16
Jul

Meu pai, um cara bacana

por Gabi

Hoje estava no twitter acompanhando a saga maluca do Rob de postar 24 textos em 24 horas (não perguntem, coisa de doido) quando vi uns tweets da Deh falando sobre a morte do pai dela estar completando um ano, e como ela tinha saudades. Um dos tweets mexeu muito comigo:

“Pronto. Chega de tristeza. Amor dá força pra gente, e meu pai me deu tanto amor q tenho reserva pra mto tempo. Vamo em frente.”

Na hora respondi que o meu pai se foi há 20 anos, mas que essa reserva de amor que ele me deixou ainda estava aqui comigo. E que essa reserva dura muito, muito mesmo. E os tweets da Deh sobre o pai dela e como ele era bacana fizeram com que eu pensasse em como meu pai também era bacana, e daí pra achar que eles se conheceram lá do outro lado foi um pulo: já imaginei os dois falando de futebol e comendo churrasco. A Lidi entrou na brincadeira, com um pai que não gostava de futebol, mas que podia entrar na roda e na conversa. Porque eu acho que todos os pais bacanas merecem se encontrar no céu dos pais bacanas e fazer coisas legais, tipo comer churrasco, tomar cerveja, brincar com o cachorro, ver o time ser campeão, ler o jornal de domingo, deixar a barba crescer, ouvir música boa.

Eu acredito mesmo que pessoas boas, quando morrem, vão pra um lugar bom, onde elas podem fazer todas as coisas legais que faziam em vida. E meu pai era um baita cara legal. Ele me ensinou a gostar de Beatles, a acender churrasqueira, a comer pizza com guaraná no domingo de manhã. Me deixava nadar na piscina funda do clube, me ensinou a jogar sinuca, deixou eu ler Drácula escondida debaixo do cobertor à noite, me deu de presente a trilogia do Senhor dos Anéis, mandou uma flor pra mim quando fiquei menstruada pela primeira vez. Ele era corintiano, cervejeiro, militante de esquerda, barrigudo, com barba e bigode bem aparados.

Numa das fotos que tenho dele, ele está sentado no colo de um amigo que se vestira de Papai Noel, com uma cerveja na mão e uma baita risada no rosto. Não lembro desse dia, mas lembro do dia que ele me deu uns tapas quando eu estava me pendurando pelo varanda do apartamento no sexto andar, a única vez que ele me bateu – mais por medo de que eu caísse do que pra me punir, claro. Lembro também de uma vez na praia quando cavamos um buraco enorme e fizemos um castelo e a água levou tudo e eu chorei – e ele me ajudou a fazer outro castelo mais pra cima, onde as ondas não chegavam.

Ele me deu a primeira revista Superinteressante que li, jogava Atari comigo, tinha uma casinha de ferramentas nos fundos do quintal onde eu podia brincar à vontade. Me levou pra andar de moto e eu morri de medo e chorei e ele nunca mais insistiu. Uma outra vez, eu chorei de medo porque uma perereca grudou no meu braço, e ele só riu e falou que não tinha porque ter medo, e me ensinou que o bicho tava mais assustado que eu. Eu aprendi que tem medos que devem ser enfrentados, e outros respeitados.

Ele tinha muita paciência comigo, e assim como eu, sua raiva era fogo de palha – ele ficava p da vida e na sequencia, esquecia e dava risada de outras coisas boas. Ele tentava ver o lado bom de cada um,  e me ensinou que nem sempre devemos brigar, que as vezes é melhor aceitar o que não pode ser mudado e lidar com isso de uma vez.

Hoje, 20 anos depois que ele morreu, me lembro dessas coisas boas todas e penso que ele olha por mim de lá do outro lado. Cada vez que acontece alguma coisa importante na minha vida – formatura, primeiro emprego, emprego melhor, casamento – eu imagino que ele olha e fica orgulhoso de mim. E eu tento fazer coisas que o deixariam orgulhoso. Eu acho que ele se daria muito bem com o Eric, mesmo ele sendo são-paulino e não tomando cerveja. Eles iam brigar muito, mas iam ser amigos. E acho que ele ia gostar dos meus amigos.

Eu acho que ele teria orgulho de mim pelo que sou hoje, e isso me deixa feliz.

Então, esse post é pra ele, pra ele saber que a filha dele cresceu, aprendeu um monte de coisas com ele e levou pra vida esse estoque de amor que a Dehbora falou. E o post é pra Deh e pra Lidi e pra todo mundo que teve o pai mais legal do mundo, seja por quanto tempo foi, e que tem saudades dele, não importa há quanto tempo ele tenha partido.

12 Responses to “Meu pai, um cara bacana”

  1. Isa says:

    Lindo, Gabi :´)

  2. lilla says:

    não tenho nada além de “que lindo” a dizer.

    que lindo.

  3. Gabi, quase morri de chorar com seu post. Meu pai já se foi há 14 anos e ele era assim, igual o seu. Eles devem mesmo ser amigos no ceu dos pais.
    Sinto por nao ter ele perto pra nos fazermos juntos coisas que nós dois gostavamos como andar a cavalo, sonhar com um negocio proprio ou produzir um bolo com cara de palhaço. Mas acho tb que ele deve se orgulhar de tudo que eu sou e conquistei até hj.
    Obrigado pelo post que vc compartilhou! É bom lembrar as vezes que tem pessoas que sentem o mesmo que a gente.
    bjos

  4. Ariane says:

    Gabi, muito lindo seu post!
    Nós que não temos mais a companhia dos nossos pais (o meu não estão comigo ha 5 anos) sabemos o quanto eles foram importante para nós, e serão até o fim das nossas vidas. Não então de corpo presente mas deixaram uma presença de espírito muito grande! Eu também penso em como ele ficaria orgulhoso de ver a filha dele batalhando pela felicidade!

    Beijo
    Ariane

  5. Deh says:

    Gabi,
    Eles devem mesmo estar juntos… O meu deve ter pedido pro seu inspirar vc a escrever esse texto tão lindo, num dia tão saudoso, como hoje, pra mim. Existe, sim, o céu dos pais amorosos (que não os isenta de terem sido errantes), que nos dá algum alento pela falta imensa que eles nos fazem aqui. Sem palavras pra agradecer seu carinho. Obrigada mesmo. E sem mais choro, que se o Sr. Hilário tivesse aqui não ia gostar nada de lagrimas. Ele me ensinou que a gente tem que ser forte, pq “o mundo não dá moleza, não!” Um beijo grande pra vc e pra Lidi. Amor, amor, amor. Deh

  6. dani cruz. says:

    chorei, gabi…
    muito lindo mesmo. certeza que teu pai tá lá no céu dos pais bacanas mostrando pros amigos dele no bar ‘olha só o que minha filha escreveu, como ela é incrível’.
    porque pai é assim, né? adora se gabar das pequenas princesas que tem em casa.

    eu ainda tenho meu véio aqui. amo demais ele. tô estocando o amor todo pra quando ele não estiver mais.

  7. Dani says:

    Gabi, mês que vem fará um ano que meu pai se foi. E ele tb era Corintiano (mesmo vivendo há 12 anos no Rio de Janeiro, se manteve fiel) e cervejeiro, como o seu! Falava de futebol todo santo dia, e foi com ele que eu aprendi a entender quando o meu Fluminense caiu.rs
    Com ele eu aprendi a gostar de Raul Seixas, aprendi a não levar tudo tão a sério, a batalhar por coisas que queremos, mesmo que outras pessoas possam considerar fúteis ou tolas. O que me deixa triste é só ter dado esse valor a ele depois que ele se foi. Foram muitos erros que ele acumulou,com minha mãe com a fampilia dele.Mas depois de tudo passado, eu percebi que teve uma pessoa com a qual ele nunca errou: eu.

    O amor que nossos pais nos deram vão ficar com a gente pra vida toda, disso eu tenho certeza. É difícil suoperar e continaur vivendo e respirando e trabalhando, mas não tem um dia que eu não lembre do meu pai, com carinho e amor. É esse amor que me faz acordar todos os dias.

    Beijos.

  8. Gabi, tem muito tempo que eu não comento aqui
    Apesar de sempre ler. É como oque o Diego (Paiva) me disse: o Reader facilitou o acesso do leitor mas afastou o leitor do autor.
    Enfim…

    Eu só vim te dizer que são quase 05:30h da manhã e eu to aqui chorando e lendo o seu post com um misto de tristeza, alegria e conforto. Sei lá por que.

    O meu pai morreu quando eu tinha 01 ano. São 26 anos e tudo que eu sei dele, foi o que me contaram. E tudo de bom que ele tinha, são as histórias que ficaram. Como por exemplo, a história do primeiro presente que ele me comprou, antes mesmo de eu nascer: um livro. Pq “um dia ela vai aprender a ler e esse vai ser o primeiro livro dela”.
    Ele era bancário, nerd, fã de Beatles e de matemática. rs
    E jogava futebol, era goleiro.
    Espero que ele esteja falando muito de futebol com os pais bacanas citados no seu post.

    Fiquei mesmo emocionada. Por isso vim aqui.

    Beijos querida

  9. Carla says:

    Gabi,

    parabéns por essa abrida de coração que mexeu com todos os teus leitores. Para mim que ainda tenho meu pai, e depois de uns 8 anos de afastamento me reaproximei dele nos últimos meses, fez pensar o quanto a vida pode ser curta para nos afastarmos de pessoas tão importantes, e que nada deve ser motivo suficiente para nos permitir se distanciar do pai da gente.
    Obrigada por compatilhar conosco dessa sua lucidez tão linda.
    bjus

  10. Eu li seu post e vi tanta coisa em comum com o meu pai… ele graças a Deus está comigo, aguentando uma barra que é vencer o mal de Parkinson diariamente, nas pequenas coisas que faz. Ele dizia pra mim que tinha medo de eu nunca mais pensar que ele fosse um super herói, como eu o via quando pequena. Isso porque eu crescia e via os defeitos que ele tinha, e passaria a vê-lo como alguém ‘real’. Ele foi meu pai e minha mãe; me levava pra escola, me ensinava a fazer sanduíches, jogávamos pedras achatadas em lagos, levávamos farelo de pão do café da manhã pra alimentar os peixes do Campo de Santana. Pequenas grandes coisas, eu vejo. Às vezes penso que essa minha ligação com meu pai vem de outras vidas, sabe? Ele compensou o que minha mãe nunca foi pra mim, e assim como o seu pai, ele me presenteou quando fiquei ‘mocinha’, só que com uma agenda. Hoje eu sou adulta e vemos quanta barra passamos. JUNTOS. Ele que é um paizão, mora com a minha meia-irmã, marido e filho, que tem síndrome de Down, e engraçado, meu pai e o neto têm a mesma ligação que tínhamos na minha infância. Mateus não fica sem ele, é ‘vovô, cá’ a todo instante, do alto de seus 82 cm. E meu pai dá amor que é maior que o universo. Por isso que, assim como você e a Deh, sei que minha reserva vai se estender pelo resto da minha vida e para os filhos que eu vier a ter, independente de onde meu pai vá viver depois da morte de sua matéria. E bem, ele vai estar melhor que a gente, isso, com certeza.

  11. Sorte de todas vcs, que tiveram pais, que eram legais para se lembrarem. :(

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