A cliente vidente, o chow-chow gigante e a atendente de pet shop
O dia começou como outro qualquer de verão. Muito calor em São Paulo, temperatura se elevando cada vez mais, muitos cachorros fedorentos, muita gente querendo dar banho neles num pequeno pet shop anexo à loja onde trabalho.
Vamos chamar uma cliente de idade avançada em particular de Dona Claudia.
Dona Claudia liga para o Pet e é atendida por Eliete, a simpática atendente de meia idade.
- Pet Shop, Eliete, bom dia!
- Oi, Eliete, sou eu, Claudia, a dona do Brenno…
- Oi, Dona Claudia. Posso ajudar?
- Então, hoje eu consultei meus mapas astrais e quero marcar banho e tosa do Brenno para as 17 horas.
- Xi, Dona Claudia, estou sem horário… pode ser às 18 horas?
- Mas o horário com boas energias é às 17…
- Deve ser por isso que estou lotada, Dona Claudia.
- Bom, acho que pode ser as 18, se…bem…
- Diga, Dona Claudia.
- Você acha que seria muito constrangedor se meu sobrinho fosse ao pet um pouco mais cedo para canalizar as energias? Ele é medium…
- Bem, Dona Claudia, me diga uma coisa a senhora: ele entra em algum tipo de transe?
- Transe?
- Ah, a senhora sabe… Canta, recebe entidades, essas coisas….
- De maneira alguma, é tudo muito higiênico, com cristais.
- Então estou marcando para as 17, Dona Claudia. Pode mandar o medium.
Um pouco depois chega um rapaz gordinho, usando uma camisa do Real Madrid. Ele se apresenta como sobrinho e medium pessoal de Dona Claudia, saca dois grandes cristais do bolso e começa a andar de um lado para outro do Pet erguendo os cristais e dizendo:
- Só coisas boas! Só coisas boas!
Enquanto Eliete o segue pelo pet, tentando escondê-lo dos demais clientes, os cachorros na área de banho e tosa ficam agitados. Serão as más energias?
Não, é apenas o sobrinho que entrou lá e está dando uns passes no tosador. O rapaz parece confuso enquanto um moço com a camisa do Real Madrid chacoalha os braços sobre sua cabeça, mas trata-se de um profissional da tosa: sua mão empunha a tesoura e não treme sequer uma vez enquanto faz um embaraçoso penteado modelo cotonete em um poodle incauto.
O sobrinho-medium parece satisfeito e sai avisando que está tudo bem e que sua tia e o cachorro chegarão em breve.
Pontualmente as 18 horas, Dona Claudia chega com seu motorista e seu gigantesco chow-chow, Brenno. Não obstante a língua azul característica nos cães de sua raça, Brenno pesa pelo menos dez quilos a mais que qualquer chow-chow já visto deste lado da Marginal Pinheiros. Ele é enorme, peludo, dono de patas possantes e de um hábito ligeiramente pouco inquietante de dar lambidas e afáveis cabeçadas nas pessoas que ele encontra.
Brenno só leva boas energias por onde vai.
Dona Claudia entrega o cãozinho ao tosador, que o encaminha para dentro da sala em meio à empurrões carinhosos e lambidas efusivas. O rapaz parece um pouco preocupado, mas concentra-se na tarefa e só perde o equilíbrio uma vez, quando Brenno resolve puxar a coleira e verificar uma interessante pilha de sacos de ração.
Dona Claudia então olha para Eliete e diz:
- Sabe porque eu venho aqui neste Pet, Eliete?
- Por que, Dona Claudia?
- Porque em todos os outros lugares as pessoas não entendem minhas crenças… me acham maluca, sabe?
- Ah, Dona Claudia, aqui nós também achamos a senhora meio maluca, mas mesmo assim gostamos muito de recebê-la.
- Ah, isso faz toda a diferença, minha filha. Agora me traz uma água que eu acho que vou entrar em transe.
- Claro, Dona Claudia.
E o sol se põe em mais uma tarde de verão num pet shop de São Paulo.


Uai. Você tem um wcchow-chow? he he he
HAHAHAHAHA Adoro quando tu toma esses ácidos fortes.
ahahahahahah…muito bom!
O pior é que ninguém acredita que isso aconteceu de verdade.
Mais engracado que as crencas da vovo, foi a sinceridade da atendente. “Nos tb te achamos meio maluca…”