12
Oct

Life to The Pixies

por Gabi

Ver o Pixies ao vivo é tipo assistir ao sol nascer pela primeira vez. É um negócio muito bonito, muito legal, muito grandioso, mas sem alarde. Assim como o Sol não manda um memorando pros outros corpos celestes avisando que nascerá por volta das 6 da manhã, Pixies não avisa que é uma banda foda. Eles não são tatuadaços, não gritam palavrão no microfone, não usam roupas maneiras, e ao contrário de outras bandas cujos vocalistas ficam berrando “ARE YOU READYYYYYYYY?” pra tentar levantar a platéia, o gorducho, mal vestido e esquisito Frank Black se limita a espancar a guitarra e berrar as letras ao microfone. Kim Deal, gorducha, mal vestida e fofa se limita a soltar uns “obrrigadou” e dar risadinhas espremidas entre as músicas.

pixies

E não, isso não é um problema: a banda emendou sucessos e lados B, num compasso maluco de 1234ROCK1234 sem pausa pra respirar. Não dava tempo de bater palmas no fim da música, nem de sentir frio, nem de perceber se o cara do meu lado tava me chutando ou não. Eu só pulava e cantava como louca, sorrindo sem parar, até doer as bochechas. A banda dos tiozinhos de Boston não me desapontou e tocou minhas músicas favoritas, desde a conhecidinha Wave of Mutilation até a obscura Tame, uma musica berrada a plenos pulmões por Black Francis – no comecinho do show ele ainda conseguia gritar, no bis (Where is My Mind) ele já estava sem voz e deixou a galera cantar por ele. Teve ainda Hey, Caribou, a fofa La La Love You, No13 Baby, Velouria, Here Comes Your Man… pra fechar, Kim cantou Gigantic com sua voz de menininha e eu fui subindo pra saída antes do final da música – não queria que o show acabasse, então era mais fácil fingir que eu estava indo embora apenas porque estava cansada e não porque estava de fato terminando.

pixies (1)Todo mundo mais jovem, mais magro e com cabelo

Foi um dos melhores shows que já vi – e olha que eu assisti Nirvana em 93 e Neil Young no Rock in Rio 2001. Pixies não muda, e apesar de seus integrantes estarem todos gordinhos, velhinhos e cansados, a energia maluca deles não permite que as canções envelheçam.

Pixies é uma puta banda, que nunca se entregou ao mainstream – e não tô falando de sucesso, e sim de todo o esquema sexo drogas e rocknroll que muitas bandas adotam. Eles nunca fizeram shows com mega produção e odeiam fazer clipes: Velouria é uma câmera lenta dos 4 correndo numa pedreira, Here Comes Your Man mostra a banda apenas abrindo a boca e não cantando, e os demais clipes são sempre a galera tocando e pronto. Eles não curtem dar entrevistas, se separaram porque Frank e Kim brigavam no nivel de jogar instrumentos na cabeça do outro, juraram o fim da amizade, voltaram a se falar por conta de grana, e nos últimos 6 anos têm feito turnês consistentes e sempre sold out. Em 2010 eles comemoram o 20o aniversário de Doolittle, um álbum filho da puta de bom, que abre com Debaser e fecha com Gouge Away, e que foi influência pra muita gente, como Radiohead, Nirvana, Weezer e a maior parte dessas bandas de garagem que você ouve e acha descoladão. Sabe a coisa de música que tem uma parte devagarzinho e outra berrada? Pois é, coisa deles. Ouçam Tame, Debaser ou Gigantic e entendam. Três carecas e uma gordinha mandando ver no palco e sendo muito mais foda e rock’n'roll do que qualquer bandinha modernete. Lidem com isso.

A tiazinha aqui se sentiu de novo com 15 anos. Obrigada por uma noite memorável, queridos. No fim do show eu tava tão cansada e sem voz quanto vocês, exatamente como deve ser no fim de um show de rock.

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Sobre o festival em si, queria falar algumas coisas: Eu não ia ao SWU. Com 33 anos, a idéia de passar 3 dias enfurnada em barracas, tomando banho frio e comendo porcarias não me animava muito. No fim, de última hora, decidi encarar pelo menos um dia, o último, pra poder ver Pixies e pro Eric ver Incubus e QOTSA. Saímos de SP meio apavorada com os relatos de terror da galera. Fomos depois do almoço, trânsito tranquilo. Achei o local do evento sem stress, tinha placas indicativas. Estacionei, paguei caro pra cacete pelo estacionamento e fomos a pé até a entrada, uma caminhada de uns 15 minutos. Fila pra entrar, mas dentro do esperado. A revista foi bem meia-boca, dava pra entrar com qualquer coisa menor do que uma escopeta ou um tijolo de heroína. Atrás de mim, uns caras comentaram que era mais  fácil entrar com maconha do que com um pão, e que se o cara conseguisse entrar com uma bandeja de mussarela ia virar herói e render mais grana que tráfico de drogas.

Sempre acho absurdo esse lance de shows proibirem que se entre com alimentos e bebidas de fora, especialmente água. Lá dentro, os preços eram altos, como sempre: refri por 5 reais, hot dog por 8 pilas. Pra fugir da fila, compramos as fichinhas em um caixa perto do palco, mais vazio, e fomos pegar os lanches do outro lado. O banheiro estava sujo mas não peguei fila, pelo menos. O som estava bem bom nos shows do Avenged Sevenfold, Incubus e Pixies, mas deu uma microfonia bizarra no show do Queens, depois arrumaram.

Um ponto bem positivo foi a questão de ter 2 palcos principais, um ao lado do outro, onde as atrações se revezavam. Isso reduziu os atrasos – o único que atrasou de fato foi QOTSA – porque enquanto uma banda tocava, no palco ao lado rolava a organização da outra banda. Entre QOSTA e Pixies, por exemplo, teve uns 10 min de intervalo, se tanto. Outra idéia bacana foi colocar os palcos numa descida, aí os baixinhos que estavam mais atrás conseguiam ver direitinho e não apenas pelo telão.

Na hora de ir embora, acho que por conta de não ter ficado até o fim do Linkin Park porque sou velha não gosto muito do som deles, não tive stress de sair do estacionamento. Saí dos shows depois da meia noite e antes das 2 estava em casa, isso porque paramos pro Eric comer mais um lanche do lado de fora.

Pra amarrar o festival, faltou só levar a sério a questão da sustentabilidade: não adianta nada fazer a galera do camping tomar banho de 7 minutos e gastar milhares de copos plásticos pro refri, assim como não adianta cobrar caro pelo estacionamento e não disponibilizar transporte coletivo de maneira decente. Eu teria ido de ônibus na boa, não fossem as histórias assustadoras de ônibus demorando 4 horas pra chegar lá.

Ao fim das contas, eu não vivi problemas de organização. Acho que a minha sorte foi ter ido apenas no último dia, onde a produção teve tempo pra melhorar algumas coisas e eu mesma pude ir preparada – levando casaco, por exemplo, pra fugir do frio de 10C. Quem foi no primeiro dia se deu bem pior, pelo que soube.

No fundo, saí de lá bem satisfeita, por conta do showzaço que havia acabado de ver. Valeu cada centavo gasto e o frio, a dor nas pernas e o cansaço. Que voltem mais vezes os tiozinhos de Boston.

5 Responses to “Life to The Pixies”

  1. SrtaRozz says:

    Inveja master de vc, Lôra!

  2. CrisGusmao says:

    A organização evoluiu claramente durante o festival, isso foi muito bom. No primeiro dia faltou transporte, comida, bebida, fichas, blusa… =/

    A questão da sustentabilidade é que doeu as vistas… muito copo, lata, garrafa e nenhum programa de refil ou algo assim… os altos precos sao sempre esperados.

    Doeu forte o tanto de comida na entrada sendo confiscada e jogada em cacanbas de lixo (tudo fechado, salgadinhos, sucos, biscoitos, agua). Me senti um traficante enchendo os bolsos, capuz e tudo o que podia com barrinhas e frutas… Drogas tinha avontade, comida é que era o artigo de luxo… =)

    Pixies é muito bom, mas como fui nos 2 primeiros dias, nao me animei pra ficar mais um… nem eu, nem minha coluna… hahaha

    Vi o show pelo Multishow, debaixo das cobertas tomando chá com dorflex… 32 é foda.

  3. Nanci says:

    Menina, queria MUUUUITO ter ido ao SWU, valia para mim só pelo Queens of The Stone Age… acabei vendo o show pela tv… mas deu pra ver que foi bacanérrimo o show do The Pixies :-)

  4. :: Loma says:

    Hey ^^

    O importante que curtiu pakas (owww isso é velho kkk) tu falou tanto de idade, mas música é algo que nunca vem a velhecer, não temos o mesmo gosto por música, mas achei muito boa sua resenha sobre.

    Xoxo

    :: Loma

  5. [...] que nada pode superar um show que você viu aos 15 anos, mas aparentemente, não sou. Ano passado vi Pixies e foi tão incrível que achei que seria lindo ver qualquer banda da minha adolescência ao vivo. O show do Red Hot no [...]

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