Um conto de Natal
Estavámos, eu e minha mãe, enfurnadas em um shopping na última sexta feira, em busca de presentes que faltavam debaixo da árvore. Minha genitora, apesar de muito saudável, vez por outra surta e anuncia:
- Quero comer um McSalad Bacon!
- Mas e a gordura? E o colesterol? Isso não é kosher!
- Nhé! Pede uma coca grande pra acompanhar.
- Benzadeus.
Derrotada, comprei os lanches – e ganhamos duas casquinhas por pagarmos com nosso cartão de débito (se pra fazer merchandising recebesse, o nome do cartão aqui eu colocaria). Empanturradas com aquele monte de gordura, entrei numa enorme fila para pegar as casquinhas grátis. Foi ali que conheci Ana Carolina.
Tinha uns seis anos, magrela, mulata, usando um vestido amarelo e maria-chiquinha colorida, e era a cara da mãe, uma moça mais branca que eu e com o cabelo tingido num terrível tom de loiro platinado. Carol falava sem parar, e eu acabei sendo incluída na conversa.
- Como você chama, moça?
- Ana Gabriela.
- Nossa, eu sou Ana Carolina, é quase igual, né?
- É.
- Moça, você acredita em Papai Noel?
- Claro.
- Porque eu pedi uma boneca pra ele. Mas não sei se ele vai trazer. É meio cara, sabe?
Olhei pra mãe dela, que sussurrou “Trezentos reais!”, rolando os olhos pra demonstrar o desagrado.
- Hummm… geralmente ele traz o que a gente pede sim.
- E quando você era pequena, existia Papai Noel?
- Existia. E ele já era velho, sabia?
- Nossa, então quantos anos ele tem?
- Muitos.
- Ele existe desde quando?
- Desde que existe criança, acho.
- Eu acho que ele não existe não.
- Como assim? Por quê?
- Porque o Papai Noel da escola é diferente do Papai Noel lá de casa.
Olhei de novo pra mãe, que sussurrou de novo “Meu cunhado é negro…” e deu uma risadinha. Aí entendi bem. A loira era casada com o negão e o cunhado se vestia de Papai Noel africano pra entregar os presentes por lá.
- Bom, você já parou pra pensar que pode ser que o Papai Noel pode ser meio diferente pra cada um?
- Como assim?
- Ele tem que visitar um monte de lugares nessa época. Eu acho que o de verdade é aquele que vai na nossa casa, os outros são tipo auxiliares dele, sabe?
- Hummmm… por isso o meu Papai Noel é negão?
- É, acho que é!!
- Ahhhhh tá.
Havia chegado a vez dela na fila. Enquanto ela se decidia entre casquinha simples, mista ou de chocolate, a mãe se virou pra mim:
- Ela tá naquela idade que os amiguinhos começam a falar que Papai Noel não existe… é complicado.
- Imagino.
- Obrigada por ajudar. Ela tem que acreditar um pouco mais, ainda.
- Acho que todos nós precisamos.
As duas se foram com suas casquinhas na mão, eu peguei a minha e a da minha mãe e fui pra mesa com a sensação de dever cumprido. Porque eu realmente acho que todos nós precisamos acreditar um pouco mais no Papai Noel.
Foda-se quem acha que Natal é uma data hipócrita. Talvez no fundo dessa chamada hipocrisia exista um desejo real de que as pessoas tenham um feliz Natal, um feliz ano novo. Então deixo vocês aqui com a história da Carol e aproveito pra desejar de verdade um ótimo final de ano e um 2008 muito melhor pra todos.
Que no ano que vem, todo mundo seja mais feliz, coma melhor, ganhe mais dinheiro, tenha mais saúde, mais amor, mais motivos pra sorrir, mais oportunidades de passear, de viajar, de dormir bastante e de fazer todas aquelas pequenas coisas que a gente quer fazer e sempre acha que não tem tempo ou grana pra fazer.
Por isso, desejo a todos um 2008 repleto de filmes legais, sorvete gelado, bolo de chocolate, caipirinha, massagem no pé, banho morninho, sonecas à tarde, bichos de estimação, frutas frescas, presentes surpresas, areia no chinelo e muito mais coisas boas.
Um beijo pra todo mundo e uma careta pra quem não gosta de Natal e Ano Novo.

