É desconcertante rever o grande amor*
Um amigo querido está passando por um momento difícil: fim de um namoro longo. Alguns anos felizes, um último ano triste e o fim chegando recentemente. Ele está triste, coração machucado de amar, pés exaustos com a longa caminhada, ombros cansados de suportar o peso. Meu amigo está se sentindo velho, cansado e sozinho.
Aí estava conversando com ele e ouvindo Adele, e ouvindo Regina Spektor, e ouvindo essas músicas de coração partido que me tocam sempre, mesmo o meu coração estando aqui bem inteirinho dentro do peito. Porque por mais que eu esteja aqui, feliz, bonitinha com tudo indo direitinho, eu sei que amar é um pouco dançar na beira do abismo. A gente está ali, e de repente cai, sem muito aviso e sem muito por quê.
Eu já amei e deixei de amar e sofri em cada momento. É difícil amar. É difícil deixar de amar e de ser amada. Dói de verdade no peito. Em uma das vezes que acabou um relacionamento, fiquei uns 2 minutos sem respirar. Puxei o ar e soltei e fiquei sentada olhando pros meus pés sem respirar de novo. Eu esqueci de respirar naquele momento porque estava doendo tanto me ver sozinha que eu nem sabia como ia respirar de novo sem ele. Como doía.
E um dia a dor passou e eu voltei a respirar direitinho sem ter nem que pensar nisso.
Isso que é o importante: saber que passa. Dói, muito, muito mesmo. E é importante que doa, porque se não doer a gente não dá importância pra uma história bonita que se viveu. Mas a dor um dia passa, e a gente precisa deixar que ela passe. Minha avó já me dizia “Um dia isso também vai passar”. E ela, como sempre, estava bem certa.

Mais do que pensar que os anos juntos foram jogados fora, que você errou por 2, 5 ou 10 anos, é fundamental saber que isso é bobagem. Nada se perde; em qualquer história se aprende algo. E por mais que o fim da história seja dolorido, sempre há o que veio antes: o início, as noites em claro, os dias sonhando, o cheiro do outro que lhe faz sorrir; e o meio, os tempos de conforto, de reconhecer os passos do outro à noite, de dormir na mesma posição, de colocar os pratos na mesa do jantar, de criar os filhos, de construir a vida. E logo que o amor termina, o que fica é a lembrança do fim que dói tanto, esquecendo o começo e o meio que foram bons. Os anos dessa história não são perdidos: são anos a serem lembrados com carinho por conta do amor que houve.
Amadurecer a dor da perda é isso: conseguir olhar pra trás e saber que nada foi desperdiçado, que a história tinha que ser contada desse jeito. Que sua história teve começo, meio e fim. Um dia, você olha pra trás e vê o meio da história, e lembra com carinho de alguma coisa boa – e não dói mais, como ferida cicatrizada que deixa marca, mas pára de doer.
E aí você vai começar a perceber que um dia vai achar um maluco pra dançar de novo na beira do abismo com você, porque se a gente não se a apaixona a vida é chata demais. Então sinta tudo que há pra sentir agora: chore e se entristeça, mas tenha certeza: isso também vai passar.
Parte da letra da música que eu linkei lá no começo do post fala justamente sobre isso, sobre rever um antigo amor depois de anos, depois que passou o choque do fim e o tempo já cicatrizou os cortes:
There’s one thing I have to say so I’ll be brave
You were what I wanted
I gave what I gave
I’m not sorry I met you
I’m not sorry it’s over
I’m not sorry there’s nothing to say
Porque isso tudo que você sente agora, meu amigo, isso também vai passar.

(*fica uma menção honrosa a Tom Jobim e Chico Buarque, autores da música cujo trechinho roubei pra deixar no título, Anos Dourados. Nem ouso reproduzir a letra aqui, é genial demais pra isso)



É tão reconfortante ler essas coisas. Saber que a gente não é a única pessoa com o coraçãozinho fucked up no mundo. E a promessa de que vai ficar tudo bem. Como já ficou outras vezes.
O post não foi pra mim, mas a carapuça serviu. E isso foi bom.
Bjs Gabi!
É o que eu sempre digo. Nada é à toa. Como você disse, com dois, cinco, dez anos juntos dá pra tirar muita coisa pra vida (e pra viver o próximo amor, não?).
acho que o post foi para o Rob, mas irá servir para uma colega de trabalho que está assim de coração partido. Sei que ela irá chorar ao ler, mas sei que após a leitura terá aquele momento de alívio pensando “isso vai passar”.
Obrigada Gabi, vc escreveu o que minha amiga precisava ouvir e eu não sabia como falar.
Gabi, adorei esse post.
Quando estamos neste momento acreditamos que nunca vai passar, e que vamos sofrer para sempre, porém isso passa, sempre digo: tempo tempo tempo
bjs
Por mais que o coração esteja machucado nessas horas, uma hora ele se cura… Eu mesma não acreditava nisso, depois de um fim de relacionamento triste que durou anos, de várias cabeçadas na parede… Mas a gente erra querendo ser feliz e é feliz errando…
E depois pode acabar encontrando alguém legal e especial que faz suas pernas tremerem e sentir saudades quando o fim de semana está acabando… Tudo de novo…