por Gabi
Hoje tava ouvindo rádio no carro e a Brasil 2000 mandou na sequencia Sweet Child of Mine, depois Break on Trough e, fechando a sequencia, Smells Like Teen Spirit.
Assim, em quinze minutos de música eu fui transportada para os cinco anos entre 1989 e 1994, quando eu era uma menina e essas músicas tocavam no rádio sem parar.
A do Guns me lembrou da sexta série, quando eu tinha uma agenda enorme, cheia de bilhetes, ingressos de cinema, papeis de bala, recortes de revistas. Nessa agenda o Alexandre escreveu a letra de Sweet Child Of Mine pra mim, e eu me fiz de louca, porque todo mundo achava que eu gostava do Rodrigo Paes – mas na verdade eu nem ligava pra ele, só gostava dele porque todas as minhas amigas gostavam e ele era o menino mais lindo do Colégio São Bento.
No fundo, eu gostava mesmo era do Alexandre, mas tinha vergonha de falar, porque ele era nerd e não muito popular. Mas eu nem sabia bem o que era gostar ou não gostar, na verdade. Porque eu queria mais era que batesse o sinal pra eu ir pra casa brincar.
Depois a Break on Trough, quando lá pela oitava série eu achei um monte de LPs da minha mãe e do meu pai, e pensei que eles talvez não fossem tão caretas assim, se ouviam esse tipo de música na juventude. Ouvi o disco do The Doors até quase furar. Fiz uma cópia numa fitinha cassete e enfrentava a longa caminhada até a escola ouvindo a fita cassete no meu enorme walkman Sony, que comia pilhas pequenas como se fossem bombons de cereja.
Os solos de teclado do Ray Manzarek nem me incomodavam, e convenhamos: Jim Morrison era o cara mais lindo e cool do mundo. Quando eu vi as fotos dele já caidão e barrigudo, solenemente ignorei. Jim pra mim seria sempre o cara sem camisa com um colar de contas que posou numa sessão de fotos da Rolling Stone.
Nirvana? Ah, Nirvana. Esse veio um pouco mais tarde, quando eu já estava no Colegial. Era diferente de tudo que tínhamos ouvido até então. Em tempos sem Internet, quando todas as novidades demoravam meses até chegar ao Brasil, Kurt Cobain e companhia usando suas camisas xadrezes e suas roupas surradas caíram como uma bigorna em nossas mentes pouco amaciadas.
Rock até então era a super produção dos shows de heavy metal, com explosões e luzes piscantes, ou os riffs simples do Ira! com suas letras paulistanas até o osso, ou para os mais undergrounds, as coisas estranhas que tocavam no Madame Satã ou no Hangar. Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains. A aparente falta de produção nos clipes, a crueza das guitarras, isso tudo arrebentou os coraçõezinhos rockeiros incipientes. Fui ao show no Morumbi, em 94, e foi épico, histórico, inesquecível.
Mas esse post não é sobre música: é sobre mim. Sobre ouvir três músicas aparentemente desconectadas numa sequencia aleatória num programa de old hits numa rádio rock e sentir de repente um monte de lembranças se sobrepondo.
As aulas no prédio antigo da escola, o metrô, o cheiro da coxinha na cantina, a bicicleta no quintal, o primeiro disco que comprei, a morte do meu pai, as brigas com os professores, as descobertas literárias, a vez que cortei o cabelo e odiei, o primeiro esmalte na unha, enfim; todo tempo de que dispus com tanta tranquilidade, e que no entanto pareceu passar tão velozmente naquela época. Aqueles cinco anos entre os doze e os dezessete, que foram decisivos pra me tornar a pessoa que sou hoje.
Fico grata por ter vivido uma época que me permitiu ter esses anos entre deixar de ser criança, começar a ser adolescente, virar aborrecente de vez. Uns anos confusos entre brincar no recreio e olhar diferente para os garotos e escolher a faculdade, uns anos pra crescer.
Hoje vejo as meninas de doze anos já mocinhas, de saltinho e mini saia, de cabelo arrumado, e lembro dos meus doze anos de joelho ralado e do gosto do chiclete de melancia que eu tinha mania de mastigar o tempo todo.
E como boa velha que sou, não posso deixar de pensar que era mais bacana no meu tempo.