por Gabi
Há muitos, mas muitos anos atrás, eu estava no Colegial. Aliás, faz tanto tempo, que o colegial se chamava colegial. Agora chama-se Ensino Médio. E eu odeio esse nome; parece que a gente vai aprender mais ou menos, sabem?
Mas divago. Fato é que eu estava no colegial, tinha uns 16 anos e uma amiguinha chamada Heloísa. A Helô era boazinha, gorduchinha e de olhos azuis. Morava perto da escola e a família dela tinha uma fazenda. Eu, bicho do mato que sou, quase morri de alegria quando fui convidada pela Helô pra ir pra fazenda com ela. Mamãe liberou e lá fomos nós, num carro enorme. Os pais dela, eu e ela, rumo à Fazenda.
Primeiro detalhe importante: a fazenda ficava bem longe, perto de Fernandópolis, quase no Mato Grosso do Sul, horas de viagem pela Washington Luiz afora. E a família dela adorava música sertaneja. Então eu passei cerca de 7 horas num carro enorme com um sistema de som igualmente enorme, ouvindo Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó e outros bichos.
Já meio traumatizada, chegamos ao local, uma imensa fazenda, tipo aquelas de novela de época, com direito à casa-grande e senzala. Lindas varandas, portas grandes de madeira maciça, pé direito alto e tudo mais. Nos instalamos em um dos quartos e descobri que a Helô era leitora voraz de romances estilo Sabrina, Julia e Bianca. Sabem o que é? É, mais coisa de velha, eu sei.
Lá pelo segundo dia, decidimos descer até o laguinho pra ver os patinhos, olha que meiguinho. Ali na beirada, jogamos pãozinho pros patinhos e peixinhos, comemos frutinhas e vimos filhotinhos de gansinhos. Aí a Helô berrou:
- CORRE!!!
Eu levantei meio confusa e não notei a tempo que um ganso assassino se aproximava de mim. Aparentemente, era uma gansa que achou que eu ia fazer mal à seus filhotes. O que eu não sabia era que ganso tinha dente. E que eles corriam tão velozmente. Muito menos que eles conseguiriam morder uma bunda vestida numa bermuda jeans. Pois isso tudo é verdade.
Imagem ilustrativa da situação
A mamãe gansa mordeu minha bunda e foi embora cuidar da cria. Eu me vi na beira de um laguinho, com meio pãozinho na mão, com a bunda dolorida. A Helô ria a não mais poder. Sério, ela sentou-se no chão pra rir. Ela chorou de rir. Eu não vi graça. Minha bunda doía e eu sabia que ia ficar roxo. Mas fazer o quê? Eu estava a quilômetros de qualquer lugar familiar.
No dia seguinte, já superado o trauma da mamão gansa e imbuídas de espírito aventureiro, fomos caminhar. Saímos pela fazenda, e a Helô me mostrou o pomar, a horta, a plantação de laranjas, os pastos… ah, os pastos! Enorme e quase totalmente plana, a fazenda era o local perfeito pra criação de gado. O tipo de gado escolhido era o Nelore, de carne tenra. Enquanto ela apontava as cabeças de gado, eu resolvi olhar pro outro lado.
Foi minha sorte.
Vinda não se sabe de onde, uma vaca assassina corria em nossa direção. Dessa vez fui eu que gritei “CORRE!!!” e saí correndo em direção à cerca de arame farpado. Apavorada, eu sentia aquele animal maléfico correndo atrás de mim e desejando me punir por todos os bifes de contra-filé que eu havia comido, por todos os churrascos que eu já ingerira!
A vaca que me perseguiu, certeza.
Num movimento ninja que eu jamais seria capaz de reproduzir novamente, saltei agilmente sobre a cerca e fui parar do outro lado, onde apontei pra vaca e ri, espécie superior que eu era.
Notei um ar trocista na vaca e ao olhar pra baixo percebi que minha camiseta estava rasgada em diversos locais, que meu braço sangrava e que havia perdido um pé de tênis. A vaca, por sua vez, estava placidamente pastando bem ao lado do meu tênis perdido.
Novamente, minha amiga riu de mim. Mas eu aguentei, firme e forte!
No entanto, no terceiro dia, quando acordei e dei de cara com uma cobra na sala, virei as costas, me tranquei no quarto e li todas as edições de Julia, Sabrina & Bianca que encontrei.
Ao som de sertanejo, por óbvio.