13
Dec

O Fiat 147 e o gordinho entalado

por Gabi

Por volta de 1987, eu era a feliz moradora de uma vila arborizada na zona Norte de São Paulo. Com cerca de 25 casas, eram três ruas fechadas: a Pracinha, o Retão e o Ladeirão. Assim, com letra maiúscula, porque eram os nomes pelos quais chamávamos esses pedaços de rua.

Entre as 25 casas, havia dezenas de crianças. Literalmente. E esse monte de molecada se dividia em duas turmas: a dos mais novos e a dos mais velhos. Os mais novos, dos quais eu fazia parte, eram crianças entre 8 e 12 anos. Brincávamos muito, de subir em árvore, de esconde esconde, de fazer guerra de mamona com os moleques da rua de baixo, de boneca, de teatro, de corrida.

Já os mais velhos, depois de passarem por misteriosas mudanças que envolviam crescimento de partes do corpo, surgimento de pêlos e engrossamento de voz, só queriam saber de desprezar as crianças mais novas, ouvir músicas, fumar escondido, lançar olhares fatais uns pros outros e sentar na pracinha.

A vida dos mais novos era muito mais legal.

Num dia qualquer, a brincadeira era descer o Ladeirão de skate.

André, o gordinho oficial da turma, não sabia andar de skate. Mas não tinha medo de nada, então quando o resto dos meninos começou a deslizar ladeira abaixo, André emprestou o skate de alguém, sentou em cima e zum!, desceu a ladeira com a velocidade que só pode ser atingida numa complicada equação envolvendo 80 quilos de criança, um skate e uma ladeira de Santana.

Eu estava entretida elaborando um complicado plano para atacar a rua de baixo com papel higiênico molhado, então não testemunhei essa parte. Só ouvi o barulho. Um barulhão, um ruído de algo encaixando em algo, entalando, esmagando.

Porque no fim do Ladeirão havia uma lombada, uma curva e o Fiat 147 do pai do Gustavo.

Por uma questão de Física, o André não conseguiu fazer a curva. E entalou seu corpo gorducho sob o Fiat vermelho. O skate saiu pelo outro lado, mas o Deco… a criançada toda saiu correndo pra ajudar. Puxamos pelos braços:

- Aaaaargh!!!
- Vamos lá, puxando!!!
- Tá doendo, pô!!!
- Foooorça!!!
- Pára, putz!!! Tá doendo!!
- Xiii, entalou de vez.

Gustavo, filho do dono do carro, queria chamar seu pai. Rechaçamos a idéia: todos sabíamos que era proibido descer o Ladeirão de skate, todos os pais já haviam prometido surras caso fizéssemos isso, porque descer uma ladeira de 100 metros com inclinação de quase 90 graus numa tábua sobre rodinhas era morte certa. Como iríamos explicaro André ali, entalado? Deixá-lo levar a culpa sozinho era inconcebível. Aos dez anos, lealdade é uma virtude automática. Cogitamos o uso de alavancas, manteiga pra deslizar melhor, bombinhas de São João…

- Bombinhas, Mauro?
- Ah, a gente explode o carro!
- Mas e o André?!
- A explosão sobe, não vai machucar o Deco não e…

Perdi o contato com o Mauro, mas tenho certeza que hoje ele deve ser um terrorista. Continuamos com as idéias esdrúxulas, até que o Diego decretou:

- Vou chamar meu irmão.
- Eles são tão metidos, Di…
- Ah, mas o Cris vai saber o que fazer.

O irmão mais velho do Diego era o Cris, um moleque de 16 anos, alto, com cabelos louros queimados de sol, sardas charmosas espalhadas pelo rosto, um verdadeiro rei da vila. Ele veio, acompanhado de seu séquito de mocinhas de 14 anos recém admitidas na turma dos mais velhos e de seus fiéis escudeiros, que tentavam em vão cortar o cabelo como o dele, sem nunca conseguir o efeito desalinhado casual perfeito.

- O que vocês fizeram com o Deco?
- Cris, ele entalou aí e não sai mais…
- Pô, vocês são muito crianças mesmo.
- Mas o que tem a ver a gente ser mais novo com o Deco ter entalado aí? Culpa dele mesmo que foi se meter a andar de skate sem saber, isso sim!
- Não enche, Gabi.

Me calei. Cris olhou para o Fiat, refletiu sobre a situação. Chamou seus amigos mais chegados e começaram a conferenciar, em voz baixa. Nós, solidários, aguardávamos perto do André, que por sua vez já havia se conformado em morar debaixo do carro pra sempre e me pedia um pedaço do meu chiclete:

- É só um teco, vai!
- Aí que você vai entalar de vez. Não dou.
- Muquinha!
- Baleia!
- Ô, me empresta a sua revistinha do Pato Donald, vai?
- Tá. Mas a história é repetida, quer a do Batman?
- Quero!

Enquanto André lia a história, Cris emitiu seu parecer embasado sobre a situação:

- Vamos levantar esse carro.
- Oooohhhhh!

Com as meninas suspirando, Cris chamou todos os moleques mais velhos da Vila. E eles vieram, com suas roupas fluorescentes, seus sapatos London Fog, suas camisetas da OP. Cercaram o Fiat 147, e começaram a levantá-lo. Com voz de comando, cujo efeito era apenas levemente estragado por uma desafinação comum aos rapazes da sua idade, Cris bradou:

- Puxem ele pra fora!

E nós puxamos, arrastando André de sob o carro, libertando-o das garras de metal do Fiat. Em câmera lenta, André se levantou, as meninas deram gritinhos, a criançada fez uma dança de comemoração, e os moleques soltaram o carro de uma vez só, fazendo com que o alarme disparasse. Isso estragou o efeito, porque todo mundo saiu correndo em direções diferentes, pra poder chegar em casa e fazer cara de santo quando os adultos fossem ver o que tinha acontecido.

- Ai, esse alarme do carro do seu Paulo vive disparando, né?
- É mesmo, né mãe?
- Tó, come uma maçã que a janta vai demorar.

Comi minha maçã, depois desci de novo pra brincar. Os mais velhos já estavam lá na Pracinha, fumando escondido e ouvindo Ira!. A molecada já estava correndo, andando de bicicleta, atirando insultos contra a rua de baixo. André já havia apanhado de sua mãe e sido devidamente coberto por mercurocromo, pra sarar os ralados.

A vida voltara ao normal na Chácara das Rosas, e os adultos nunca souberam o que houve entre o Fiat 147 e um menino gorducho, que uniu momentaneamente as duas turmas da vila, separadas pelo abismo da puberdade.

19 Responses to “O Fiat 147 e o gordinho entalado”

  1. Gabi says:

    Cara, que historia bonita. Me deu vontade de chorar. A frase final então…hahaha. Fico aqui imaginando a situação e rindo sozinho no trabalho.

  2. Gabi says:

    Compartilho da idéia das bombinhas. Po, nessa epoca ainda estava passando McGyver na TV, ele deve ter aprendido alguma coisa.

  3. Gabi says:

    Taí… clap! clap! clap! A história já era boa quando vc contou na cozinha do Jr. Mas ficou sensacional agora… =O)

  4. Gabi says:

    carai’, isso é um épico deviam fazer um curta sobre isso *-* fodão (Y) Fui Me Stay (SIC)

  5. Gabi says:

    Se fosse eu usava morteiros. E pasta de dente.

  6. Gabi says:

    Eu nem preciso dizer que eu tacaria fogo no 147. Afinal de contas, minha fama de piromaniaco so e menor que a do Nero. Se bem que era um 147 com alarme, algo que nao pode ser queimado… :o P

  7. Gabi says:

    Isso era uma tarefa para o Chapolin Colorado!! Meu idolo… Bjs

  8. Gabi says:

    GENIAL!!! GENIAAAAAAAL!!!

  9. Gabi says:

    Aaaaah, Gabi! Que delicia de historia! Que saudade de ser crianca! Mas caramba, sera que os moleques da rua de baixo sao SEMPRE uns malas? Hehe, beijo!

  10. Gabi says:

    Há algum tempo venho lendo seu blog e os do pessoal da blogagi. Vcs estão de parabéns. Mandam mto bem. Honram o mundo blogueiro. E esse post tá do caralho! *aplaude de pé*

  11. Gabi says:

    Um post lindo, com sabor de infancia. bj

  12. Gabi says:

    Gabi, que post fantástico!! Me lembrou minha infância e meus olhinhos chegaram até a cogitar umas lágrimas. E essa parte aqui ó: “…E eles vieram, com suas roupas fluorescentes, seus sapatos London Fog, suas camisetas da OP…” foi extremamente fiel ao final dos anos 80. Sensacional!!

  13. Gabi says:

    “- Não enche, Gabi.” E depois de 10 anos se casaram e viveram felizes para sempre :wub:

  14. Gabi says:

    hmmm e como tah o Cris agora, hein??? :P bjokas!

  15. Gabi says:

    Puta merda, o gordinho da turma sempre se fode. obs: post foda de legal, Gabi!

  16. Gabi says:

    é o tipo de post que não tem como não gostar… lindo lindo!!!! mas “a gente explode o carro” foi a melhor frase de todas hauhaahhauhauahauhuahau

  17. Gabi says:

    O foda de criança é que mesmo fazendo cagada e machucando, elas insistem e fazem tudo denovo. Aposto que na outra semana já tinha nego descendo a rua de skate denovo….

  18. meme anual | says:

    [...] Ano do também memorável acidente envolvendo um gordinho, um Fiat 147 e um monte de crianças. 4) A Rita Hayworth morreu. Lembro de ver a cena dela tirando as luvas no [...]

  19. Castor says:

    Excelente.
    Gostei do seu estilo.

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