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13
Jul

Nom ducor, duco

por Gabi

Estava saindo para trabalhar quando minha mãe me liga:

- Você vai trabalhar?
- Vou, ué.
- Mas tem ataque do PCC de novo!

Entrei na internet para saber o que estava acontecendo. Mais ônibus queimados, mais bombas caseiras, tiros em PMs, mortes idiotas.

Me assustei ao ver que um ônibus tinha sido queimado na Vila Madalena. Minhas amigas estavam lá, justamente no Fidalga, bem na hora do ocorrido. Liguei pra Cyntia:

- Mina, tá tudo bem?
- Tudo. Mas foi horrível. Bem na porta do bar, o ônibus queimando, as pessoas assustadas. Não esperava ver isso no Brasil.

A Cyntia morou em Israel um ano e viu alguns atentados por lá. Mas aqui acho que foi um pouco chocante.

Aí meu telefone de casa toca:

- Quem fala?
- Gostaria de falar com quem?
- Eu quero saber quem está falando!
- Você quer falar com quem, moço?
- Com a dona da casa aí.
- Pois não.
- É o seguinte: pegamos tua mãe.
- Como é?
- Aqui é o PCC, mina. Você não lê jornal não?
- Leio sim. Pegaram aonde?
- Na rua, porra.

*pega celular, liga pra mãe, vê que está tudo bem, volta a respirar*

- Olha, moço, minha mãe está em casa. E está bem.
- Bem o caralho! A gente vai dar um tiro na sua mãe!
- Vão à merda. Assustem outra pessoa. Seus idiotas aproveitadores do medo alheio. Tomara que a PM dê um tiro em cada joelho seu.
- Mina, a gente sabe onde você mora!
- Não sabem nem meu nome, bando de ladrão pé de chinelo. Vão tomar no cu!

E desliguei. Tocou de novo na sequência, mas eu não atendi.

Moramos na maior cidade do Brasil. Uma cidade de 15 milhões de habitantes. Uma cidade que não pode de forma alguma se curvar ante meia dúzia de desgraçados que usam o medo para tentar dominar a população.

Temos que ir trabalhar, abrir o comércio, os bancos, as escolas. Não podemos permitir que o pânico se instaure de novo e que nossa cidade se transforme novamente num deserto, como naquela segunda feira de maio.

Eu amo esta cidade. Amo São Paulo de coração. Amo andar pela Avenida Paulista, amo dirigir pela Marginal Pinheiros á noite, amo a Livraria Cultura, amo sopa de cebola do Ceasa de madrugada, amo a sensação de ter tudo em um só lugar.

Sei que a cidade tem seus momentos feios. Eu vejo as crianças no farol e as favelas que se amontoam na periferia. Eu vejo as filas nos hospitais públicos. Trabalhei tempo suficiente num supermercado popular para ver as pessoas que chegavam com seu dinheiro contado para comprar a comida da semana. E sei o quanto isso é triste.

Mas também vi muitas pessoas que começaram lá embaixo e com trabalho duro e suor cresceram, com dignidade e honestidade. São Paulo pode ser cruel, mas dá na mesma medida em que tira.

Pelo amor que sinto por São Paulo e por minha dignidade enquanto cidadã, me recuso a ceder e a ter medo de bandidos.

Os senhores Governador e Secretário de Segurança Pública, bem como o Comandante da Polícia Militar que façam sua parte, garantindo a segurança nas ruas. E garantindo que os bandidos estejam dentro da cadeia e ali continuem.

E nós, habitantes da cidade, temos que manter nossa rotina: trabalho, escola, lazer.

Os bandidos que sassariquem tentando conseguir poder de negociação com uma população que não cede, que não teme.

Alguém já leu o que está escrito na bandeira do Estado? Nom Ducor, Duco.

Não sou conduzido, conduzo.

São Paulo não pode se render.

12
Jul

Ontem foi um dia estranho

por Gabi

Primeiro eu chutei o pé do sofá. Quando eu saía de casa, meio mancando, meu porteiro desce comigo no elevador:

- Tudo bem, Dona Gabriela?
- Tudo… bati o pé e está meio dolorido.
- Ahhh… a senhora quer que eu dê uma olhada?
- Como??
- É que eu sou enfermeiro, até servi no exército como enfermeiro…
- Ah, tá. Tudo bem, Wando, se não parar de doer eu aviso.
- Se ficar roxo também, hein?
- Óquei…

É um consolo saber que meu porteiro da tarde/noite é um enfermeiro diplomado. Eu devia ter perguntado porque ele largou a profissão pra virar porteiro, mas achei melhor deixar pra lá.

Aí meu celular parou de funcionar. Como meu cérebro funciona em ondas estranhas, não conseguia me lembrar se tinha pago a conta desse mês ou não. Aí liguei pra Vivo. Primeiro vêm aquelas centenas de escolhas: Para falar sobre sua conta, aperte um, para torpedos aperte dois e assim por diante. Como eu nunca sei direito o que fazer, eu sempre espero acabar todas as opções antes de escolher. E acabo sempre apertando o número pra falar com a atendente.

- Vivo, Marcele, boa noite.
- Oi, eu não me lembro se paguei a conta ou não….
- Como assim, senhora?
- Eu preciso saber se paguei a conta desse mês ou não.
- É a senhora Ana Gabriela quem fala?
- Sim, eu mesma.
- E como a senhora não se lembra?
- Er… não lembro. O fato é que meu celular parou de fazer ligações e…
- Ah, se parou de fazer ligações é porque a senhora não pagou…
- Mas vocês têm um sistema que possa ser consultado?
- Temos sim, senhora.
- Marcele, você poderia fazer a fineza de consultar no sistema?
- Ah, é. Pois não, um minuto, senhora.
*tecla*
- Senhora, não consta mesmo pagamento…
- Ok, obrigada, você é um anjo.

Aí eu paguei, e de quebra paguei também a luz e o telefone, para evitar supresas desagradáveis. E fui dormir logo depois, porque tava tarde e eu não sou de ferro.

Hoje acordei e meus dedinhos estão um pouco roxos. Será que devo chamar o Wando?

11
Jul

Com que roupa?

por Gabi

Escolhendo a roupa para ir trabalhar e o Orkut me diz:

Sorte de hoje:
Simplicidade e clareza devem ser seu tema ao se vestir

Um oráculo, minha gente, um oráculo.

10
Jul

Tristão é emo

por Gabi

Ontem, final de Copa do Mundo, fiz uma lasanhada aqui em casa, em homenagem à lindíssima Squadra Azzurra.

A lasanha estava ótima, o Canavarro molhou a camisa, enfim, tudo muito lindo até alguém querer assistir Tristão e Isolda.

Bah, odeio filme de amor.

Odeio gente apaixonada.

Odeio finais infelizes porém bonitos.

Nhé nhé nhé.

*Obrigada ao Eric que fez este comentário tão pertinente e bonito e desviou minha atenção da história, evitando que eu cortasse os pulsos ao final da sessão.

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Update: acabo de ver meu extrato bancário. Só me convidem para baladas muito econômicas a partir de agora. Tipo ficar em casa e dormir – bem barato.

E se minha gerente do banco ligar, digam que fugi para o Turcomenistão.

06
Jul

O estranho caso do tarólogo de um braço só

por Gabi

Seu nome era Jarbas e ele vivia num apartamento pequeno perto da Santa Casa. Quem me indicou foi um cigano dono de um restaurante por quilo na Vila
Madalena:

- Vai lá, que esse cara é sério…

Pra cigano indicar, o cara devia ser um verdadeiro oráculo. Liguei e marquei um horário. Chegando lá, Jarbas abre a porta usando o braço esquerdo. Levei
alguns segundos para perceber que ele não tinha o braço direito. E o primeiro pensamento que me ocorreu foi: “Como será que ele embaralha?”

Ele foi muito gentil, me ofereceu um chá. Eu aceitei, ele foi para a cozinha e eu comecei a ouvir barulhos estranhos. Do meu cantinho no sofá, abri a boca e soltei a fatídica pergunta:

- Quer uma mãozinha?

Em nanossegundos percebi que tinha perguntado a coisa errada. Ele respondeu que não, obrigado, muito educadinho. Mas pensei: “Agora ele vai profetizar
desastres…”

Mas não. Ele me serviu o chá e começamos a conversar. Me contou que era tarólogo, astrólogo, médium e mago. Do lado de fora da janela, um monte de pombas arrulhavam e batiam as asas. Ele pegou a minha xícara de chá vazia e analisou as folhinhas longamente:

- Hummmm…. Você está pensando em viajar, né? Pra longe…
- Tô.
- É, você está no ano 9.
- Cuma?
- Neste seu próximo aniversário acaba um ciclo na sua vida… espere o fim de agosto pra começar qualquer projeto, pra fazer planos.
- E até lá?
- Segura esta sua ansiedade que não te leva à nada.
- Pô!

Me sentindo devassada ante o olhar perspicaz do cartomante, tentei descobrir que parte das folhinhas de chá revelava meus planos mais íntimos. Desconfiei de um montinho no canto que parecia um ponto de interrogação. Ou de uma fileirinha na borda. Ou de um aglomerado meio babado no canto.

As cartas não mentem jamais – vamos esperar que as folhas de chá também não.

Ainda cuspindo fragmentos de folhas de chá, sentamos à mesa, ele embaralhou as cartas usando as pernas como apoio, pediu para que eu cortasse e abriu um monte de cartas em cima de um pano azul.

Foi apontando cada uma e profetizando sobre meu passado, presente e futuro. Falou coisas interessantes e outras assustadoras, mas não me disse se a Itália vai ser campeã ou se vou encontrar o amor da minha vida. Não me contou os números da Mega Sena tampouco.

Mas foi legal porque como todo bom oráculo, o tarô não mostra seu futuro. Na verdade, é como se as cartas fossem arquétipos de como você está hoje, que tipo de processos você vem vivendo.

Gostei dele. Meio careca em cima, cabeludo dos lados da cabeça, usando uma bata azulada e sem um braço, ele: Jarbas, o tarólogo.

Recomendo.

E no Orkut, este maravilhoso oráculo moderno, a sorte do dia:
Sorte de hoje:
O melhor profeta do futuro é o passado

03
Jul

Um paralelo coerente

por Gabi

Todos – ou quase todos – sabem da minha fascinação por baixistas. Numa longa conversa no Frangó, expliquei detalhadamente minha teoria para Alê Félix,
Carol e Lilian:

- Seguinte, meninas: Vocalista é sempre muito ego. Muito centrado, manja? Eles se acham o centro de toda a atenção e o umbigo do universo. Logo, não vão te dar a devida atenção.
- Certo.
- Guitarristas são gênios criativos torturados. Eles acham que são muito inteligentes e que se não fosse por eles a banda não ia parar em lugar nenhum.
- E ia?
- Claro que ia,pô! Ainda mais se for de punk rock, qualquer um toca aqueles três acordes. Aí o guitarrista e o vocal entram numa batalha de egos e as groupies – nós, claro – acabam sendo usadas num cabo de guerra emocional entre os dois metidões.
- Baterista é legal…
- Não é. Eles só ficam por ali pegando as groupies desprezadas pelos guitarristas e vocalistas…
- Nossa…
- Pois é. Enquanto isso, quem está ali no cantinho, tirando um som, pensando na vida? O Baixista. Ele sim é um homem sensível e preocupado com nossos corações.
- Pô, faz sentido…
- Claro que faz. É uma teoria super embasada!
- Como assim, Gabi? Você já teve experiências com baixistas?
- Éééé…..
- E com guitarristas?
- Bem…
- E com bateristas?
- Er… ah, deixa pra lá. Olha ali um cachorro na praça, ó que bonitinho!
*toma gole de guaraná diet e disfarça*

Assistindo desinteressadamente aos jogos da Itália, percebi que o mesmo raciocínio pode se aplicar aos gramados.

Veeeeejam, os atacantes são as estrelas da fita. Os caras que vão lá e fazem o gol. Egocentrados e tal.

Já os centroavantes e laterais são como os guitarristas: acham que é deles todo o mérito da jogada, que são os reais alicerces da história.

O goleiro, coitado, fica lá atrás fazendo gestos grotescos e gritando, tal qual o baterista. Pegam as modelos e ajudantes de palco desprezadas pelos atacantes.

E quem é que está ali, quietinho, fazendo sua parte? Os zagueiros, estes incompreendidos. Verdadeiras muralhas, são eles que fazem todo o embasamento do time – mas só são lembrados quando erram alguma coisa ou quando não estão ali.

Por isso eu digo: Vai Canavarro!!!! Do alto de seu 1,75m de pura zagueirice, ele capitaneia a Squadra Azzurra com classe e elegância.

E deve tocar baixo nas horas vagas.

Eu sou Itália desde pequenininha mesmo. Que Lúcio que nada.