<
20
Feb

Pudim de leite com gosto de infância

por Gabi

Minha mãe não era exatamente uma cozinheira de mão cheia. Apesar de saber fazer muitas coisas, ela não curtia muito cozinhar, então evitava ao máximo sempre que podia. Talvez por isso, quando ela se metia a cozinhar com vontade as coisas ficassem tão saborosas. Até hoje, tem 3 coisas que ela prepara que eu acho deliciosas e nunca comi igual: sopa cremosa, bolo de fubá e pudim de leite.

pudim-de-leite

Hoje acordei com a boca cheia d’água querendo pudim de leite, furadinho, com calda de caramelo bem dourada em volta, geladinho, tremelicando no prato. Sabem do que estou falando? Aquele nem doce demais nem sonso, na medida do açúcar, sem gosto de ovo. Aquele mesmo.

Aí como não moro mais com a mamãe, vou ter que ir pra cozinha fazer pudim.

E pra quem quiser fazer, a receita muito simples:

Calda
1 xícara de chá de açúcar

Pudim
1 lata de leite condensado
2 medidas (lata) de leite
3 ovos

Prepare a calda esquentando o açúcar na panela até dourar. Adicione uma xícara de chá de água quente e deixe ferver até os torrões de açúcar dissolverem. A calda vai engrossar e pronto: é só forrar o fundo de uma forma de buraco no meio com ela e deixar esfriar.

Depois bata os ingredientes do pudim no liquidificador. Pra não dar gosto de ovo, tire a “pele” das gemas dos ovos com os dedos. Bata bem e coloque na fôrma com a calda. Cubra com alumínio ou use uma forma com tampa. Asse em banho maria no forno médio, por uns 90 min. Pra saber se está bom, espete um palitinho e veja se ele sai limpo. Deixe esfriar, coloque na geladeira e deixe por no mínimo 6 horas. Aí desenforme com cuidado (torcendo pra não quebrar) e coma alegremente.

Não dá muito trabalho e fica bem gostoso. E quem quiser se inspirar e ver um vídeo divertido, toma: GIGA PUDDING!!

28
Dec

2010 – O primeiro ano do resto de nossas vidas

por Gabi

Passei o finzinho do ano em recesso do trabalho. Depois desse ano maluco, ficar parada por alguns dias me fez um bem danado. E assim: só parei mesmo depois do Natal, porque antes estava maluquinha com compras, ceia, cozinha, receitas, etc etc. Então eu realmente só consegui respirar um pouquinho depois do dia 25.

Uma das coisas que fiz foi rever 3 filmes que eu adoro. Os 3 da década de 80, bem datados mesmo. O primeiro é O Clube dos Cinco, dirigido por John Hughes, clássicaço sobre 5 estudantes que ficam em detenção e compartilham um pouco de suas vidas. Depois vi O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas, com a Demi Moore mocinha – e igual ela é hoje, deve dormir no formol essa bandida – e uma história sobre jovens que se formaram na faculdade e estão em busca de si mesmos. E fechei com Say Anything,  primeiro filme dirigido pelo Cameron Crowe, delícia de filminho sobre um cara meio estranho que ama a menina mais linda da escola. É dele a clássica cena onde John Cusack levanta um rádio na porta da mocinha. Vejam que graça:

Say Anything é um dos meus filmes favoritos, porque amo o John Cusack, porque a mocinha não é uma boboca, porque o filme todo é um romance que não é melos: Dá pra ver e se sentir feliz sem ter a inteligência insultada.

Eu vi esses filmes há muitos anos e os revi algumas vezes depois. O que esses três filmes têm em comum e que pude notar ao vê-los assim, um depois do outro, é que são sobre mudanças. Os três falam de gente aprendendo alguma coisa, seja a se livrar dos estereótipos da escola ou a amar alguém ou a achar um emprego. É sobre pessoas, sobre fazer alguma coisas, sobre não se deixar ficar para trás.

E 2010 pra mim foi um pouco assim: aconteceu tanta coisa, mas tanta, que parece que o ano durou uma década. Não sei se é assim em todos os anos final 0, mas em 1990 meu pai morreu, em 2000 eu tinha acabado de me formar e agora em 2010 eu tô aqui, vendo no que isso tudo deu. Meu trabalho, o casamento, os amigos… foram muitos assuntos diferentes esse ano, e eu repensei tudo, mudei algumas coisas, aceitei outras, fiquei brava com algumas e mudei o que dava pra mudar. Foi um ano bom.

Em 2011 imagino que outras coisas acontecerão – seria um ano bem chato se nada acontecesse, não é?365 dias parados, de marasmo. Aliás, uma curiosidade: quando os chineses querem desejar o mal pra alguém, eles dizem “que sua vida seja interessante”, pois entendem que se sua vida for bem sem graça, nada de ruim lhe acontecerá. Pois bem: nada ruim nem bom acontece numa vida desinteressante. Quem tem medo das coisas ruins que podem acontecer nunca faz nada, não faz carinho num gato de rua, nunca come uma torta de chocolate deliciosa, não sabe que gosto tem uma graviola, não bebe água na nascente, não sabe como chegar naquela cidadezinha perdida nas montanhas, não mergulha sem saber se dá pé, não anda sem saber pra onde vai. Quem tem medo de tudo não conhece nada.

Em 2011, espero conhecer muitas coisas. Tenho planos e idéias, e se tudo der certo, no fim do ano estarei aqui contando pra vocês. Se der errado, eu conto também.

E pra fechar o ano, fiquem com a cena final de Breakfast Club. Enquanto John Bender, nosso herói, anda pelo campo de futebol da escola, a narração está dizendo isso aqui, ó:

Brian Johnson: Caro Senhor Vernon, aceitamos o fato de que tivemos que sacrificar um sábado inteiro na detenção pelo que quer que tenhamos feito de errado… Mas achamos que o senhor é louco por nos fazer escrever uma redação lhe contando quem a gente pensa que é. O senhor nos ver como quer, nos termos mais simples e definições mais convenientes. Mas o que achamos é que cada um de nós é um CDF…
Andrew Clark: …e um atleta…
Allison Reynolds: …e uma maluca…
Claire Standish: …uma princesa…
John Bender: …e um criminoso…
Brian Johnson: Isso responde à sua questão? Atenciosamente, o Clube dos Cinco.

Feliz 2011 pra mim e pra cada um de vocês!

10
Aug

Memórias de Infância – Insetos e bichos

por Gabi

Essa semana entrou uma maria-fedida em casa e meus gatos obviamente piraram. Ficaram cercando a bichinha, miando e abanando o rabo. Antes que acontecesse o pior (ou seja, a maria-fedida começasse a feder a casa toda) eu peguei um pote velho de sorvete, capturei o inseto com um gesto ágil e o catapultei pela varanda. Zero stress, trabalho de 5 minutos. Mas nem sempre foi assim, meus amigos. Eu já tive medo, muito medo de bichinhos e insetos.

BorboletaFoto ilustrativa de uma borboleta linda e formosa

Quando eu era pequena, uma vez vi uma borboleta saindo de um casulo. Em pânico, saí correndo aos berros e fui até a pessoa mais forte do mundo, aquela que iria me defender da borboleta malvada:

- Manhêêêêêêêêêê!!!

Ela calmamente me perguntou o que era o problema. Entre soluços, expliquei todo o drama:

- A borboleta tava saindo da casca, aí ela virou pra mim! Ela ia me pegar! Ela ia pular em mim!!!
- Ora, minha filha. Se ela pular em você, você pula nela.
- Mas e se ela me morder??
- Filha, borboleta nem tem boca. Tem tromba.
- Tromba é de elefante, mãe.
- Que nada, chega aqui e vem ver na Britannica, vem…

proboscide

MANO OLHA O TAMANHO DISSO PQP

Distraída com a tal tromba da borboleta (que se chama proboscide, veja na Britannica online que riqueza!), esqueci do trauma.

Algum tempo depois, ou antes – memórias antigas se confundem as vezes – aconteceu de novo. Fui molhar plantas numa floreira no canto do quintal com uma mangueira. O jato de água assustou uma pobre pererequinha, que pulou no meu bracinho gorducho e… grudou. Perereca gruda, porque tem ventosa. Sai novamente gritando, largando a mangueira no chão:

- Paiêêêêêêêêêêêêêê!!!!

Meu pai, muito preocupado em ler o jornal de domingo, levantou os olhos e…. desatou a rir:

- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
- Pai, socorro, uma perereca me atacou!
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
- Paiêêêêê, tira essa perereca do meu braçoooooooo!!!!
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
- Vóóóóó, o pai tá ficando roxo de rir e tem uma perereca grudada em mim, ME ACODEEEEEEE!!!

pererecaA que grudou em mim era bem menorzinha. Acho.

Minha avó, sábia, pegou a mangueira e splash!, mandou um belo jato de água na perereca.  E ainda completou:

- Menina, se você soubesse quanta gente queria uma perereca….

Não entendi na hora como alguem ia querer um bicho nojento como uma perereca. Eu era uma criança inocente.

Minha família e seus métodos educacionais. No fundo, foram ótimos: perdi o medo de bichos nojentos, me interessei por enciclopédias e aprendi uma piadinha de duplo sentido. Tem que amar uma família assim. :)

27
May

Tolerância

por Gabi

Nos últimos dias tenho me sentido nostálgica. Não sei se é a época do ano ou o clima frio e céu azul que me fazem lembrar de como era minha vida 20 anos atrás.

As tardes claras de sol e frio que eram preenchidas por brincadeiras sem fim. Bicicleta, esconde-esconde, e as primeiras vontades de deixar de ser criança e começar a vida adolescente. Os bailinhos de garagem, a lona no portão, as músicas e danças. Tínhamos passinhos pra tudo, copiados de clipes que víamos na recém-nascida MTV e antes disso, no Clip Trip, incrível programa da TV Gazeta que exibia MC Hammer, Technotronic e Snap diariamente.

Ontem revi alguns desses clipes e reconheci imediatamente algumas roupas que usei, ou que sonhava usar. A hoje esdrúxula combinação de bermudas de lycra de cintura alta com tops recortados, cobertos por jaquetinhas jeans era o must da estação. Cabelo chanel, mais longo de um lado do que do outro.

O final dos anos 80 e começo dos 90 foi também prolífico em calças largas (e brancas) usadas com sapatos escuros, devidamente acompanhados por meias brancas. Lembro de um menino que apareceu no colégio usando isso e causou sensação, porque era tudo tão super moderno.

Talvez por isso eu veja a molecada vestida com seus sneakers coloridos e óculos de plástico em tons neons, e ache bonitinho, ao invés de apenas achar ridículo. Lembro bem demais dos meus amigos tentando fazer o passo do MC Hammer ou o topete do Vanilla Ice enquanto eu procurava o batom azul do clipe do Tecnotronic.

Viver é tolerar. E talvez olhar o que eu mesma fiz quando era adolescente me torne bem mais tolerante com a família Restart e sua falta de sacanagem. :)

25
Aug

A mamãe Gansa mordedora de bundas, a vaca nelore e Julia, Sabrina & Bianca

por Gabi

Há muitos, mas muitos anos atrás, eu estava no Colegial. Aliás, faz tanto tempo, que o colegial se chamava colegial. Agora chama-se Ensino Médio. E eu odeio esse nome; parece que a gente vai aprender mais ou menos, sabem?

Mas divago. Fato é que eu estava no colegial, tinha uns 16 anos e uma amiguinha chamada Heloísa. A Helô era boazinha, gorduchinha e de olhos azuis. Morava perto da escola e a família dela tinha uma fazenda. Eu, bicho do mato que sou, quase morri de alegria quando fui convidada pela Helô pra ir pra fazenda com ela. Mamãe liberou e lá fomos nós, num carro enorme. Os pais dela, eu e ela, rumo à Fazenda.

Primeiro detalhe importante: a fazenda ficava bem longe, perto de Fernandópolis, quase no Mato Grosso do Sul, horas de viagem pela Washington Luiz afora. E a família dela adorava música sertaneja. Então eu passei cerca de 7 horas num carro enorme com um sistema de som igualmente enorme, ouvindo Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó e outros bichos.

Já meio traumatizada, chegamos ao local, uma imensa fazenda, tipo aquelas de novela de época, com direito à casa-grande e senzala. Lindas varandas, portas grandes de madeira maciça, pé direito alto e tudo mais. Nos instalamos em um dos quartos e descobri que a Helô era leitora voraz de romances estilo Sabrina, Julia e Bianca. Sabem o que é? É, mais coisa de velha, eu sei.

Lá pelo segundo dia, decidimos descer até o laguinho pra ver os patinhos, olha que meiguinho. Ali na beirada, jogamos pãozinho pros patinhos e peixinhos, comemos frutinhas e vimos filhotinhos de gansinhos. Aí a Helô berrou:
- CORRE!!!

Eu levantei meio confusa e não notei a tempo que um ganso assassino se aproximava de mim. Aparentemente, era uma gansa que achou que eu ia fazer mal à seus filhotes. O que eu não sabia era que ganso tinha dente. E que eles corriam tão velozmente. Muito menos que eles conseguiriam morder uma bunda vestida numa bermuda jeans. Pois isso tudo é verdade.

ganso-bundaImagem ilustrativa da situação

A mamãe gansa mordeu minha bunda e foi embora cuidar da cria. Eu me vi na beira de um laguinho, com meio pãozinho na mão, com a bunda dolorida. A Helô ria a não mais poder. Sério, ela sentou-se no chão pra rir. Ela chorou de rir. Eu não vi graça. Minha bunda doía e eu sabia que ia ficar roxo. Mas fazer o quê? Eu estava a quilômetros de qualquer lugar familiar.

No dia seguinte, já superado o trauma da mamão gansa e imbuídas de espírito aventureiro, fomos caminhar. Saímos pela fazenda, e a Helô me mostrou o pomar, a horta, a plantação de laranjas, os pastos… ah, os pastos! Enorme e quase totalmente plana, a fazenda era o local perfeito pra criação de gado. O tipo de gado escolhido era o Nelore, de carne tenra. Enquanto ela apontava as cabeças de gado, eu resolvi olhar pro outro lado.

Foi minha sorte.

Vinda não se sabe de onde, uma vaca assassina corria em nossa direção. Dessa vez fui eu que gritei “CORRE!!!” e saí correndo em direção à cerca de arame farpado. Apavorada, eu sentia aquele animal maléfico correndo atrás de mim e desejando me punir por todos os bifes de contra-filé que eu havia comido, por todos os churrascos que eu já ingerira!

vacamalvadaA vaca que me perseguiu, certeza.

Num movimento ninja que eu jamais seria capaz de reproduzir novamente, saltei agilmente sobre a cerca e fui parar do outro lado, onde apontei pra vaca e ri, espécie superior que eu era.

Notei um ar trocista na vaca e ao olhar pra baixo percebi que minha camiseta estava rasgada em diversos locais, que meu braço sangrava e que havia perdido um pé de tênis. A vaca, por sua vez, estava placidamente pastando bem ao lado do meu tênis perdido.

Novamente, minha amiga riu de mim. Mas eu aguentei, firme e forte!

No entanto, no terceiro dia, quando acordei e dei de cara com uma cobra na sala, virei as costas, me tranquei no quarto e li todas as edições de Julia, Sabrina & Bianca que encontrei.

Ao som de sertanejo, por óbvio.

03
Jul

por Gabi

Quando conheci o Leozinho, ele era digno desse apelido. Filho do meio de uma família de três irmãos, loirinho e de olhos azuis, ele era um moleque magricela, pelo menos uma cabeça e meia mais baixo que o Leo que já havia na turma – daí pra virar Leozinho foi um passo. Os três irmãos eram muito parecidos: todos tinhas os olhos puxados e claros, como os de gato. Descendentes de espanhóis, sangue quente, os três.

De repente, o moleque começou a crescer. Além de ficar mais alto, ele começou a fazer academia e ficou enorme. Uma vez, estávamos na casa deles e vi o cara comer 6 bifes de uma vez. Ele andava com os moleques barra-pesada do bairro, conhecia todo mundo, e tinha um coração enorme. Outra vez, brigou pra defender um molequinho de uma turme de três outros. Também brigou com o cobrador do ônibus e arrancou o cara pela janela do coletivo. Ele ajudou na minha mudança, uma vez. Depois, foi trabalhar numa pizzaria e fazia as pizzas mais fantásticas, com a massa na medida certa, crocante na casquinha e macia por dentro. Ele jurou que estava mais calmo, então arrumei emprego pra ele no supermercado onde trabalhava e ele virou o pizzaiolo favorito do chefe. Depois que saí de lá, ele pediu demissão. Disse que a nova gerente era muito chata. Talvez fosse mesmo. Mas fato é que ele não brigou com ninguém por lá.

Hoje, soube que Leozinho morreu. Resistiu a um assalto. Não sei se fico brava com o mundo em que vivemos, onde a gente é pobre e é assaltado assim, por outro pobre, a troco de nada ou por dez reais que se levam na carteira. Não sei se fico brava com ele, com a cabeça quente de espanhol que sempre o metia em encrencas.

Sei que fazia anos que não o via; sei que ele tinha um coração de pudim no que dizia respeito a defender os mais fracos; sei que ele comia 6 bifes de uma vez. Acho que é o suficiente.

29
Jun

Eu sei fazer moonwalk

por Gabi

- Vou fazer o moonwalk!
- Você vai é quebrar uma perna…
- Descalça não dá. Vou colocar uma meia.
- …
- Ok, vou colocar meus sapatos de dança.
- …
- Olha, amor! Tô fazendo o moonwalk!!
- Pior é que tá mesmo.

O que Eric não sabia é que eu não precisava aprender o moonwalk. Eu só precisava relembrar como fazer. Como andar de bicicleta, o moonwalk não se esquece. Perna pra trás, levanta de leve o quadril pra encaixar o movimento, troca a perna, repete, repete.

Em 86 eu sabia fazer o moonwalk. Causava sensação nas festinhas de garagem do bairro, com  meias brancas e botinhas combinando. Eu era a única menina que sabia fazer o moonwalk. Eu queria muito uma jaqueta vermelha, mas não tinha grana pra comprar. Um garoto da rua de cima arrumou uma, acho que o irmão tinha ido pra fora do Brasil tipo pro Paraguay e trazido pra ele. A gente achava o máximo aquilo.

Em 86 também sabia a coreografia de Thriller todinha – a gente ensaiava na garagem pra arrasar no bailinho no fim de semana. Em 87, saiu Bad, e aí toda a coreografia mudou, envolvendo saltos, brigas e uma bad ass attitude que eu simplesmente não conseguia ter. Os garotos se dedicavam e claro que aprenderam direitinho a fazer cara de mau.

Eu dancei de rostinho colado ao som de  I Just Can’t Stop Loving You, chacoalhei o esqueleto e cantei junto de Billie Jean, rebolei com Smooth Criminal. Aliás, ainda rebolo. E na sexta à noite eu fiz de novo o moonkwalk, lembrando do quanto Michael Jackson era foda. O quanto ele era bom. O quanto ele dançava e fazia movimentos impossíveis.

Depois ele pirou. Ficou branco, ficou maluco. Surgiram histórias muito mal contadas em relação à pedofilia. Ele viroui uma figura triste, uma piada de si mesmo. Eu prefiro lembrar dele arrasando, showman, dançando. Vejam esta apresentação de Man in the Mirror, no Grammy de 88. Vejam a expressão no rosto dele. O sorriso.

E reparem que a gente só vê como o palco é enorme quando nele entram dezenas de pessoas pra cantar. Até lá, é só Michael que a gente vê. Ele sim, estava enorme nesse palco.

15
May

Há três anos…

por Gabi

Surgiu no twitter esses dias a tag #ha3anos, pra gente contar o que fazia nesse momento. Fucei aqui nos arquivos do blog e descobri que há 3 anos eu estava conhecendo gente que ia ser importante na minha vida, estava trabalhando num supermercado para ricos e famosos e que São Paulo estava sendo assolada pelos ataques do PCC.

pcc-796763

Na época, fiz um post contando como as pessoas estavam em pânico. Agora, quero me lebrar do aspecto humano da coisa. Eu trabalhava num supermercado grã-fino, no Morumbi. Os funcionários, assustados, queriam saber como iriam pra casa. Dizia-se que as 18 horas iria acontecer um ataque maior. Corri atrás de fretamentos de van e kombi pra que as pessoas que moravam longe conseguissem chegar em suas casas. Os ônibus parados, táxis muito caros, e os funcionários chorando de nervoso. Se preocupando com suas famílias, porque celular ainda era certo luxo que alguns não podiam ter. Como saber se sua irmã está bem quando ouve-se falar que uma bomba explodiu no Largo 13,  justamente onde ela pega ônibus pra ir pra casa? E seu filho, será que saiu da escola e foi direto pra casa, quando as aulas foram suspensas? Aquela gente toda muito nervosa me partiu o coração.

Emails pipocavam com informações supostamente confiáveis sobre bombas, tiros, confusões. Era sempre o primo do amigo que tinha visto. Prática que sou, duvidei. Desde quando bandido avisa que vai matar ou destruir? Acessei a internet e fucei em alguns portais sérios de notícias. Vi que havia  tiroteios e confusões confirmados, e que a violência parecia se focar na polícia. Fiquei um pouco menos intranquila, afinal a cidade ainda estava de pé, mas me preocupava muito com as pessoas que estavam ali na loja, meus funcionários.

comercio

Enquanto isso, os chefes decidiam se iriam baixar ou não as portas. Depois de muita persuasão da minha parte, decidiram fechar por volta das 17hs. Uma cliente muito bem vestida fazia suas compras sem pressa alguma. Escolhia chocolates importados enquanto fechávamos os caixas, os setores iam ficando às escuras e as pessoas pouco a pouco iam saindo. A compra dela fui eu quem passei no caixa: decidimos liberar logo o pessoal que iria de van pra casa. De repente, ela me pergunta:

- Estão com algum problema na loja?
- Como, senhora?
- Notei que estão fechando as portas… está tudo bem?
- A senhora não está sabendo? o PCC está coordenando um ataque à cidade, ordenando toque de recolher, segundo boatos.
- Mas vocês vão fechar por causa disso?
- Sim. Não há ônibus e os funcionários precisam ir para casa.
- Eles moram longe daqui?
- Sim, bastante. Embu, Taboão… Mais de uma hora de condução.

Ela riu e abanou a cabeça como quem diz “nem sei onde ficam esse lugares, nem sei o que é PCC

Passei as compras, ela pagou com seu cartão de crédito repleto de estrelas platinum premium e foi embora, no seu carro com motorista. Fechamos a loja, deixando ali um segurança trêmulo. Ao sair, disse baixinho pra ele, pro diretor não ouvir: “Edson, se acontecer alguma coisa, foge, se esconde, entrega o que pedirem. Não vai tomar um tiro por besteira. A gente tem seguro, viu?“. Ele me olhou agradecido e acenou, observando de longe, com o rádio na mão, enquanto meu carro se distanciava.

A volta pra casa foi rápida. Não havia ninguém nas ruas. Sintonizei uma rádio de notícias e fui ouvindo sobre o pânico, que àquela altura já havia diminuido. A repórter entrevistava um coronel da PM e este pedia calma à população, e pedia que parassem de espalhar boatos e acreditassem apenas nas notícias confirmadas pela polícia. Eu estava acreditando justamente nisso quando atravessei a cidade, levando 15 minutos pra chegar do Morumbi até Perdizes.

saopaulo

Naquele dia, o medo dominou minha cidade. Tive uma pequena amostra de como vivem as pessoas quando o Estado perde o controle e fica cada um por si. Naquele dia, uma segunda feira, tivemos nosso dia de Cabul ou mesmo de Rio de Janeiro. Um dia de ser conduzido pelos bandidos e pelas pessoas bem-intencionadas que inadvertidamente espalharam boatos tenebrosos.  Nom Ducor, Duco. Esse é o lema de São Paulo e está na nossa bandeira.No dia 15 de maior de 2006, fomos conduzidos. Não conduzimos.

Post inspirado pela postagem do Inagaki de hoje, verdadeiro cutucão na ferida do comodismo paulistano.
Imagens da Folha Online.

12
Jan

Minha vida era assim

por Gabi

Passei boa parte do fim de semana comendo camarão até quase explodir assistindo à série My So-Called Life, que me foi emprestada por uma amiga querida. Essa série passou em 95, mais ou menos, e conta um ano de vida de Angela Chase (Claire Danes), uma estudante do segundo grau (sou velha, não sei como chama agora) que passa por tudo aquilo que todo mundo passa aos 16 anos: se apaixona, muda de amigos, fica confusa, briga com os pais, com a irmã, com os professores…

A grande diferença dessa série em relação às demais é que é tudo muito real. Angela tem uma vida muito normal. Não está preocupada em ser popular ou em dizer que as cheerleaders são más, ou em conquistar o bonitão do time de futebol americano. Talvez por isso tenha durado só uma temporada.

Vendo essa série hoje, quase 15 anos depois, entendo porque eu a assistia obsessivamente. Angela é real, e muito parecida comigo na mesma idade. Boa aluna, boas notas, mas meio deslocada. Eu não era nerd o suficiente pra me misturar aos cdf’s, nem popular o suficiente pra ser a bacana da classe. Eu tinha amigos estranhos. Tinha um cara, meu amigo, que eu achava que era gay, e ser gay aos 15 anos é bem difícil. Tinha uma amiga que cresceu muito e se achava alta demais e comia banana com aveia pra engordar e tentar ficar mais gostosona.

Aí, na série, Angela se apaixona pelo Jordan Catalano. O Jordan Catalano era lindo como só os meninos de 16 anos são lindos quando você tem 16 anos. Logo no primeiro episódio, ela diz que gosta do jeito que ele se encosta nas coisas. E que ele fecha os olhos como se estivesse pensando em algo muito difícil, e que é por isso que ela está apaixonada. Jordan tinha uma banda, Jordan usava roupas descoladas e tinha uma jaqueta de couro e usava botas incríveis. Jordan Catalano era igualzinho aos garotos que eu achava lindos naqueles distantes anos de colégio. Se eu fosse contar aqui quanto meninos

E eles ficam juntos e depois brigam, e eles sofrem como só se sofre aos 16 anos, daquele jeito que você acha que nunca mais vai parar de doer depois de levar um fora. Ver isso hoje dá saudade, bate uma nostalgia, um sentimento agridoce de saber que eu nunca mais vou me sentir assim. Aquele amor platônico de passar horas contemplando a nuca do cara na aula de biologia. Ou de ficar no intervalo olhando pelo canto dos olhos pra ver se ele foi comprar um refri, e ir casualmente na mesma hora, parar do lado, estender o braço com a fichinha da cantina, mas nunca, nunca mesmo, dizer a ele que está interessada.

Aqui tem um clipezinho bem piegas dos dois. Sim, é breguinha, é piegas, é bestinha. Mas é lindo demais. Ignorem as roupinhas.

Sim, a gente usava essas coisas estranhas nos anos 90. Eu tinha um vestido de flores largo e medonho, mas que eu achava lindo. E usava com botas, pra ficar ainda mais feio bacana.

Enfim, essa série me leva de volta àquele tempo bom que não volta mais. E eu me sinto meio triste por isso ter acabado, e meio feliz porque acabou. Porque convenhamos, não era nada fácil mesmo ter 16 anos.

01
Aug

Sexta feira é dia de alegria

por Gabi

Depois de virar adulto a gente espera a sexta feira pra poder curtir dois dias de liberdade irrestrita. Só no fim de semana a gente consegue ver aquela hora do dia, de tardezinha, quando a luz do sol reflete nas folhas e tudo fica meio dourado, meio brilhante. E com o céu de São Paulo sem uma nuvem, no inverno, é quando essas cores ficam ainda mais bonitas.

Minhas memórias de infância são todas de brincar em dias de sol. Não chovia quando eu era criança, eu acho. Ou pelo menos não haviam dias chuvosos, apenas dias em que a chuva caía. E sim, há diferença. Me lembro muito bem do sol da tarde e eu correndo ladeira abaixo na vila em que morava, ou antes disso, brincando com o cachorro na grande varanda que havia no apartamento antigo, ou explorando o jardim com minha prima, andando sob os galhos de árvores antigas, desenterrando minhocas gorduchas ou fugindo de  medo de uma lagarta que havia resolvido sair da crisálida e virar borboleta bem na nossa frente.

Lembro de ver programas de TV cheios de desenhos animados coloridos e fofos. Até hoje rio vendo os desenhos antigos do Pica-Pau, quando a enfermeira chama o Doutor Hans Chucrutez. Outra coisa que eu adorava de paixão era os Muppets. Vi muitas vezes os episódios, sempre morrendo de rir a cada “ANIMAAAAAL” que o Animal soltava. E o Gonzo, todo azul? E a Miss Piggy, linda, histérica e a cara da Siri do BBB7?

Então, pra deixar todo mundo no clima de sexta feira, vamos ver os Muppets de novo? VA-MOOSSS! o/

Pra começar, a melhor música já produzida no mundo: “Manah Manah”

E minha querida Miss Piggy surtando em “Lime in the Coconut”


Por fim, uma versão ótima de uma música que… bem, não vou falar. Vocês não acreditariam mesmo.

Bom fim de semana pra vocês e não se esqueçam: ponham a lima no coco, bebam tudo junto e vocês vão se sentir melhor.