Ontem foi dia das mães e eu passei o dia com a minha. A sogra veio, o sogro, a cunhada… Foi aqui em casa a comilança. Fiz canelone, porque a familia toda adora massa, e eu adoro fazer massas, molho de macarrão com tomate fresquinho, alho, cebola, sem manjericão porque a sogra não aprecia, mas com temperinho de sal, pimenta, do jeito que eles gostam. Minha mãe pediu polpeta, e quem sou eu pra não fazer? Acordei cedinho pra começar a preparar. Temperei a carne fresca, moída duas vezes, com sal, alho, cebola e pimenta. Deixei pegando gosto enquanto aprontava os ingredientes do molho. Botei o molho pra cozinhar em fogo baixinho, devagar.
Fiz as bolinhas, 2 quilos de carne pra fazer bolinha, haja bolinha. Aí fritei no óleo bem quente pra fazer casquinha por fora e ficar macia por dentro, porque a polpeta cozinha é no molho e não no óleo. Queimei o braço, não sei mais fazer coisas fritas. Sequei as polpetas com papel toalha bem absorvente e ploft, joguei as polpetas no panelão de molho, pra cozinhar por mais de uma hora, até ficar bem macia e cozidinha, porque minha mãe não come carne mal passada.
Montei os canelones, cobri com o molho, ralei queijo parmesão fresquinho pra gratinar. Foram três travessas de canelone, três! E as polpetas foram todas, também. Não contente, fiz tapioca pra ela, recheada com côco e leite condensado, quentinha na frigideira. Lavei umas 4 pias de louça enquanto preparava e mais uma depois. Sentei pra descansar eram umas quatro da tarde.
Mas eu não ligo, não ligo de ficar de pé o dia todo lidando na cozinha, ajeitando a casa, cuidando dos gatos, tudo ao mesmo tempo. Eu não ligo porque hoje a Babi Maués me mandou esse filme e eu chorei que nem uma boba vendo, porque eu vi direitinho a minha mãe e eu, as duas ali pulando faixa de trânsito, ela arrumando chuveiro e quase pondo fogo na casa, me ensinando a consertar a bicicleta e fazendo de mim quem eu sou hoje.
Sua mãe tem uma receita especial, não tem? Aquela que agrada todo mundo e que é a assinatura dela na cozinha? A GE quer saber qual a receita da sua mãe e ainda vai dar um presente pras histórias mais legais!
A minha, por exemplo, odeia cozinhar. Quer dizer, quando eu era pequena ela cozinhava, mas assim que conseguiu se livrar dessa função (ou seja, quando eu aprendi a fazer comida), comemorou. Mas até hoje ela cozinha pra mim. E ela faz uma comidinha que eu amo: sopa. A sopa da minha mãe não tem igual. É uma sopa de legumes com frango, ou com carne, ou só com legumes mesmo. Ela cozinha, tempera gostoso, depois esfria e bate no liquidificador pra ficar cremoso… eu amo essa sopinha.
Quando eu fico doente, ou triste, é essa sopa que eu quero. Ano passado, tirei a vesícula e minha mãe ficou uns dias cuidando de mim: lá veio a sopa. Eu almocei e jantei sopa uns 2 dias, sorrindo. Com um pãozinho fresco, crocante, um fiozinho de azeite… a sopa da minha mãe é sensacional. Tem gosto de casa, de infância, de colo… é sentir o cheiro da sopa cozinhando e eu volto a ter 7 anos. No frio, eu tento reproduzir a sopa em casa, mas a verdade é que não consigo, apesar de ficar super gostosa: a da minha mãe é ainda melhor.
Essa é a história da receita da minha mãe. Se você quiser contar a sua e concorrer a prêmios, a GE Eletrodomesticos dá uma mãozinha:
Você entra no Facebook, acessa a aba do concurso Receita de Mãe e escreve em até 250 caracteres o nome de uma receita típica da sua mãe e qual lembrança esse prato traz. As vinte melhores respostas ganharão a caixa VivaBrasil!+ que pode ser trocada por experiências incríveis de gastronomia, bem estar ou aventura pra presentear sua mãe. Você pode se inscrever até amanhã (09/05), às 16h. Então corre!
No twitter também dá pra participar: siga o @GeemCasa respondendo em até 140 caracteres com a hashtag #ReceitaDeMae, valendo 5 caixas de presente.
Minha mãe é o máximo. Do alto de suas seis décadas de vida ela usa o twitter, tem blog, é moderadora de grupo de facebook, joga videogame, tá doida pra ver Os Vingadores. Foi ela que me ensinou a gostar de Batman e a não depender de ninguém pra fazer as coisas: aprendi a puxar fio elétrico, pintar parede, cozinhar (este com uma mãozinha da Vó), organizar malas, fuçar no computador. Minha mãe fez com que eu tivesse uma infância incrível, cheia de livros, de passeios legais, de histórias pra contar. Ela me achou atrás do sofá brincando sozinha várias vezes (e me deixou lá mesmo sendo meio estranho), me deu a coleção da Enciclopédia Britannica pra que eu pudesse aprender as coisas, me deixava ficar descalça na terra por horas… Eu aprendi umas coisas sozinha também: sou eu que sei fazer penteados lindos nela, sou eu que consigo dar injeção nos gatos quando precisa, e mais umas coisinhas que são minhas.
Mas acho que a maior parte veio dela mesmo.
Quando eu era mais nova, ficava aquela vibe de “ai, credo, minha mãe”. Mas hoje eu olho pra ela e quero ser igualzinha quando eu crescer. Quero ensinar meus filhos essas coisas legais tipo consertar móveis, e quero que eles descubram outras coisas sozinhos pra que eu possa aprender com eles. Minha mãe me surpreendeu a vida toda com coisas novas, e eu acho que fiz o mesmo por ela algumas vezes.
Então vou aproveitar o aplicativo da MasterCard e mandar um recadinho pra ela:
Minha mãe não tem preço porque bordava a minha fantasia da escola com as próprias mãos e depois saía me apertando até a fantasia cair toda <3
Obrigada por ser uma linda, mãe. Feliz dia das mães.
Mande um recado pra sua mãe também: entre aqui no Facebook da MasterCard pra participar do Concurso Sua Mãe Não Tem Preço. Você vai curtir a página e usar o aplicativo para enviar sua foto. As melhores frases ganham prêmios: o primeiro colocado leva um colar da Vivara e os outros 6 ganham cestas lindas de produtos L’Aqua di Fiori! Já pensou dar um presentão pra mãe no domingo? \o/
Essa semana tive uma notícia muito triste. Perdi um amigo, uma pessoa que me fez rir muito, me apoiou e me fez chorar algumas vezes ao longo dos anos. Um cara inteligente, um dos mais inteligentes que já conheci. Advogado que passou na OAB e jogou o diplominha na gaveta, depois virou historiador e arqueólogo, que tinha paixão por dar aulas e ensinar. Ele estava morando fora de São Paulo e veio pra cá passar o reveillon. Semana passada, marcamos uma cerveja e eu não pude ir. Tenho aqui o sms dele dizendo que duvidava que fôssemos tomar uma cerveja só, demos risada no telefone quando eu disse que se fosse Scottish Courage ia ser uma só mesmo, e marcamos pra quando ele voltasse pra cidade.
Eu estou muito triste e sei que amigos meus estão também muito tristes. Queria estar com eles agora, mas estou longe de casa, trabalhando, e não consegui voltar a tempo. Estou no Rio, num hotel, com uma conexão de internet péssima, cansada e chorando desde quarta, quando soube da notícia. Daqui de longe, estou pensando nele e em todos os meus amigos que estão em SP nesse momento, tentando lembrar dele como ele deve ser lembrado: o cara que me dava trabalho em sessões de RPG, que me ensinou o que eram sambaquis, o cara que ofereceu o ombro quando eu precisei muito, o cara que me levou pra tomar cerveja no Asterix, o cara que me ajudou a empurrar o carro quebrado, que ficou em pânico quando viu uma aranha na piscina, que disse “Auab” quando chegou em casa bêbado, que tropeçou no Supla na festa da MTV, que esqueceu uma sacola de linguiças na beira da Anhanguera, aquele cujo pai foi confundido com um caseiro, que era conhecido como tatu bêbado. Meu amigo.
Peninzito, essa é pra você. Go out in style e guarda uma cerveja pra mim.
You may bury me with an enemy in mount calvary
You can stack me on a pyre and soak me down with whiskey
Roast me to a blackened crisp and throw me in a pile
I could really give a shit – I’m going out in style
You can take my urn to fenway spread my ashes all about
Or you can bring me down to wolly beach and dump the sucker out
Burn me to a rotten crisp and toast me for a while
I could really give a shit – I’m going out in style
Macarrão de domingo é um dever, uma obrigação para com a sociedade. Que churrasco, que nada: domingo é dia de comer macarrão e cochilar preguicentamente depois, pra acordar na hora do jogo. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer: uma macarronada, um cochilo, uma preguiça, uma molezinha na frente da TV.
E pra fazer macarrão é tão simples, que dá até pena de quem compra pomarola de caixinha pronto. Eu tenho vergonha quando vou ao mercado e compro molho de caixinha. Passo no caixa meio cabisbaixa, escondendo, e como aquelas pessoas que têm vergonha de comprar camisinha na farmácia e disfarçam comprando desodorante e aspirina junto, eu coloco coisas no carrinho pra desbaratinar. Coloco pão, leite, refrigerante, qualquer coisa pra distrair a mocinha e evitar que ela pense que sou do tipo que come molho pronto de caixinha. Porque eu não sou. Mas às vezes chego tarde em casa, às vezes o marido tá sozinho e com fome, e aí eu apelo pro molho pronto. Mas tenho vergonha.
O que gosto mesmo é de comprar polpa de tomate, extrato de tomate ou tomate pelado – ou ainda comprar tomate fresco bem maduro e aferventar até sair a pele depois de fazer um corte em cruz na bundinha dele. Enfim, eu bato esse tomate ou uso a polpa ou o extrato e fica bem melhor do que qualquer molho pronto.
Ralo cebola bem fininha, porque minha mãe não gosta de cebola e minha vó me ensinou assim. Refogo cebola ralada e alho batidinho no azeite até dourar, coloco carne moída duas vezes, uma carne magrinha e sem gordura porque o gosto é melhor assim, e refogo. Quando a carne fica marrozinha e começa a soltar água, coloco um copo de vinho tinto. Nele dissolvo um envelopinho de caldo de legumes ou de frango, pra dar sabor. Não uso cubo, tem muita gordura. Nessa hora, o gato vem trançar nas minhas pernas e eu o enxoto com o pano de prato. Acredito piamente que cozinheira que tem gato ou cachorro ou criança pra atrapalhar na hora de cozinhar faz a comida mais gostosa, sempre.
Espero ferver pra evaporar o álcool do vinho, e aí coloco a massa de tomate, misturo e vejo se a cor está bonita. Se não estiver bem vermelhinho, boto mais extrato de tomate pra ficar lindo e vermelho brilhante. Aí um pouco de pimenta do reino pra dar uma acordada na língua na hora de comer, uma colher de açúcar pra quebrar a acidez e deixo ferver pra apurar e engrossar. Quando chega no ponto que gosto, desligo e enfio montes de folhas de manjericão bem lavadinhas. Manjericão e manjerona são as únicas ervas aceitáveis no molho do macarrão. Não sei o que leva um ser humano a colocar orégano no molho de macarrão. Amarga ao ferver e acaba com o sabor.
Esquento água, cozinho a massa, fresca ou seca, tanto faz. Nunca vai ser gostosa como a massa fresca que minha avó abria na mesa da cozinha e pendurava em cabos de vassoura pra secar. Eu não sei fazer a massa do macarrão. A minha fica seca e ruim. Melhor comprar logo no mercado. Cozinho, jogo o molho por cima, um pouco de parmesão ralado na hora, um pãozinho pra limpar o prato e é isso, o macarrão de domingo está pronto e na mesa. Eu bebo com coca cola mesmo. Muitos bebem com vinho, que combina muito bem.
Agora vamos comer que daqui a pouco tem jogo do Timão. Uma rodada de massa com vinho pro Doutor, que era do tipo que comia, bebia e vivia, e agora vai ver o Corinthians campeão lá de cima.
A primeira vez que fui a um show do Red Hot Chili Peppers foi em 1993. Era a primeira vez deles no Brasil, eu tinha 15 anos e eles haviam lançado há pouco o disco mais incrível que jamais lançariam: Blood Sugar Sex Magic. Era o festival Hollywood Rock, era verão, fazia calor e eu estava lá no Morumbi vendo o show de uma das minhas bandas favoritas. A censura era 16 anos, mas quem se importa com a lei quando se tem 15 anos e ingressos pra ver Red Hot, L7, Nirvana e Alice in Chains? Foram grandes shows e acho que foi ali que minha cabecinha se transformou em fã de rock para todo o sempre.
No cantinho, parecendo deslocado, Arik Marshall, que durou pouco na banda.
O show do RHCP foi absurdo. Eles usavam saia, se apresentavam semi nus com lâmpadas gigantes na cabeça, pulavam sem parar e eu achei aquilo completamente maluco e maravilhoso. Eles abriram o show com Give it Away, o maior hit da banda, e quando uma banda abre um show com seu maior sucesso é meio que uma declaração de ”Tocamos a música do rádio, agora a gente faz o que quiser“. Isso cria uma expectativa. E eles cumpriram lindamente e eu fiquei muito feliz de estar ali.
Hoje, aos 34, eu deveria ser sábia o suficiente para ter consciência de que nada pode superar um show que você viu aos 15 anos, mas aparentemente, não sou. Ano passado vi Pixies e foi tão incrível que achei que seria lindo ver qualquer banda da minha adolescência ao vivo. O show do Red Hot no Anhembi provou que estava enganada. Poderia botar a culpa no hediondo sistema de som do Anhembi, no meu cansaço depois de um dia de trabalho ou na tpm, mas a verdade é outra. Red Hot envelheceu, e não de um jeito digno.
Enquanto bandas e artistas como Rolling Stones, Paul McCartney, Foo Fighters, Pearl Jam, Neil Young, Iggy Pop, Faith no More e Ozzy envelhecem perdendo um pouco do fôlego e mantendo a essência, outros como Metallica e Aerosmith se afastam tanto do que eram que soam irreconhecíveis. Red Hot lamentavelmente engrossa o caldo do segundo caso.
O cãozinho é fofo, mas esse bigode...
Os últimos álbuns (Stadium Arcadium, By The Way e Californication) foram horrorosos. De uma banda cheia de energia, que conseguia misturar rock com funk tão bem que foi produzida pelo George Clinton, viraram uma bandinha cheia de músicas meio emo, meio dançantinhas, sem batida, sem groove, sem alma. Desses 3 discos, se salvam algumas coisas comoHump the Bump, I Like Dirt, e em menor grau Can’t Stop. O resto? Chatice, cansaço, nenhuma vontade de dançar e tiozinhos cumprindo tabela no show. O disco recém-lançado, I’m With You, é infinitamente melhor que esses 3, e me fez acreditar que a banda estava voltando à forma. mas não.
Na quarta feira, deu pra ver que Chad ainda espanca a bateria como se sua vida dependesse disso, Flea ainda é um dos melhores baixistas do mundo, mas o “novo” guitarrista não corresponde. E Anthony, o vocalista mais legal da década de 90, virou um bigodudo esquisito que perdeu a voz.
O que salvou o show pra mim foi Flea cantando “Pea“, uma das músicas mais fofas deles. De resto, vontade de chorar com o setlist péssimo, que não se compara de maneira alguma com o que vi em 93. Pelo que li em críticas por aí, o show foi bom pra muita gente. Pra mim, foi um horror. No fim do show, a banda não parecia cansada nem feliz. E eu só estava cansada mesmo.
Aí voltei pra casa pensando que estou too old to rock’n'roll but too young to die. Essa sensação está aqui até agora, me fazendo pensar se devo continuar gastando meus suados caraminguás em shows de rock. Talvez ir a shows de rock seja coisa a ser feita antes dos 30. Não sei.
Mas botei pra rodar um cdzinho aqui e tô chacoalhando a bundinha enquanto escrevo o post e cantando junto (baixinho pra não acordar os vizinhos), e concluindo que o problema não é comigo. Eu sou uma jovem senhora animada. Meus amores do RHCP, nem tanto.
Hoje estava no twitter acompanhando a saga maluca do Rob de postar 24 textos em 24 horas (não perguntem, coisa de doido) quando vi uns tweets da Deh falando sobre a morte do pai dela estar completando um ano, e como ela tinha saudades. Um dos tweets mexeu muito comigo:
“Pronto. Chega de tristeza. Amor dá força pra gente, e meu pai me deu tanto amor q tenho reserva pra mto tempo. Vamo em frente.”
Na hora respondi que o meu pai se foi há 20 anos, mas que essa reserva de amor que ele me deixou ainda estava aqui comigo. E que essa reserva dura muito, muito mesmo. E os tweets da Deh sobre o pai dela e como ele era bacana fizeram com que eu pensasse em como meu pai também era bacana, e daí pra achar que eles se conheceram lá do outro lado foi um pulo: já imaginei os dois falando de futebol e comendo churrasco. A Lidi entrou na brincadeira, com um pai que não gostava de futebol, mas que podia entrar na roda e na conversa. Porque eu acho que todos os pais bacanas merecem se encontrar no céu dos pais bacanas e fazer coisas legais, tipo comer churrasco, tomar cerveja, brincar com o cachorro, ver o time ser campeão, ler o jornal de domingo, deixar a barba crescer, ouvir música boa.
Eu acredito mesmo que pessoas boas, quando morrem, vão pra um lugar bom, onde elas podem fazer todas as coisas legais que faziam em vida. E meu pai era um baita cara legal. Ele me ensinou a gostar de Beatles, a acender churrasqueira, a comer pizza com guaraná no domingo de manhã. Me deixava nadar na piscina funda do clube, me ensinou a jogar sinuca, deixou eu ler Drácula escondida debaixo do cobertor à noite, me deu de presente a trilogia do Senhor dos Anéis, mandou uma flor pra mim quando fiquei menstruada pela primeira vez. Ele era corintiano, cervejeiro, militante de esquerda, barrigudo, com barba e bigode bem aparados.
Numa das fotos que tenho dele, ele está sentado no colo de um amigo que se vestira de Papai Noel, com uma cerveja na mão e uma baita risada no rosto. Não lembro desse dia, mas lembro do dia que ele me deu uns tapas quando eu estava me pendurando pelo varanda do apartamento no sexto andar, a única vez que ele me bateu – mais por medo de que eu caísse do que pra me punir, claro. Lembro também de uma vez na praia quando cavamos um buraco enorme e fizemos um castelo e a água levou tudo e eu chorei – e ele me ajudou a fazer outro castelo mais pra cima, onde as ondas não chegavam.
Ele me deu a primeira revista Superinteressante que li, jogava Atari comigo, tinha uma casinha de ferramentas nos fundos do quintal onde eu podia brincar à vontade. Me levou pra andar de moto e eu morri de medo e chorei e ele nunca mais insistiu. Uma outra vez, eu chorei de medo porque uma perereca grudou no meu braço, e ele só riu e falou que não tinha porque ter medo, e me ensinou que o bicho tava mais assustado que eu. Eu aprendi que tem medos que devem ser enfrentados, e outros respeitados.
Ele tinha muita paciência comigo, e assim como eu, sua raiva era fogo de palha – ele ficava p da vida e na sequencia, esquecia e dava risada de outras coisas boas. Ele tentava ver o lado bom de cada um, e me ensinou que nem sempre devemos brigar, que as vezes é melhor aceitar o que não pode ser mudado e lidar com isso de uma vez.
Hoje, 20 anos depois que ele morreu, me lembro dessas coisas boas todas e penso que ele olha por mim de lá do outro lado. Cada vez que acontece alguma coisa importante na minha vida – formatura, primeiro emprego, emprego melhor, casamento – eu imagino que ele olha e fica orgulhoso de mim. E eu tento fazer coisas que o deixariam orgulhoso. Eu acho que ele se daria muito bem com o Eric, mesmo ele sendo são-paulino e não tomando cerveja. Eles iam brigar muito, mas iam ser amigos. E acho que ele ia gostar dos meus amigos.
Eu acho que ele teria orgulho de mim pelo que sou hoje, e isso me deixa feliz.
Então, esse post é pra ele, pra ele saber que a filha dele cresceu, aprendeu um monte de coisas com ele e levou pra vida esse estoque de amor que a Dehbora falou. E o post é pra Deh e pra Lidi e pra todo mundo que teve o pai mais legal do mundo, seja por quanto tempo foi, e que tem saudades dele, não importa há quanto tempo ele tenha partido.
Já fui a lugares, conheci pessoas, li livros, vi novelas, beijei bocas, ouvi músicas, vi shows, andei caminhos, corri esteiras, comi doces, subi pedras, nadei rios, fiz comida, abracei costas.
Já fiz muita coisa legal.
Já chorei perdas, dei topadas, levei tapas, ouvi broncas, abaixei cabeça, engoli sapo, dei socos, menti, errei caminhos, comi coisas vencidas, embatumei bolos.
Já fiz muita coisa chata.
Quando olho pra trás nesses anos todos, penso que minha balança pende pro lado bom. Sinto que fiz mais coisas boas do que ruins, visitei mais lugares bonitos do que feios, beijei mais do que levei chutes. Então está tudo bem; arrependimentos tenho poucos e alegrias tive muitas.
Mas ainda tem muita coisa que quero fazer. A vida tem data de validade, então é preciso fazê-las antes de expirar. O que falta fazer? Onde ainda preciso ir, qual prato preciso comer, qual banda preciso conhecer, qual livro ainda não li?
O que me falta fazer, afinal?
Hoje quando cheguei em casa tinha um presente da i9, uma cesta linda de piquenique com comidinhas deliciosas. E o convite: Fazer uma coisa nova, um piquenique, um convescote, beber vinho ao ar livre acompanhado de castanhas e queijo e geléia de framboesa.
Quanta coisa boa
Um convite pra fazer alguma coisa nova. Eu já fiz alguns piqueniques na vida, e hoje não quero mais. Mas usei o queijo e fiz uma tapioca de camembert com damasco, coisa que nunca tinha comido. E ficou boa pra caramba, de lamber os dedos. A campanha convida a não perder tempo e a fazer coisas novas, e eu aceitei um pedacinho dela.
Talvez não tenha aceitado tudo que me indicaram fazer porque a campanha é pra fazer 1009 coisas antes dos 30, e eu, velha que sou, já passei dessa marca. Fico lisonjeada com o engano: achar que tenho menos de 30 é um elogio à minha aparência e ao meu humor de menina. Mas o convite de fazer coisas novas vale mesmo assim: talvez não as 1009, mas 1000? 500? 738? O que de novo eu vou fazer antes dos 40? E antes dos 50? Apesar do filmezinho da campanha ser meio bobo e dizer que depois dos 30 não dá mais pra pular de pára-quedas, eu e o resto das pessoas das 3 décadas de vida estamos aqui pra provar que olha, dá pra fazer muita coisa antes dos 30 – mas depois dos 30 também damos um caldo. Conseguimos fazer muita coisa. Tipo escalar pedras num feriado só porque elas estão lá.
Eu e Eric, subindo muito
Tipo correr 10 quilômetros sem motivo aparente ou usar uma fita ridícula na cabeça só porque é legal.
oi
A cestinha linda serviu pra me fazer pensar em tudo que já fiz, no que faço agora e no que ainda farei no futuro. Os 30 anos são só um pedaço de tudo que eu quero fazer ainda. Só o começo. Você, que tem menos de 30, aproveite. E você, que tem mais de 30, desfrute. O caminho da vida é longo, e falta muito pra chegar no fim da jornada.
E enquanto medita nisso, aproveite pra achar os 2 (eu disse DOIS) gatinhos na foto abaixo. Quem achar ganha um beijo.
Um amigo querido está passando por um momento difícil: fim de um namoro longo. Alguns anos felizes, um último ano triste e o fim chegando recentemente. Ele está triste, coração machucado de amar, pés exaustos com a longa caminhada, ombros cansados de suportar o peso. Meu amigo está se sentindo velho, cansado e sozinho.
Aí estava conversando com ele e ouvindo Adele, e ouvindo Regina Spektor, e ouvindo essas músicas de coração partido que me tocam sempre, mesmo o meu coração estando aqui bem inteirinho dentro do peito. Porque por mais que eu esteja aqui, feliz, bonitinha com tudo indo direitinho, eu sei que amar é um pouco dançar na beira do abismo. A gente está ali, e de repente cai, sem muito aviso e sem muito por quê.
Eu já amei e deixei de amar e sofri em cada momento. É difícil amar. É difícil deixar de amar e de ser amada. Dói de verdade no peito. Em uma das vezes que acabou um relacionamento, fiquei uns 2 minutos sem respirar. Puxei o ar e soltei e fiquei sentada olhando pros meus pés sem respirar de novo. Eu esqueci de respirar naquele momento porque estava doendo tanto me ver sozinha que eu nem sabia como ia respirar de novo sem ele. Como doía.
E um dia a dor passou e eu voltei a respirar direitinho sem ter nem que pensar nisso.
Isso que é o importante: saber que passa. Dói, muito, muito mesmo. E é importante que doa, porque se não doer a gente não dá importância pra uma história bonita que se viveu. Mas a dor um dia passa, e a gente precisa deixar que ela passe. Minha avó já me dizia “Um dia isso também vai passar”. E ela, como sempre, estava bem certa.
Mais do que pensar que os anos juntos foram jogados fora, que você errou por 2, 5 ou 10 anos, é fundamental saber que isso é bobagem. Nada se perde; em qualquer história se aprende algo. E por mais que o fim da história seja dolorido, sempre há o que veio antes: o início, as noites em claro, os dias sonhando, o cheiro do outro que lhe faz sorrir; e o meio, os tempos de conforto, de reconhecer os passos do outro à noite, de dormir na mesma posição, de colocar os pratos na mesa do jantar, de criar os filhos, de construir a vida. E logo que o amor termina, o que fica é a lembrança do fim que dói tanto, esquecendo o começo e o meio que foram bons. Os anos dessa história não são perdidos: são anos a serem lembrados com carinho por conta do amor que houve.
Amadurecer a dor da perda é isso: conseguir olhar pra trás e saber que nada foi desperdiçado, que a história tinha que ser contada desse jeito. Que sua história teve começo, meio e fim. Um dia, você olha pra trás e vê o meio da história, e lembra com carinho de alguma coisa boa – e não dói mais, como ferida cicatrizada que deixa marca, mas pára de doer.
E aí você vai começar a perceber que um dia vai achar um maluco pra dançar de novo na beira do abismo com você, porque se a gente não se a apaixona a vida é chata demais. Então sinta tudo que há pra sentir agora: chore e se entristeça, mas tenha certeza: isso também vai passar.
Parte da letra da música que eu linkei lá no começo do post fala justamente sobre isso, sobre rever um antigo amor depois de anos, depois que passou o choque do fim e o tempo já cicatrizou os cortes:
There’s one thing I have to say so I’ll be brave
You were what I wanted
I gave what I gave
I’m not sorry I met you
I’m not sorry it’s over
I’m not sorry there’s nothing to say
Porque isso tudo que você sente agora, meu amigo, isso também vai passar.
(*fica uma menção honrosa a Tom Jobim e Chico Buarque, autores da música cujo trechinho roubei pra deixar no título, Anos Dourados. Nem ouso reproduzir a letra aqui, é genial demais pra isso)
Uma coisa que nem todos sabem sobre mim é que sou filha única. O fato de viver numa casa onde não havia outras crianças causou basicamente duas coisas: minha imediata culpabilidade por qualquer objeto quebrado (não obstante minhas tentativas de apontar o cachorro como verdadeiro culpado) e o desenvolvimento da minha imaginação, criando histórias para brincar sozinha. Meus pais não apoiavam o uso de videogame – na minha época, caros e raros no Brasil – e preferiam fazer com que eu brincasse. E sozinha mesmo eu criava as histórias das minhas bonecas, que iam de festas chiques a perigosas travessias entre vasos do jardim, realizadas através de cordas secretamente roubadas de varais incautos.
Eu tinha um balanço que hora era carruagem, hora cavalo, hora carro de fórmula 1, por vezes nave espacial. E desde pequenina meus pais me enfiavam livros nas mãos, livros sobre aventuras e histórias. Piratas, Cavaleiros, Reis e Rainhas, Mosqueteiros, soldados corajosos, fadas ciumentas, cientistas inteligentes, dragões rancorosos e heroínas espertas conviviam nos meus livros.
Digam oi pra minha amiga. Ela morava numa árvore no meu jardim, eu juro.
Eu era uma menina atípica, cujas Barbies costumavam ser mais vezes tripulação pirata do que mocinhas casadoiras. E graças aos céus, tive pais que permitiam que assim fosse – e mais que isso, aos poucos iam enfiando na minha cabecinha mais curiosidade. Por conta disso, estudava a enciclopédia para descobrir que Maracaibo era a Capital Pirata, que o Rei Arthur vivia na Inglaterra, que por sua vez ficava numa ilha pertinho da França, que era onde os 3 Mosqueteiros defendiam a Rainha, bem próximo da Itália que fez parte da Volta ao Mundo em 80 Dias, que me levou à Africa selvagem e depois fez com que me afundasse a bordo do Nautillus - e claro que me identifiquei com Bastian Baltasar Bux e sua leitura maluca de uma história sem fim.
Minha idéia de uma tarde agradável: conversar com um dragão
No fim da infância, meu pai me apresentou às aventuras de Bilbo Bolseiro, e li pela primeira vez O Hobbit, o que obviamente me levou ao Senhor dos Anéis. Li os 3 volumes com pressa, em pouco mais de 1 semana, escondida debaixo das cobertas para ninguém me ver virando as páginas no meio da noite, quando deveria estar dormindo. Acompanhei a aventura seguindo pelo mapa da Terra Média, chorei com as mortes dos personagens, me assustei com os Espectros, achei Tom Bombadil bobo e tremi diante do Balrog. Em pouco tempo estava completamente viciada em livros de fantasia. Dizem as más línguas que no fim dos anos 90 eu participava muito ativamente de certos círculos que discutiam o assunto, mas suponho ser boato. Com uns 10 anos de idade li Drácula e passei um mês dormindo de luz acesa, com medo do Conde aparecer.
E foi assim, antes dos 12 anos, que me apaixonei perdidamente por literatura fantástica. A tendência, a partir daí, era só afundar cada vez mais nesse mundo de magia, encantamento…e nerdice.