De cachorros e cachorras
Eu ia escrever aqui uma descrição engraçadinha do meu fim de semana na praia. Tudo bem que teve momentos impagáveis, como certos recados deixados na minha caixa postal, mas ontem à noite vi umas coisas absurdas e resolvi fazer um texto feminista de protesto.
Assisti ao Pânico, na Rede TV, numa sala com 3 mulheres e 4 homens. Em alguns momentos, os rapazes do Pânico são divertidíssimos. A crítica política, com Lula, Enéas e Bob Jeff (falsos) tentando entregar um bolo de aniversário pro Zé Dirceu (verdadeiro); ou a crítica social, com um vídeo satirizando aquelas imagens que mostram assaltos no centro, filmados de cima, no qual um cara vestido de Bozo e usando máscara de bandido “sorrateiramente” dava voadoras em transeuntes inocentes para pegar bolsas obviamente vazias dos figurantes.
Quando eles optam pelo nonsense, pela comédia rasgada, são ótimos. O homem berinjela surpreende pelo absurdo da situação, o rapaz andando pela feira do Pacaembu, falando ao celular, com uma berinjela dentro da cueca. Os feirantes olham, dão risada. Velhinhas se assustam, uma moça quase cai no chão de tanto esticar o pescoço. Num outro momento, eles filmam pessoas saindo de uma sex shop – apagando o rosto delas da imagem – com suas sacolinhas pretas cheias de apetrechos: chicotinho, lingerie, vídeos. Não faz muito sentido, mas diverte e não ofende ninguém. Ou quase ninguém.
Na seqüência, entrou uma disputa: cachorros versus cachorras. Ou seja, Sabrina Sato mais duas moças, estas de biquíni, entrariam em uma competição contra alguns cães pitbull treinados. Os cães escalavam árvores, mergulhavam em piscinas e saltavam obstáculos. A proposta era que as moças deveriam fazer o mesmo.
Assisti durante vários minutos. Os rapazes presentes na sala davam risadas, contemplando aquela humilhação em rede nacional. As moças, colocadas no mesmo nível que os cães, mergulhavam de mãos amarradas para tentar pegar um peso no fundo de uma piscina, usando os dentes.
Por fim, Bola colocou uma lata de ração de cachorro num prato. Venceria a competição quem comesse mais daquela ração. As moças se colocaram de joelhos e uma câmara bem próxima do rosto delas mostrava a expressão de nojo enquanto elas comiam a ração. Uma delas chorava. Meus amigos, homens com faculdade, bem educados, de classe média alta, riam a valer.
Me levantei, muito brava. Saí da sala, informando que não iria assistir àquilo. Deixei-os à vontade para continuar a ver o programa, mas pedi que cada um deles imaginasse ali, de joelhos, suas mães, suas irmãs, suas namoradas. Uma das meninas se levantou comigo, muito irritada.
Fiquei muito chateada ao ver amigos meus se comprazendo com a humilhação das mulheres.
Um deles me respondeu que se elas estavam ali, ganhando dinheiro, era porque queriam.
Não era. Vivemos numa sociedade que obriga a mulher a fazer muitas coisas que não queremos. As duas moças ali certamente imaginavam que aparecer na televisão usando um biquíni mínimo poderia abrir muitas portas para elas. Talvez suas carreiras de modelos pudessem finalmente deslanchar. Ninguém avisou a elas que fazendo isso elas jamais poderão desfilar. Jamais emprestarão seus belos rostos e corpos para fotos de lojas de departamento, marcas de roupas, comerciais de margarina. Serão sempre lembradas como as moças que comeram ração de cachorro.
Voltei para São Paulo, pensando em como isso podia ser exibido na tevê. Em que mensagem este programa está passando aos milhares de adolescentes que o assistem. É isso que queremos, que nossos jovens cresçam achando engraçado duas moças se humilhando em público em troca de um cachê?
Não me sinto à vontade em saber que estas coisas vão ao ar. Me dá um aperto na garganta que isto seja considerado normal.
Lamento pelos rapazes do Pânico, que são muito engraçados em diversos momentos. Lamento mais pelas moças que se submeteram a este constrangimento. Mas lamento muito mais pelo telespectador, refém de uma televisão pobre, burra e vexatória.


Ia escrever uma coisa engracadinha aqui, algo como “Gabs, tou te ligando pra…” mas ia ser um desrespeito. Sinceramente Gabs, uma das pouquissimas coisas que aprendi no seio da minha “familia” (aspas quadruplas) e: Para ser respeitado, de-se ao respeito. Acho que o problema e sim mais embaixo. A ilusao de se dar bem na vida, a cobranca da necessidade mas principalmente o vislumbre de sempre achar que a vida e cheia de atalhos, e que geram esse tipo de situacao embaracosa, ridicula e deprimente. Qualquer pessoa que se de ao respeito nao participaria de uma situacao destas. Nao que isso isente os idiotas que pensaram que algo assim pudesse ser engracado ou tal qual. Mas e tudo reflexo dessa merda de sociedade do sucesso facil e a qualquer preco. Nao consigo vislumbrar minhas queridas amigas passando por uma situacao destas sob qualquer hipotese. Elas se respeitam demais pra isso. Porem, se a alguem que nao se respeita a ponto de se degradar desta forma tb e porque tem alguem que veja algo interessante nisto.
Eu acho que deveriam fazer isso com a assistente do jogo do Corinthians. Mas ai e a emocao falando mais alto que a razao… Quanto a “pauta” em si, e o que a plebe quer, o famigerado pao e circo, diria Cesar. Infelizmente… Beijocas…
Gabi, antigamente, a TV era chamada de “a caixa imbecilizante” (ou algo assim, me escapa a frase original). Atualmente, piorou: trata-se da “caixa brutalizante”, mesmo. Pessimista, eu? Realista, Gabi, realista… Beijos!
Oi Gabi. Concordo com tudo. Na verdade, com tudo n?o. Eu n?o acho que as partes onde eles supostamente fazem brincadeiras que n?o ofendem ningu?m de fato n?o ofenda. Me lembro que quando o marid?o come?ou a assistir o P?nico aos domingos eu n?o tinha a menor paci?ncia de ver nem um quadro. Achava tudo de mau gosto e apelativo. Acabei acostumando e passei a assistir com ele. Mas tem horas que tenho raiva e nojo de um programa t?o baixo n?vel. J? desisti novamente de assistir. Prefiro ficar brincando com meu pequeno ou lendo um livro. Melhor deixar esses caras pra l? porque os cinco minutos de fama deles j? est?o acabando. Bjs
Ta, ta bom… esqueci dos acentos.
Uma unica vez assisti esse programa: Quando vi a Sabrina comendo minhoca, lagarta e baratas (todos vivos) foi demais pra mim. Foi o primeiro e ultimo. Nao deu pra minha cabe?a, nem pro meu estomago.
Gab’s, acho que vou come?ar a comentar o seu blog! Ia escrever um negocio enorme e tudo mais, mas n?o vou, e acho que a imbecilidade disso ? tanto das mo?as quanto do programa e por fim eu concordo com o seu amigo ai em baixo que disse que deveriam fazer isso com a assistente do jogo do Corinthians. beijokas.