por Gabi
Antes de começar a falar da peça que vi, quero fazer uma pergunta.Olhem as fotos abaixo. À esquerda Fabio Cannavaro, zagueiro italiano, ao lado de sua esposa Daniela. E à direita, Pierce Brosnan enlaçando sua mulher.

Alguém pensou “O que esse bonitão faz com esse bagulho?” Porque eles são lindos, ricos e famosos. E elas são gordinhas. E se você pensou isso, sinto muito, mas você é babaca.
Babaca – A Peça. Esse devia ser o título do espetáculo que eu fui ver semana passada. Porque apesar do espetáculo se chamar Gorda – A Peça, a gorda do título é o que menos importa na história toda. Quer dizer: a gorda está lá, claro. O enredo todo gira em torno da reação que o amor de Helena e Antonio, um magro, provoca.
O fato de Helena ser gorda – não fofinha, não rechonchuda, não gordinha. Gorda mesmo, 30 quilos acima do peso – é o estopim pra que montes de preconceitos venham à tona. Karla Fabiana, a tal “gordinha do Zorra Total” é bem gorda.

O colega de trabalho, Caco, é o mais sincero. Como ele conta, sua mãe era gorda e ele tinha vergonha dela. Ele acha que gordos são assim porque querem, porque não fecham a boca. Joana, a colega de trabalho, ex-peguete de Antonio, não se conforma de ser trocada por uma porca gorda. E Antonio, o babaca-mor, não sabe como lidar com essas cobranças. Como ser apontado na praia como o namorado da baleia? Como explicar pro mundo que trocou uma gostosa por uma bolota?
Todo mundo na peça é babaca, menos a gorda. Helena é resolvida. É gorda, se gosta, cuida do cabelo e da maquiagem, se veste bem, gosta de cinema e de filmes bacanas, gosta de ler, tem emprego, dá risada, sai na balada, tem amigos, tem vida. Helena vive.
Os outros? Não vivem: apenas reagem dentro de uma sociedade de papéis bem definidos, onde o lugar das gordas é escondidinhas, comendo um cupcake enquanto lêem Crepúsculo e suspiram, sozinhas num sábado à noite. O subtexto é que gorda não pode se divertir, não pode namorar, não pode ir à praia. Gorda não merece nada, exceto talvez uma barrinha de chocolate.
As interpretações estão ótimas; Fabiana Karla faz uma Helena simpaticíssima e resolvidíssima. Michel Bercovitch está incrível como o indeciso Antônio. No dia que assisti, Caco foi interpretado por um ator substituto, cujo nome não recordo – mas que estava ótimo. A única exceção é a bela Flávia Rubim, cujo sotaque carioca e mania de interpretar gritando cansam um pouco e tiram a dramaticidade de algumas cenas – Joana soa como uma burguesinha mimada e não como uma mulher em crise por ser linda e ainda assim trocada por uma gorda.
A peça não é uma comédia, apesar de algumas risadas. É um convite a refletir sobre o preconceito e a babaquice de cada um de nós. Afinal, quem namoraria uma gorda? Ou um feio? Ou um motoboy? Quem conviveria com o diferente sem piscar? Quem vê a Heidi Klum e o Seal e acha normal?

Recomendo a peça e recomendo ainda mais pensar no assunto. Onde é que está o seu preconceito?