por Gabi
Felipe tem 14 anos, mas parece muito menos. Franzino, olhos brilhantes, escuros e fundos, olheiras. Rosto encovado, mãos sujas meio trêmulas, usava um moletom azul desgastado, bermuda cáqui e chinelos. Era negro e tinha o cabelo raspado bem curto.
Me assaltou na esquina da Major Natanael com a Dr Arnaldo, às cinco e meia da tarde da Sexta-feira Santa.
- Tia, tô armado. Dá o dinheiro senão te dou um tiro na cara.
Abri a bolsa, peguei a carteira, entreguei duas notas de dez e uma de vinte.
- Passa esse um real aí.
Entreguei a nota de um real que se amarfanhava no cantinho da carteira. Pensei se a boca de crack tem pedra de dez e pedra de onze, e se a pedra de onze ia garantir mais uns minutos de loucura pra ele.
- Agora vai embora tia, não olha pra trás e vai com Deus.
Nervosa, virei pro lado errado na avenida. Fiz o retorno pela Paulista, demorei coisa de cinco minutos. Ao passar novamente pelo farol, vi a Base Comunitária da PM que acabava de encostar ali. Parei o carro e fui até lá.
Quatro policiais. Dois do lado de fora, dois sentados em uma mesinha do lado de dentro. Uma garrafa térmica de café estava sobre a mesinha e eles comiam biscoitos de polvilho em forma de rosquinha. Contei o que acontecera, ressaltando que fora minutos antes. Eles se prontificaram a me ajudar.
Entramos na viatura para dar uma volta no quarteirão e ver se o menino ainda estava por ali. Descemos até a Praça Charles Miller, onde Felipe costuma ficar, junto com outras crianças. O Soldado Guimarães era mais conversador, seu colega Soldado Santos era mais calado. Ambos por volta dos quarenta anos, Guimarães era mais encorpado, com quase vinte anos de Corporação. E me explicou:
- Esse que você descreveu é o Felipinho. Ele tem catorze anos, mas diz que tem onze pra não ir pro correcional. Aliás, ele faz aniversário agora, na época da Páscoa. A gente toda semana prende ele, leva pro correcional, ele fica coisa de duas, três horas até a mãe ir buscar. Dia seguinte está ali na esquina de novo. O pai dele foi assassinado na cadeia, e a assistente social disse que a mãe parece ser viciada também.
Dirigimos pelo bairro com suas ruas arborizadas, reduzindo a cada cruzamento para olhar para as crianças que faziam malabares, ou para um grupo de jovens com a pele em diversos tons de negro, desde uma moça negra como o asfalto até um rapaz com a pele cor de café com leite. Usando roupas street wear, eles dançavam hip hop na frente do Estádio do Pacaembu. Os policiais olharam longamente para eles, eles sustentaram o olhar. Uma moça bonita abraçou um rapaz com um casaco vermelho, disse algo no ouvido dele e ambos riram. Aumentaram o som de novo, e eu e os dois soldados continuamos a circular.
- O Felipe mora aqui na rua mesmo. Não anda armado. Mas essa semana estava com um caco de vidro e cortou o braço de uma senhora. Essa história de arma de fogo é novidade. Ele já está há uns dois anos no crack. Não deve sobreviver mais muito tempo. Se não morrer da droga, morre de dívida na boca. Ou leva um tiro de uma vítima de assalto que esteja armada, ou de um colega mais cabeça quente que veja ele assaltando.
Não achamos ninguém.
- Com os quarenta reais que ele levou de você, dá pra comprar quatro pedras. Ele já fez o dessa noite, não deve voltar mais. A essa hora, já desceu pra boca pra comprar as pedras de hoje.
Fomos à delegacia para eu assinar o BO. Depois voltamos à base, e agradeci aos policiais pela gentileza e por fazerem seu trabalho. O esguio e soturno Soldado Santos abriu a boca quase pela primeira vez:
- Pois é. Esse é nosso trabalho. Vigiar, procurar o assaltante. Evitar que aconteçam os crimes. Mas de vez em quando a gente não consegue. Desculpa.
Agradeci de novo, peguei meu carro e voltei pra casa. Fiquei muito, muito triste. Não pelos quarenta e um reais, nem pelo susto que tomei. Mas por lembrar dos olhos fundos de Felipe, e por pensar que ele é uma criança. Não devia estar roubando nem fumando crack. Devia hoje estar com a família, ganhando seu ovo de chocolate. Devia estar na escola, estudando. Na rua de casa, brincando.
Não sei até agora quem foi a vítima nessa história toda. Se eu, que fui assaltada, se os policiais que não conseguem garantir a segurança pública, ou se ele, filho de pai bandido e mãe viciada, que nunca foi à escola, que não ganha ovo de Páscoa, que usa um moletom velho esteja frio ou calor, e que encontra na droga o conforto para mais uma noite, uma semana, um mês. Tudo que ele conhece é o crime. Seu mundo é violento sabse-se lá desde quando.
Felipe tem catorze anos, parece menos, e não deve chegar aos dezoito. Eu tenho vinte e nove, mas pareço menos. E quando cheguei aos dezoito, comemorei com meus amigos num restaurante japonês.
O dia agora está clareando. Eu aqui em casa agradeço ao meu anjo da guarda por não ter sofrido nada de mais, e por ter um namorado, um emprego e uma família. E ofereço uma prece por todos os Felipes, torcendo para que eles um dia ganhem ovos de Páscoa.
Vou voltar para minha cama e esperar a hora de ir trabalhar. Enquanto isso, contemplo o amanhecer dessa longa noite, a primeira noite fria do outono de 2007.