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Há três anos…

by Gabi | May 15th, 2009

Surgiu no twitter esses dias a tag #ha3anos, pra gente contar o que fazia nesse momento. Fucei aqui nos arquivos do blog e descobri que há 3 anos eu estava conhecendo gente que ia ser importante na minha vida, estava trabalhando num supermercado para ricos e famosos e que São Paulo estava sendo assolada pelos ataques do PCC.

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Na época, fiz um post contando como as pessoas estavam em pânico. Agora, quero me lebrar do aspecto humano da coisa. Eu trabalhava num supermercado grã-fino, no Morumbi. Os funcionários, assustados, queriam saber como iriam pra casa. Dizia-se que as 18 horas iria acontecer um ataque maior. Corri atrás de fretamentos de van e kombi pra que as pessoas que moravam longe conseguissem chegar em suas casas. Os ônibus parados, táxis muito caros, e os funcionários chorando de nervoso. Se preocupando com suas famílias, porque celular ainda era certo luxo que alguns não podiam ter. Como saber se sua irmã está bem quando ouve-se falar que uma bomba explodiu no Largo 13,  justamente onde ela pega ônibus pra ir pra casa? E seu filho, será que saiu da escola e foi direto pra casa, quando as aulas foram suspensas? Aquela gente toda muito nervosa me partiu o coração.

Emails pipocavam com informações supostamente confiáveis sobre bombas, tiros, confusões. Era sempre o primo do amigo que tinha visto. Prática que sou, duvidei. Desde quando bandido avisa que vai matar ou destruir? Acessei a internet e fucei em alguns portais sérios de notícias. Vi que havia  tiroteios e confusões confirmados, e que a violência parecia se focar na polícia. Fiquei um pouco menos intranquila, afinal a cidade ainda estava de pé, mas me preocupava muito com as pessoas que estavam ali na loja, meus funcionários.

comercio

Enquanto isso, os chefes decidiam se iriam baixar ou não as portas. Depois de muita persuasão da minha parte, decidiram fechar por volta das 17hs. Uma cliente muito bem vestida fazia suas compras sem pressa alguma. Escolhia chocolates importados enquanto fechávamos os caixas, os setores iam ficando às escuras e as pessoas pouco a pouco iam saindo. A compra dela fui eu quem passei no caixa: decidimos liberar logo o pessoal que iria de van pra casa. De repente, ela me pergunta:

- Estão com algum problema na loja?
- Como, senhora?
- Notei que estão fechando as portas… está tudo bem?
- A senhora não está sabendo? o PCC está coordenando um ataque à cidade, ordenando toque de recolher, segundo boatos.
- Mas vocês vão fechar por causa disso?
- Sim. Não há ônibus e os funcionários precisam ir para casa.
- Eles moram longe daqui?
- Sim, bastante. Embu, Taboão… Mais de uma hora de condução.

Ela riu e abanou a cabeça como quem diz “nem sei onde ficam esse lugares, nem sei o que é PCC

Passei as compras, ela pagou com seu cartão de crédito repleto de estrelas platinum premium e foi embora, no seu carro com motorista. Fechamos a loja, deixando ali um segurança trêmulo. Ao sair, disse baixinho pra ele, pro diretor não ouvir: “Edson, se acontecer alguma coisa, foge, se esconde, entrega o que pedirem. Não vai tomar um tiro por besteira. A gente tem seguro, viu?“. Ele me olhou agradecido e acenou, observando de longe, com o rádio na mão, enquanto meu carro se distanciava.

A volta pra casa foi rápida. Não havia ninguém nas ruas. Sintonizei uma rádio de notícias e fui ouvindo sobre o pânico, que àquela altura já havia diminuido. A repórter entrevistava um coronel da PM e este pedia calma à população, e pedia que parassem de espalhar boatos e acreditassem apenas nas notícias confirmadas pela polícia. Eu estava acreditando justamente nisso quando atravessei a cidade, levando 15 minutos pra chegar do Morumbi até Perdizes.

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Naquele dia, o medo dominou minha cidade. Tive uma pequena amostra de como vivem as pessoas quando o Estado perde o controle e fica cada um por si. Naquele dia, uma segunda feira, tivemos nosso dia de Cabul ou mesmo de Rio de Janeiro. Um dia de ser conduzido pelos bandidos e pelas pessoas bem-intencionadas que inadvertidamente espalharam boatos tenebrosos.  Nom Ducor, Duco. Esse é o lema de São Paulo e está na nossa bandeira.No dia 15 de maior de 2006, fomos conduzidos. Não conduzimos.

Post inspirado pela postagem do Inagaki de hoje, verdadeiro cutucão na ferida do comodismo paulistano.
Imagens da Folha Online.

3 Responses to “Há três anos…”

  1. Daniele says:

    Noossa….me lembro bem deste dia! E pra piorar a situação, muito picareta quis colocar mais lenha na fogueira. No meu trabalho mesmo, explodiram uma bomba na frente do prédio um dia depois! Como todos ainda estavam super tensos com a história, foi o maior bafafá…mas pela “qualidade” da bomba, percebemos que era de qualquer desocupado, menos de um membro do PCC! Incrível o espírito de porco de certas pessoas…

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