Meu primeiro amor
1989 foi um ano atribulado: A queda do Muro de Berlim simbolizava o fim da Guerra Fria; um jovem estudante no meio da Praça da Paz mostrava ao mundo que é possível desviar um tanque usando apenas uma camisa como arma; morreram Hiroito, Imperador do Japão desde que eu podia me lembrar, e o Aiatolá Khomeini, o terrível homem malvado que assombrava o Irã; morreram Sergio Leone, Dina Sfat, Salvador Dali e Bette Davis; perdemos Nara Leão, Raul Seixas e Luiz Gonzaga; e no fim do ano, o país elegeu seu primeiro presidente por voto direto, o desditoso Fernando Collor de Mello.
Mas nada disso era muito importante. Pois foi em 1989 que me apaixonei pela primeira vez. No dia 22 de Junho fui ao cinema ver a estréia de Indiana Jones e a Última Cruzada. Fui ao Olido, um imponente cinema na Avenida São João, que posteriormente decairia como o Centro que o cercava, se tornando primeiro um cinema pornô e depois uma igreja evangélica. Mas em 89 o Olido ainda estava aberto, e eu fui assistir a nova aventura de Indiana Jones.
Chapéu, cavalos, tanques, nazistas, deserto, Sean Connery: tudo que uma garota pode querer
Pipoca fria do pipoqueiro em frente ao cinema numa mão, guaraná de latinha na outra, e no bolso uma caixinha de mentex. As luzes se apagaram e as primeiras imagens apareceram na tela. Como sempre, o filme começava com Indy passando por uma peripécia heróica qualquer. Ao contrário dos filmes anteriores, no entanto, esse Indy aparecia bem jovem no início, um adolescente. Estrelado por River Phoenix, o prelúdio mostrava como o herói conseguira seu chapéu, sua cicatriz no queixo e sua fobia de cobras. E foi em algum momento desse prelúdio que me apaixonei por Indiana Jones. Não pelo River Phoenix ou pelo Harrison Ford: Pelo Indiana mesmo.
Vale uma explicação : O primeiro filme estreou em 1981 e o segundo em 1984. Logo depois que o segundo saiu em vídeo, minha mãe apareceu em casa com cópias em VHS dos dois, alugadas numa locadora chamada Real Vídeo. Um catálogo de capas xerocadas expunha as famosas cópias piratas dos filmes, numa época em que uma película demorava até 1 ano pra sair em VHS. Minha mãe, apesar de honestíssima, era (e é até hoje) fã incondicional de Harrison Ford. Então ela deixou de lado o respeito à lei e levou as duas fitas piratésimas para casa, e nós assistimos aos dois filmes de uma tacada só em nosso vídeocassete de 4 cabeças novo em folha, numa tarde de sábado.
Eu tinha uns sete ou oito anos em 1985. E depois de ver esses dois filmes, transformei minha corda de pular em um chicote, um chapéu de palha remanescente da festa junina virou o chapéu de Indy, e todas as crianças da rua se alternavam no papel de nazistas, ou de amigos do Indy, ou de índios canibais. Como eu era a única a ter um chapéu, naturalmente eu sempre era o Indiana. Ou a Indiana. Ou a irmã mais nova do Indy. Ou até a nazista, de vez em quando. Muitas tardes foram passadas desbravando o mato em busca de relíquias, descendo a ladeira em alta velocidade fugindo de uma pedra gigantesca que nos perseguia ou fazendo cara de nojo enquanto comíamos cérebro de macaco (que até segundos antes era apenas um igualmente nojento bife de fígado que minha avó havia refogado).
A brincadeira durou anos e eu fui uma aplicada aluna de História na escola, porque tinha certeza que estudaria Arqueologia e descobriria tesouros. Aí, em 1989 veio o terceiro – e supostamente derradeiro – filme do Doutor Jones. Eu estava naquela idade complicada na qual ainda se tem vontade de brincar na rua, ao mesmo tempo em que os meninos da nossa idade começam a parecer bobos enquanto os garotos da sétima série parecem ser tão mais maduros. E naquele cinema da Avenida São João, meu coração deu pulinhos ao ver o jovem Indiana Jones correndo, saltando, caindo e lutando, tudo isso sem perder o chapéu. Voltando pra casa, empolgadíssima, queria escrever cartas de amor pro Indy. Arrumei um poster do filme e colei na parede do quarto. Eu tinha certeza que ia encontrar o Indiana Jones. Mesmo aos 11 anos, ainda era sonhadora o suficiente para ter certeza que ele existia de verdade: ninguém poderia inventar um cara tão legal.
Depois de alguns meses a paixão arrefeceu, depois de alguns anos desisti da Arqueologia, e quase vinte anos depois chega a informação que um novo filme estva a caminho. Acompanhei os rumores, a escolha de elenco e amei saber que Marion Ravenwood iria voltar. E agora, na quinta feira, estréia Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, a quarta aventura do meu arqueólogo favorito. Acabei de ler a coluna do Barretão, que já teve o privilégio de assistir a uma cabine pra jornalistas. Ele não estraga a surpresa do filme, mas conta que a aventura está toda ali.
Não tenho mais 11 anos. Mas tenho certeza que na quinta feira, ao assistir a sessão das 12:50 de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal eu vou me apaixonar de novo. Ou pelo menos, terei vontade de estalar um chicote por aí.
Ignoremos os 65 anos. Tá lindo, Indy.


É bizarro quando você fala das coisas que fazia enquanto a gente morava quase do lado, mas não se conhecia ainda. Eu morava na frente da Real Video.
gabi, seu texto é delicioso de ler, o tema é mto bacana, e me transportei completamente p minhas infância nos ’80s. bateu nostalgia.
não que eu fosse desesperada pela franquia, mas sempre achei o indiana jones um gato (quando descobri q ele era elE ao ve-lo pela 1a vez na tela, pq até então eu achaa que INDIANA era uma mulher rsrsrs).
enfim, bom demais ler coisas assim.
Oi Gabi! Tudo bem?
E aí, gostou do filme?!??!
Bjaoooooo e saudade!