por Gabi
Na semana passada eu trabalhei muito. Mas muito mesmo. Tipo uma média de 14 horas por dia, sendo 24 horas seguidas no começo da semana. Aí quando chegou o domingo, meu dia de folga, eu supus que poderia dormir o dia todo.
Mas eu estava enganada.
Na véspera, meu querido namorado me lembrou que ele correria o Nike 10k. E que seria no domingo. E que ele tinha que chegar lá as sete e meia da manhã. E que era na USP. E eu disse:
- Puta que pariu.
Mas eu sou uma namorada dedicada. Se meu namorado estava disposto a jogar fora vinte anos de sedentarismo e cultivo da pança por umas horas de corrida, eu ia estar lá para ver. E eventualmente levá-lo ao hospital depois.
Na noite anterior, a preparação: ele deveria comer carboidratos e evitar gorduras. Fiz um macarrãozinho light, um filé de frango e tal. Tava supersaboroso e leve, e rico em carboidratos. Aí ele comeu três potes de sorvete de Galak e pareceu satisfeito. Durante o jantar, ele me explicava a mecânica da prova:
- Então amor, a largada é de acordo com o tempo que você pretende levar pra completar os dez quilômetros.
- Opa. E você pediu quanto? Quatro dias?
- Hahaha, boa, 2,5km por dia, né?
- Não, três dias pra descobrir como usar a ponte ORCA pra chegar na USP e um dia pra descansar depois de ir até lá de táxi.
- Pô.
Enquanto eu tentava dormir, ouvia a chuva caindo torrencialmente lá fora. E meu último pensamento consciente antes de entrar em um sono sem sonhos foi que estava chovendo tanto que ele jamais acordaria cedo no dia seguinte. Ledo engano.
Logo ele, que não consegue levantar antes das dez da manhã sem matar alguém, acordou antes de mim. Antes do despertador. Antes que clareasse, pra dizer a verdade. E ele estava sorrindo.
Juro que o filho da puta tava sorrindo.
Enfim, consegui me erguer da cama e de alguma maneira abri os olhos. Peguei uns Red Bulls na geladeira, pra garantir que não ia bater o carro num poste sonolento. E porque no caso do Eric, Red Bull não é doping. É questão de sobrevivência. No caminho pra lá, discutíamos detalhes:
- Então amor, precisamos combinar um lugar pra nos encontrarmos no fim da prova…
- Fique tranquilo. Tenho certeza que o ambulatório é fácil de achar.
- Pô.
- E eles devem ligar pra mim caso você esteja impossibilitado de falar.
- Sem fôlego?
- Nâo, com o maior balão de oxigênio do mundo em cima do nariz.
- Pô.
Larguei o cara na USP e amaldiçoei os corredores de todo o mundo sem fazer distinção de cor, sexo ou religião. Depois, amaldiçoei o pessoal da organização, porque o assim chamado Bolsão de Estacionamento ficava a cerca de 5 quilômetros do local da prova. Não é exagero, era no D&D Shopping, ao lado do Shopping Morumbi, sabem? Longe.
Mas era um lugar seguro onde eu poderia dormir no carro durante uma horinha. Ou eu assim pensava, até o simpaticíssimo segurança dizer que eu não poderia permanecer no veículo estacionado.
E o filho da puta tava sorrindo também.
Odeio gente que sorri.
Tá, eu não odeio, mas eu entendo quem odeia. Enfim, saí do estacionamento e fui me refugiar num local seguro. Lá eu abracei animais, comprei ração e plantas lindas. Usei o banheiro, tomei café. É o melhor lugar do mundo num domingo de manhã.
Depois de um tempo, lembrei do Eric. E por mais que meu lado sádico ansiasse por abandoná-lo, uma boa namorada não deixa seu querido mofando numa tenda do ambulatório do Nike 10K.
Voltei pra USP, calculando que os bons corredores já teriam acabado a prova e haveria lugar para estacionar. Bingo, um lugar do lado da entrada. Uma multidão de gente de azul saía da USP, suada e feliz. Eu ostentava minha barriga pride com galhardia. Nunca vi tanta gente saudável junta antes. Fiquei com coceira no pneuzinho da direita.
Fui na direção do pronto socorro, com a certeza que encontraria por ali. Para minha surpresa, ele não só havia completado a prova, como havia sobrevivido, ganhado uma medalha, não chegado em último e estava aparentemente bem, encostado em um coqueiro e comendo uma banana.
Eu o entrevistei enquanto ele comia a banana, inclusive.
Na caminhada de volta ao carro, sentia um cheiro estranho. Respirei fundo, tentando entender o que era. Depois de uma, duas, três respirações, eu entendi. Era o fedor generalizado de vinte e cinco mil idiotas que haviam acabado de correr dez quilômetros. Juro: tem cheiro de cavalo. De um monte de cavalos.
Mencionei que havia um show do Marcelo D2 e do Toni Garrido no final? Pois é, havia. Achei melhor fugirmos dali rapidamente enquanto Marcelão fazia um cover de Seven Nation Army.
Na volta pra casa, enquanto meu namorado fedia, reclamava de dor nos pés e clamava por comida, eu refletia sobre uma questão crucial: se em sua onisciência Deus desejasse que a gente corresse dez quilômetros num domingo de manhã, teria fulminado com um raio o inventor do motor de combustão interna.
E o da carroça também.