por Gabi
Sempre que eu acho que vou conseguir descansar um bocadinho aocntece alguma coisa, é incrível. Mas deixa minha noite não-dormida de sábado pra lá.
Quando acontecem essas coisas chatas, eu gosto de contar história velha. Então vamos lá.
Muitos anos atrás, eu trabalhava num hotel próximo da Av Paulista. Todos os dias de manhã eu pegava o Ana Rosa, e todos os dias de tarde voltava com o Barra Funda. De manhã, o ônibus ia muito cheio, só esvaziava no primeiro ponto da Paulista. Eu acabava sempre indo bem na frente até lá, bem ao lado do motorista.
A primeira coisa que notei foi a unha do dedo mindinho do motorista. Superado esse trauma, notei também que os motoristas de ônibus dirigem muito perto uns dos outros. O cara tinha a mania de parar bem perto do ônibus da frente. Coisa de uns 30 centímetros de distância, mais ou menos.
Dava um medo danado aqueles malucos acelerando na descida da Cardoso de Almeida e parando em cima do ônibus da frente.
Mas o que me dava mais medo que tudo era o sertanejo Daniel.
Uma bela manhã, eu ia quase dormindo. Quem anda de ônibus bem cedo dorme de pé sem maiores problemas. É uma dádiva divina, essa habilidade. Você está lá, de pé, mas seus sentidos estão meio dormentes. É tipo uma hibernação rápida e vertical.
Enfim, lá estava eu, quase dormindo. Numa freada mais brusca, abri os olhos para intimidar o motorista com meu olhar de ódio mortal, técnica que falha com dez entre dez motoristas. Entretanto, ao olhar para frente, vi se aproximar não uma traseira comum de ônibus.
Era uma traseira com foto. Uma foto grande. Uma foto assustadora do Daniel de cuecas, sorrindo.
Meus olhos lacrimejaram tentando compreender o conjunto da obra. O que era aquilo? Anúncio de quê? Deitado de lado,com uma perna dobrada e seu peito cabeludo de fora, Daniel sorria.
Meu primeiro pensamento foi que a cabeça dele tinha um formato estranho. Era quadrada. Cogitei que pudesse ser o corte de cabelo. Mas não: era o cabeção mesmo.
E a desproporção, minha gente: o corpo pequenino, as pernas finas… e aquela cabeça enorme, quadrada, parecendo uma lancheira escolar, sorrindo para mim. Fechei os olhos e esperei que fosse embora. Não foi. Tive um pesadelo no qual o Daniel tirava uma maçã e um suco de dentro de sua caixa craniana.
No dia seguinte, subo no ônibus, e na Dr Arnaldo quem estava? A foto, colada na traseira de um Parque Edu Chaves. No outro dia, era um Sacomã. No terceiro, um Paraíso. Até no Jardim Maria Luísa tinha uma foto do sertanejo Daniel vendendo sei lá o que com seu sorriso obsceno.
Pasei a subir no ônibus rapidamente e a achar umlugar onde eu pudesse ir de costas, virada para dentro do ônibus. Mas eu sempre acabava olhando de novo para a foto do Daniel de cuecas.
Comecei a perceber os detalhes: a correntinha dourada no pescoço, a risca do cabelo inexistente, o joanete no pé esquerdo… era como um acidente horrível, que você não quer olhar mas olha assim mesmo.
Curiosidade mórbida.
Aí um dia eu chego no trabalho e resolvo desabafar no vestiário. Uma das presentes era Madeinusa, uma camareira que ganhou esse nome porque a mãe viu escrito num lugar e achou bonito.
- Gente, não aguento mais vir trabalhar olhando a foto do Daniel de cueca.
- Ai… eu gosto…
- Madê, como assim?
- O Daniel é sexy!
- Credo! Mas com aquela cabeça?
- E eu lá sou mulher de perder tempo olhando cabeça?
- Putz.
Moral da história: Nesta vida é tudo uma questão de ponto de vista. Não importa o formato da sua cabeça, mas sim para onde se olha.