17
Dec

As Flores da Discórdia

por Gabi

Bem, como eu não estou trabalhando e ainda não entrei no pique Seinfeld de escrever sobre o nada, vou compartilhar com vocês uma historinha recente.

Tudo começou quando a loja onde eu trabalhava foi reformada. Bem na entrada, o diretor achou por bem colocar uma bela banca de flores. O chefe II, apesar de falar “menas” e não saber exatamente o que dizer na hora de demissões, tem lá suas competências. Com a exposição mais reforçada, a venda de flores triplicou, a responsável pelo setor ficou feliz e a entrada ficou lindíssima, com uma explosão de cores e perfumes de orquídea.

Corre à boca pequena que na verdade a banca foi colocada ali porque na hora de fazer a planta da loja esqueceram de definir o local exato, e ao questionar o Chefe II sobre onde posicionar a banca, ele respondeu: “Bota em qualquer lugar onde essa merda caiba, puta trambolho dos infernos, da próxima vez faz uma banca menas grande!” E aí a responsável pelo setor e eu colocamos ali, por ser o único local onde cabia o paquiderme em forma de banca, mas isso é só um boato. Vamos dizer que o mérito é todinho dele, porque ele merece. E quem sabe assim ele vire uma pessoa menas besta. Mas estou divagando.

O fato é que a banca ficou linda – e enorme. A parte da frente tudo bem. Mas na parte de trás da banca, onde uma promotora ficava montando os arranjos e buquês, ficou bem no meio da passagem do caixa rápido. E a responsável da Frente de Caixa – cujo nome era Gardênia, vejam que fina ironia – ficou muito brava. Gardênia não poderia se importar menos com a venda de flores. Para ela, o que vale é a produtividade de suas operadoras. Operadora tem que passar os produtos rápido, não errar na hora de digitar o código das frutas e sorrir bastante ao dar bom dia. Operadora não tem que ficar apertada por causa de flores.

E as duas começaram uma guerra fria. Uma vinha reclamar da outra pra mim:

- Gabriela, a Michele colocou um vaso a mais e fechou toda a passagem…
- Gabriela, a Gardênia abre o caixa de propósito só pra minha promotora ficar apertada…
- Gabriela, a promotora da Michele está usando o caixa fechado para colocar vasos em cima, está molhando tudo…
- Gabriela, a Gardênia mudou o caixa preferencial ali pro canto pra atrapalhar a minha venda…

O espaço de oitenta centímetros entre a banca de flores e o caixa se transformou numa faixa de Gaza. Atentados terroristas envolvendo vasos de fores tombados, operadoras molhadas e clientes irritados começaram a pipocar. Os dois lados sofriam baixas e eu era uma espécie de Cruz Vermelha, atendendo a ambas mas sem tomar partido no problema.

Até que um dia a promotora bateu na operadora com uma orquídea. A moça era alérgica e começou a espirrar sem parar. E a orquídea perdeu metade das flores no impacto, que apesar de ser não-intencional, foi bem grande.

Chamei as duas na minha sala:

- Gardênia, meu chuchu. Não adianta ficar de birra, porque a banca de flores vai continuar ali. A venda triplicou e isso é ótimo.

Michele deu um sorriso triunfante e Gardênia cruzou os braços.

- Michele, minha fofinha. Não adianta achar que eu vou tirar um caixa dali, porque eu não vou. Precisamos de todos os caixas abertos porque senão dá muita fila. Então não use o caixa como bancada, não coloque vasos em cima dele e não molhe as operadoras.

O sorriso de Michele murchou e Gardênia descruzou os braços.

- Pras duas: o que importa é que a banca vai continuar ali E AO MESMO TEMPO o caixa vai continuar ali. Vocês podem conviver amigavelmente ou ficar se odiando e alugando meu ouvido pra sempre. A escolha é de vocês.
Elas resmungaram alguma coisa e desceram para a loja para assinar o armistício. Eu fiquei me sentindo o Henry Kissinger de saias e a paz voltou a reinar na entrada da loja. As duas moças ficaram amigas e descobriram que o marido de uma é compadre do irmão da outra e que as duas moravam na Penha. O meu chefe continuou a falar “menas” e “poblema” e as vendas continuaram aumentando.

Quanto a mim, o final também é feliz: neste momento estou prestes a ir relaxar na varanda ao invés de estar prestes a ter uma crise de gastrite causada por stress.

Tenho tentado também assinar um tratado de paz entre a Cuca e os outros gatos, mas eles não aceitam meus termos, tomaram a palmeirinha como refém e exigem resgate em latinhas de ração.

Não se pode vencer todas.

9 Responses to “As Flores da Discórdia”

  1. Gabi says:

    Poxa Gabi, que chato que perdeu o emprego!!! Mas é bom ver que é uma pacificadora nata! rs

  2. Gabi says:

    Você escreve muito bem. Parabéns! :D

  3. Gabi says:

    pelo menas vc se lvrou do estresse de fim de ano no varejo, neam???

    bjo

  4. Gabi says:

    A Cuca já está senil e não é adepta dessas novas correntes de pensamento baseadas em uam convivência pacífica entre povos.

  5. Gabi says:

    Como eu nunca tive um emprego realmente, só um estágio no qual minha principal função era comprar Coca-Cola pros guris que trabalhavam, não entendo muito acerca de discórdias no ambiente de trabalho. Quer dizer, teve um dia que o patrão me disse pra jogar menos Paciência Spider, mas digamos que ele foi legal.
    * * *
    Minha mãe também perdeu o emprego nas proximidades do Natal, há alguns anos. Sei lá, isso não faz sentido pra mim. o.O
    * * *
    Adorei seu puxa-saquismo para com o Inagaki. nada contra, eu ia ficar igualmente deslumbrada se ele prestasse atenção em mim.
    * * *
    A propósito, eu sou aquela visitante no aniversário do Baco. =)
    Bjo

  6. Gabi says:

    Mundo de bosta! Blog tudo de bom! :)

  7. Gabi says:

    Você trabalhava num hospício? Ainda bem que saiu, coitada.

  8. Gabi says:

    Gabi, dearest, eu li todos os posts que faltavam pra me atualizar, mas resolvi comentar tudo de uma vez, porque preencher esse formulario de nome-email-site eh um saco.

    Entao. Eu achei que nao dava pra historia do Eric sobre o Nike 10k ficar mais hilario, mas ficou. FANTASTICA a visao da equipe de apoio do “atreta”! ahahahaha

    Carta do Papai Noel – as duas versoes – fodas! Soh voce mesma pra pedir que o filme do Sex and the City seja bom!

    Demissao e adjacencias…nhe…o tucanes eh uma merda mesmo, ainda mais vindo de alguem que diz menas.

    Agora, ca entre nos, se voce conseguir tornar a Cuca um ser respeitador de armisticios e sociavel, merece o premio nobel da paz!

    Beijo!

    (ufa, agora que coloquei em dia posso voltar a comentar decentemente, um de cada vez!)

  9. Gabi says:

    Viu? Ja pode ir trabalhar na ONU. Sobre os gatos nao adianta, nao ha solucao.
    BEIJOS!

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