29
Mar

Eu e o vestido da Zara

por Gabi

Segunda feira é sempre um dia difícil. Cyntia me liga:

- Vamos na Zara comprar roupa pra minha viagem?
- Mas eu não posso! Não tenho dinheiro! Tô cansada! Nem vai dar!
- Só te trago chocolates da Suíça se você for comigo comprar roupa hoje.
- Me pega em casa.

Aí eu falei com o Julio no telefone:
- Vou na Zara com a Cyntia.
- Tem certeza?
- Tenho. Já sei o que vou fazer pra não gastar: vou deixar um dos cartões de crédito em casa!
- VOCÊ PENSOU EM LEVAR OS DOIS???
*silêncio constrangido*
- Desculpa. Me exaltei.
- Tudo bem. Agora entendi como você se sente quando eu falo de cigarro…

Cada um com seus vícios.

Cyntia me pegou e fomos pro Villa Lobos. Saímos do elevador direto pra Zara.

A Zara. Templo máximo do vestir feminino. Roupas lindas, modernas sem serem pretensiosas, com modelagens fantásticas e desenhos incríveis.

A Zara. Metros e metros de araras, cabides, expositores. Milhares de blusas, regatas, camisas, calças, terninhos, saias, boleros, trench coats e vestidos.

Cyntia precisava de um casaco e uma calça, mais algumas blusinhas pra usar por baixo de malhas. Eu não precisava de absolutamente nada, mas é humanamente impossível entrar naquele lugar e não provar algumas peças.

Uma blusa marrom bordada, linda. Uma regata verde com um drapeado na frente. Um bolerinho preto básico.

- Olha que vestido fofo, Gá.

Pendurado inocentemente em uma arara num canto da loja, um vestido verde escuro. Feito de um tecido com caimento pesado, saia com corte evasé, acinturado, decote em V e costas um pouco abertas.

- Ah, meio lambido, Cy…
- Experimenta, a cor vai ficar ótima em você.
- Só tem tamanho P, não vai servir nunca.
- Experimenta logo!
- Tá, tá…

Fui até o provador. Botei o vestido.
*Um holofote se acende. Música de fundo inicia*

Por Deus. O vestido parecia costurado no meu corpo. Meus ombros enormes pareciam delicados. Minha cintura, minúscula. Minha bunda… oras, minha bunda ficou linda!

A cor era um verde escuro que combinou exatamente com meus olhos. Meu pescoço parecia longo e delicado como o de Audrey Hepburn.

- Oh meu Deus.

Pasma, fiquei me olhando no espelho. E foi aí que eu vi refletida a etiqueta de preço, pendendo inocente da costura da manga.

- Caraleo!!!

Cyntia, enfiada dentro do provador, bota a cabeça pra fora:

- Que acontec… puta merda, que vestido lindo!
- E é tamanho P.
- Minha nossa…
- Custa quase quatrocentos reais.
- Mentira.
- Olha aqui!

Estendi o braço balançando a etiqueta ofensiva. Lágrimas afloraram aos meus olhos. Eu nunca mais queria tirar aquele vestido.

Cyntia provava roupas e mais roupas. E eu lá, com o vestido verde escuro.

Nove e meia da noite, Cyntia com uma pilha de roupas prontas pra passar pelo caixa, inclusive um trench coat maravilhoso e uma bermuda social que só pessoas que têm mais de um metro e setenta podem almejar usar sem ficarem ridículas.

E eu ainda com o vestido. Num momento de temeridade, perguntei à vendedora em quantas vezes ela poderia parcelar a compra. Em três vezes, no máximo. Eu cheguei a fazer cálculos mentais: “Se eu parar de gastar o telefone, e não comprar besteira no supermercado, e vender meus tickets alimentação e…”

Mas me lembrei da voz de Mariazinha, minha gerente do Itaú, que havia me ligado na semana anterior e suavemente informado o quão negativa minha conta estava.

Voltei ao provador, tirei o vestido e me despedi dele num momento horrível de separação. Ao me afastar lentamente, olhei para trás para um último adeus.

O desgraçado do vestido já estava nos braços de outra mulher.

Bah, vestidos. São todos iguais. Ainda bem que eu já estava tendo um caso secreto com uma regata verde, um bolero preto e uma blusa marrom.

9 Responses to “Eu e o vestido da Zara”

  1. Gabi says:

    Juro, juro mesmo que nao foi em tom de censura, mas sim abismado. Eu nunca levaria dois cartoes de credito na Livraria Cultura, por exemplo, ou minha colecao de jornalismo literario ficaria completa. E eu teria mais um credor para chorar no meu tumulo, anos depois… :o P Agora, tao dificil quanto Fisica Qauntica: “Feito de um tecido com caimento pesado, saia com corte evasé, acinturado, decote em V e costas um pouco abertas.”. hehehehehe… Belissimo texto Gabi! Beijocas…

  2. Gabi says:

    Gabi, queridona. Agora eu quero lan?ar o livro!!!! Rachei o bico e ainda passei para todo o pessoal do trabalho!

  3. Gabi says:

    - Gabi, nao chore. Quatrocentos reais da pra tomar umas 360 latinhas de cerveja! =D – E pra que tanta producao? Vc so precisa de um shorts preto. Faz mais o stilo da Isis : )

  4. Gabi says:

    Homens s?o todos iguais. Vestidos s?o todos iguais. Come?o a achar que as mulheres tem uma mania de generaliza??o quando n?o conseguem o que querem.

  5. Gabi says:

    Po Gabs, vc ta perdendo a mao da sua vida. Quando vi vc descrevendo o vestido (que convenhamos, foi desenhado por um engenheiro) pensei que o post (e a historia) acabava com algo como: “E sai da loja, o vestido como uma segunda pele embaixo das minhas roupas…” :-P

  6. Gabi says:

    O homem tem o mesmo sentimento com cerveja e lojas de CD’s.

  7. Gabi says:

    S? uma perguntinha: que cazzo ? um bolero? Pra mim ? s? uma m?sica meio cafona muuuito antiga…

  8. Gabi says:

    Darling, voc~e não imagina como eu entendi esse drama Zara + vestido + desapego. Ainda bem que você superou logo.
    E a Zara é coisa do capeta, nunca entro lá se não puder gastar nada. recomendo que passe a fazer o mesmo. É mais seguro.

  9. [...] posts que mais gosto são os de histórias. O vestido da Zara. A cliente vidente. O sapato roxo. O gordinho e o Fiat 147. E são histórias bobas, simples. E [...]

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