Severina tem que ser feliz de novo
Amanhã o STF vota uma ação importantíssima: a descriminalização do aborto de feto anencéfalo. Antes de começar, explico: Anencefalia é uma má-formação do tubo neural que faz com que o feto não tenha cérebro. A gravidez tem risco para a mulher e a criança nasce para morrer algumas horas ou dias depois. Não há cura. Não há hipótese de engano no diagnóstico. Ao ver as fotos de fetos anencéfalos fica claro: a cabeça é deformada, com um afundamento onde deveria estar o cérebro. Esta criança pode ser desejada, amada, esperada, mas não vai viver. Não há ciência ou oração que cure. A mãe carrega o feto por 9 meses e passa pelo parto apenas para enterrar seu filho. Simples assim.
O advogado Luís Roberto Barroso é o autor dessa ação e deu uma entrevista esclarecedora para o Estadão. Olha só esse trechinho:
“(…)essa hipótese não é de aborto. O aborto pressupõe a potencialidade de vida do feto. Como o feto anencefálico não tem potencialidade de vida extrauterina, nossa tese é que esse fato é atípico. Ele não é colhido pela definição de aborto do Código Penal. Por essa razão, a mulher deveria ser automaticamente autorizada a interromper a gestação.”
As Blogueiras Feministas fizeram post sobre o assunto. A jornalista Eliane Brum escreveu uma coluna muito tocante contando sobre o documentário por ela dirigido, que conta a história de Severina, uma agricultora que foi impedida de fazer o aborto de uma gravidez com feto anencefalico. É muito triste a história de Severina. O sofrimento dela e do marido, a familia que queria tanto esse filho. E não conseguiu: a gravidez terminou num parto de 30 horas e em um caixão pequenino, para o enterro do feto. Chorei algumas vezes ao longo dos quase 20 minutos de filme.
Eu espero que o STF acate a ação. Eu espero que as mulheres possam escolher fazer o aborto de um feto que não é um ser humano e nunca vai ser. É um corpo vazio, sem aquilo que nos faz humanos, sem inteligencia. É um bebê que nunca vai mamar, andar, falar, sorrir. Nunca. Espero que ninguém mais precise passar pelo que passou Severina, que quis comprar uma roupa com touquinha para poder enterrar seu filho, para que na morte ele tivesse pelo menos uma parcela de dignidade. Também espero que as mulheres que queriam levar a gravidez de um feto anencéfalo até o fim sejam respeitadas em sua decisão. Mas a possibilidade de decisão deve existir – e deve ser sempre, sempre da mãe. Nunca de um juiz ou da igreja ou da pressão social. É a mulher que carrega o feto em seu ventre que deve escolher.
Ninguém pode obrigar uma mulher a parir um filho morto. Não é cristão obrigar uma mulher a parir um filho morto. Não é correto. Não é certo. Nada justifica lutar pelo direito de um feto que nunca vai viver. E a decisão de seguir ou não com essa gravidez é individual. E deve ser uma escolha terrível. Só posso imaginar que lá dentro a mãe sempre espere por um milagre, que fique triste, que se sinta mal seja levando a gravidez ou interrompendo.
Amanhã, Severina, seu marido Rosivaldo e seu filho Walmir estarão em Brasília, acompanhando a votação. Eu espero que a presença dela por lá ajude o STF a permitir que as Severinas do Brasil todo possam voltar a ser felizes, qualquer que seja a escolha delas.











