A prova de Francês, o Deficiente Físico e o Guarda Chuva
Ver o sol nascer é muito bonito. Ver um caminhão de cabras no meio da Marginal não é bonito. Cheirar o caminhão é pior ainda.
Conversar muito e converter pessoas é ótimo. Pensar em comunidades bizarras para o Orkut também. Só preciso de uma imagem…
Chegar pra trabalhar com sono e encher a cara de café não é muito bonito. Match Point é bonito. Filmão. Pouco woodyalleniano, se assim posso dizer. Mas muito bom.
Fiquei devendo uma história ontem:
Colégio de São Bento, circa 1990. Sétima série. Tínhamos aula de francês duas vezes por semana, e eu que sempre tive dom para línguas estrangeiras era a segunda da classe, atrás do Cléber, meu izinho de bairro. A mãe dele era francesa e nos dava aula sempre.
O Cléber era um aluno dois anos mais velho, que tinha parado de estudar várias vezes, porque tinha um problema seriíssimo de saúde nas pernas e de vez em quando se internava para cirurgias e tratamentos. Ele mancava, usava muletas e de tempos em tempos aparecia na escola de cadeira de rodas.
Pouco tempo antes disso, meu pai havia falecido. Então eu e Cleber éramos as grandes vítimas do colégio: a órfã e o aleijado. Éramos respeitados até pelos alunos mais velhos e agressivos, aqueles que intimidam os demais e roubam dinheiro do lanche. Éramos quase intocáveis, e isso nos levou à inevitável amizade e à parceria em diversos crimes, como invadir o jardim do claustro e espantar os pavões, roubar bolas da sala de educação física e pedir refri de graça na cantina.
Nas poucas vezes que éramos pegos – maldito Cleber, não conseguia correr rápido o suficiente! – simplesmente alegávamos que estávamos em grande confusão mental, que ele era aleijado e eu órfã. Aí as pessoas tinham dó e nos deixavam ir com uma advertência verbal.
Um dia, houve uma prova de francês. Eu e Cleber havíamos estudado bastante, com ajuda da mãe dele que além de dar aulas de francês fazia um croissant divino. Motivada mais pelo estômago do que pela língua estrangeira, confesso que não me ative tanto à matéria, mais entretida em mastigar croissants.
A professora entrega a prova. Com os croissants fermentando no estômago, li a primeira questão. Tínhamos que traduzir algumas frases para o português. Ali pela linha 3, estava o seguinte (ou algo parecido, já nem lembro mais):
“Il pluie. J´ai une parapluie”
Eu levanto a mão, indignada:
- Professora! Que história é essa de paraplégico? O Clebão só é meio ruim das pernas! Que preconceito!
- Gabi, não é bem isso que está escrito.
- Lógico que é. Aí, Cleber, olha que absurdo!
- Cala a boca que você tá falando besteira.
A professora me pega pelo braço e me tira da sala. Os colegas se entreolhavam tentando entender o meu processo mental. Coitados. A pobre mulher, calmamente, me explica.
O que estava escrito: “Chove. Eu tenho um guarda chuva.”
O que eu li: “Chove. Eu sou um paraplégico.”
Engano perfeitamente compreensível.
Voltei pra sala de aula completamente vermelha e sentei do lado do Cleber.
- Desculpa, cara. Era guarda chuva.
- Sei lá, eu só uso muleta.
Clebão foi o primeiro cara que me ensinou a lição da tolerância e essa é uma daquelas histórias agridoces que me fazem rir e chorar. Dois anos depois Cleber passou por mais uma cirurgia e dessa vez não voltou. Nem de muletas, nem de guarda chuva. E o colégio ficou sem seu aleijado e sem sua órfã, porque no colegial eu mudei de escola. Mas lá no jardim os pavões passeavam impunemente, sabendo que finalmente teriam paz. Pelo menos até o próximo aleijado ou até a próxima órfã.


“- Desculpa, cara. Era guarda chuva. – Sei lá, eu só uso muleta.” Impagável, impagável… A história tem seu quê de tristeza, mas lembre-se dos livros de cabeceira da Pollyana e sorria com mais um diálogo primoroso, como a acima reproduzido…
) Ótima história Gabi. Essa e a das cabras…hehehehehehe Beijocas…
* chat via comentários de blog * Sua feminista enrustida, viadinha do greenpeace, faltadora oficial de aniversários e membra do MST!!! * fim do chat * Mijei de rir