25
Apr

Como fazer seu namorado abraçar árvores em 3 posts – Parte 2

por Gabi

No sábado acordei estupidamente cedo, devido à luz que penetrava pelas cortinas. No topo das montanhas, o sol parece mais próximo e mais brilhante. Dei uns chutes no Eric para acordá-lo e fomos tomar café da manhã. E que beleza de café da manhã, minha gente: Frutas, suco de laranja fresquinho, pão de queijo, pão de forma, pão integral, pão francês, queijo, peito de peru, bolo, geléia, manteiga, mel, cereais, leite. Um café da manhã daqueles que nunca se faz em casa, uma vez que em casa acordo sempre vinte minutos atrasada e a refeição matinal resume-se a um café preto quando chego ao trabalho com cara de sono.

Talvez levados pela quantidade de comida ingerida ou pela bela paisagem local, ou ainda com a mente afetada pela altitude, decidimos fazer um passeio naturalista. Dentre as diversas opções, escolhemos subir as 9 Cachoeiras do Alcantilado. Sim, você leu certo: Nove. Porque claro que dois nerds paulistanos estavam aptos a fazer uma bela caminhada de alguns quilômetros, certo?

Descemos à pé até a vila; afinal éramos aventureiros. Na caminhada, fiz amizade com um simpático cãozinho vira-latas que tentou.. er… namorar a perna do Eric sem parar. Há fotos para provar, peçam o link depois. Depois de conseguirmos afastar o animal, chacoalhamos mais um pouco pela estrada de terra. O acesso ao Alcantilado é bem sinalizado, mas quando se está a bordo de um Celta 1.0, tudo fica um pouco mais difícil. Desviar dos buracos se torna um esforço inútil: depois de um, há sempre outro. Após alguns quilômetros, o corpo quase se acostuma com toda a movimentação, como um marinheiro experiente se acostuma com o mar.

Mas o café da manhã se agita no estômago dos incautos: lá pelo terceiro morro, os dois estavam meio verdes devido à todo o conflito entre o suco de laranja e o bolo de cenoura no trato digestivo. Paramos num boteco estranho pra tomar uma Coca e matar tudo lá dentro acalmar os sucos gástricos, onde tivemos o prazer de conhecer um sertanista. Na verdade era um homem gordinho tomando uma Itaipava, mas o cara se autoproclamava o maior conhecedor de cachoeiras e trilhas da região Sudeste. Ensinou 48 caminhos diferentes pra chegar ao Alcantilado – e isso porque estávamos a 800 metros do local. Achamos mais seguro ignorar e seguir o mapa.

Paramos o carro num estacionamento ajeitado, entre diversos jipes e picapes. O celta é guerreiro, e nessa viagem pudemos comprovar isso diversas vezes. Ao lado do estacionamento, uma guaritinha, onde cobraram R$5,00 de cada um pra entrar. Antes que alguém brade “Exploração!”, que conste dos autos que o dinheiro é bem aproveitado. Há placas, trilhas, cordas, cestos de lixo e coisas assim pelo caminho todo. Um controle de pessoas que entram e saem do local também é feito. Um ótimo exemplo de exploração do turismo, e não do turista, como deve ser. Aliás, o tal controle era importantíssimo: depois da quarta cachoeira, achei que ia precisar ser resgatada.

Subida do capeta. Começa tranquilo, um passeio no parque. As primeiras cachoeiras podem ser visitadas até pela vovó com artrite. A trilha é larguinha, plana e tranquila. Ao chegar na quarta cachoeira, a coisa fica bem mais feia. Apesar das cachoeiras irem ficando cada vez mais bonitas, as belas vistas não ofereciam descanso. A trilha se torna Íngreme, há trechos onde é necessário usar as mãos e eu abençoei mentalmente até a quarta geração do cara que colocou as cordas e cavou os degraus no morro. Não fosse por ele, eu teria quebrado alguns membros ao escorregar numas pedras cheias de limo. Mas não iríamos desistir: tudo que eu queria era chegar logo ao topo e à porcarian da cachoeira do Alcantilado onde eu supunha que um helicóptero poderia se aproximar com mais facilidade do que na mata fechada, a fim de me resgatar e me levar ao McDonalds mais próximo e a um cineminha com ar condicionado.

Finalmente chegamos lá em cima, depois de um tombo, uma unha sangrando, dois xixis e muitas fotos, divididos igualmente entre eu e namorado. A cachoeira tem 50 metros de queda, a vista é realmente linda e ao chegar lá a gente quase esquece a fome e o cansaço. Mas não esquece de verdade, principalmente porque constata que não há nenhum helicóptero e que eu teria que descer aquela merda toda a pé de volta. Toda vez que faço uma trilha assim fico me perguntando que caraleos tenho na cabeça ao repetir a dose de tempos em tempos. Mas aí penso no quanto o lugar é bonito, no quanto a água é geladinha, no quanto as árvores cheiram bem e no quão pouco de tudo isso a gente vê no dia-a-dia, e me lembro do porque eu insisto em sofrer.

Chorei um pouco ao pensar na descida enorme e em quanto minhas pernas doíam ao ver a beleza do local, mas depois de algumas fotos resolvemos descer de vez. No caminho pra baixo, topamos com uma simpática pastelaria, onde comi uma porção de pinhão temperado, que o Eric achou que pareciam baratas cozidas. Nojo à parte, estava uma delícia. Na volta, já comprei dois sacos grandes de pinhão pra fazer em casa e me fartar de comer. Eu adoro pinhão. Nham. Enfim, voltamos, chacoalhamos, comemos na vila, chacoalhamos de volta à pousada. Tomei um banho e morri dormi durante algumas horas. Ao despertar, fomos desfrutar do romântico jantar à luz de velas prometido pelo site da pousada.

No restaurante, pequeno mas simpático, as mesinhas estavam iluminadas por velas. A sopa quentinha, a comida saborosa, o garçom educadíssimo, tudo muito gostoso, exceto a música. Num volume razoavelmente alto, se sucediam horrendas canções de Adriana Calcanhoto. Isso apressou nosso jantar, infelizmente. Aliás, uma leve indigestão se instalou ao ouvir os primeiros acordes de “Mentiras”. Durante os dias seguintes, teríamos uma overdose de comida boa e música ruim na Pousada Portal dos Ventos. Márcio nos ajudou a acender a lareira sem causar incêndio muito grande e nos convidou a uma caminhada no dia seguinte, com os outros casais.

E no dia seguinte, encontraríamos nossas respectivas nêmesis: as trutas exóticas, a lan house e um paradoxo espaço-temporal envolvendo a minha pessoa, um armazém fedorento e um tiramissú.

4 Responses to “Como fazer seu namorado abraçar árvores em 3 posts – Parte 2”

  1. Gabi says:

    Nossa, tanto tempo que não entro em contato com a natureza – que não seja grama e árvores do quintal. Vocês são corajosos… Huahuahuah
    E pinhão é muito bom! Nunca tinha pensado neles como baratas… Huahuhauh

  2. Gabi says:

    Hmmmm, adoro pinhão! Cadê as fotos do vira-latas? =)

  3. Gabi says:

    Vai rolar pinhão quando? /baba

  4. Frank Saiu says:

    Hahaha…adorei, muito bem escrito!
    Já passei algumas situações parecidas!
    Abraço

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