçãi.

  3. Gabi says:

    Opa, cinco passam em cada cem… hahahahahahaha…

    E eu achei meio facistão. Engraçado, mas facistão, em especial o lance do treinamento, coisa espartana, o Bope é a salvação, logo o Estado é a salvação por conta do trem ser um braço deste último. Mas quer saber, essa pica não é mais minha, essa pica é do aspira! =P

  4. Gabi says:

    Assisti Tropa de Elite ontem. Não sei porquê pessoas se rebelaram tanto, afinal, qual foi a grande novidade? Acho que o que mais incomodou foi o ponto da classe média financiar o tráfico. Porque colunistas e críticos e cineatas fumam seu baseado recreativo, assim como advogados, juízes e executivos. Mas ninguém gosta de ser colocado – ou se sentir culpado – no papel de vilão, de modo que pessoas se sentiram, humm, ofendidas?? Não achei também pró BOPE. A polícia é corrupta assim como todo o país é corrupto; e tanto na polícia como em outras instituições existem aqueles que querem fazer as coisas direito. Nenhuma novidade no filme. alguém achava o contrário do que foi mostrado ali?
    (momento prolixa mode off)

  5. Gabi says:

    Pô Gabi, a tua crítica arrasou hein?!
    Hummm… Também quero ver esse filme mas não passa em Portugal… :(
    Beijos

  6. Gabi says:

    Bee! A-may seu bluóg. É Ubber Phopho.
    Brigadona pelo link do nosso bluóg glam aqui no seu, viu.
    Te amoadoro
    Beijomeliga

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