28
Oct

Dia do Flamenguista

por Gabi

Primeiro, que conste dos autos, em letras garrafais: Nunca fui ao estádio de futebol torcer por outro time que não o Corinthians. Sou corinthiana. Sempre fui. Tenho foto bebê de touquinha do Timão. Sofro, torço, xingo os dirigentes. Faço tudo que um verdadeiro corinthiano faz.

Mas numa dessas ações malucas que só a Espalhe traz pra você, fui domingo passar o dia no Rio de Janeiro e quase virei Flamengo. Tudo começou de manhã: Decolamos cedinho de São Paulo, eu e meu comparsa Cirilo, rumo ao Rio. Um vôo tranquilo, os dois meio mortos de sono, chegamos rápido.

Pousar no Santos Dumont num domingo de manhã é quase pousar no mar. O brilho da água, o avião se aproximando, aquele medinho e de repente, pronto. Estávamos em terra. Recebidos pelo Brunno, primeira nptícia do dia: a ação começaria apenas as 13hs. Eram 10 da manhã. O que fazer?

Caçar pautas, é claro.

Nos bandeamos pra igreja de São Judas, onde flamenguistas rezavam devidamente trajados com suas camisas. Na porta da igreja, ao lado da entrada do bondinho do Corcovado, vendedores de lembranças também estavam vestidos de rubro-negro. Nas janelas de um prédio na pracinha, bandeiras vermelhas e pretas pendiam. O rio é rubro-negro em dia de jogo do Flamengo.

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Embalados por boas entrevistas, nos permitimos ir ao mirante do Leblon para fotos e uma água de côco. Como numa novela de Manoel Carlos, turistas, moradores e modeletes se misturavam aos paulistas branquelos. Dos garçons, pelo menos 2 eram flamengo, um deles fanático. Mais gente de camisa do time por ali.  A vista era linda, o vento era fresco, a vida era boa. Poses sensuais foram registradas para momentos futuros:

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Mas aí a gente tinha que trabalhar, né? ¬¬

A caminho do evento, cortamos a cidade rumo à Tijuca. Circulamos o Maracanã, enorme e lindo, passamos pelo túnel Rebouças, as pessoas na rua de sandália e chinelo. Eu, morta de calor, concluí que o Rio é uma cidade de varandas: todo mundo tem sua varandinha, mesmo nos apartamentos mais simples.

Produzimos a ação e fomos almoçar num botecão distinto, cheio de torcedores do Flamengo. Eu, feliz, pedi um bife/arroz/feijão. Doce ilusão: chegaram todos os petiscos do mundo, menos o meu bife. Na hora de ir embora, o garçom me entrega uma sacolinha: minha comida, embalada pra viagem. FML.

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E aí fomos pro Engenhão, ver Flamengo e Botafogo. Foi aí, meus amigos, que esta que vos fala quase cometeu um deslize imperdoável. No Engenhão, a torcida rubro-negra dominava. Pouquíssimos botafoguenses sentavam-se espalhados no lado oposto ao nosso. A arquibancada tremia. Bandeirões, gritos, bateria, mais gritos.

A nação rubro-negra se agitava, e eu, corinthiana renhida, me vi aos berros de “Vai, Peeeet!”, “vai pra cima, marca ele, quebra esse cara!!”, “chuta! chuta! chuta, carai!!”, entre outras pérolas do grito futebolense.

Enquanto isso, o fotógrafo, posicionado do outro lado do estádio, fazia uma foto gigapan da torcida: um mega zoom que permite ver detalhes da foto de um jeito impressionante. Eu bem tentei posar pra foto, mas certeza que saí comendo empadinha, cutucando o nariz, ou gritando um palavrão.

Subitamente, o rádio chama, é hora de sair correndo pro aeroporto, o vôo era dali a pouco… ao botar o pé pra fora das arquibancadas, explode o grito atrás de nós: gol. Essa saída súbita foi nossa salvação, meus amigos. Se esta que vos fala tivesse visto o lindo gol de Adriano, ao vivo, no meio da torcida, cercada de vermelho e preto, a esta hora teria virado a casaca.

Como bem disse o Cirilo, foi São Jorge que nos salvou: no caminho para chegar ao estádio, deparamos com um belo azulejo do santo guerreiro.

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E deve ter sido ele que segurou um pouquinho o futebol do Imperador pra não perder dois devotos corinthianos, maloqueiros e sofredores.

Porque como disse Nelson Rodrigues, “Cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante, por um dia.”. Eu fui nesse domingo, nem que por 30 minutos do primeiro tempo. Feliz dia do Flamengo a toda a Nação Rubro-Negra. Há que se respeitar o amor pela camisa que quase levou meus 32 corinthianos anos pelo ralo…

3 Responses to “Dia do Flamenguista”

  1. Pedrovisky says:

    Belíssimo texto, Gabi! Como sempre.
    Mas esse em especial, pois mesmo sendo de uma não flamenguista (não-flamenguista-full-time, importante ressaltar!) suas palavras fizeram uma bonita homenagem a todos nós flamenguistas.

  2. Deborah says:

    Gabi (ó a intimidade que um blog oferece…), sempre venho aqui, nunca comento.
    Dessa vez tive que mudar. Essa foi a primeira vez que vi um relato tão bonito de uma não-flamenguista (todos os outros relatos envolvem piadas contra a renda de parte da torcida). Me emocionei.
    Aprendi a ser flamenguista de berço e fiquei com muita pena pq o Corinthians não perdeu dois torcedores.
    (Mentira, eu só queria vingança depois que vcs nos roubaram o Ronaldo).

    Beijos :)

  3. [...] é a única no mundo que faz os torcedores de outros times quase virarem casaca. Rica Perrone e Gabi Bianco que o digam. Então chegou a hora de partir para o Maracanã e esperar o apito inicial e o apito [...]

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