Let’s dance
Homem que sabe dançar é ótimo. Homem cheiroso, idem. Homem bonito, maravilha. Homem bem vestido é show de bola.
Todas essas coisas juntas, em grande quantidade e sem camisa só podem significar uma coisa: você está no meio de uma boate gay.
Tudo começou quendo a Regina, que faz faculdade de Moda, comunicou ao Thiago que iria ao aniversário de um colega de classe. Festinha essa que realizar-se-ia na The Week, popular casa gay na Lapa.
Thiago, sentindo-se intimidado ante a perspectiva de ter que ir junto, chamou seus fiéis amigos heteros para acompanhá-lo na empreitada. Eu obviamente topei: roubada, teu nome é Gabi!
Gerson sabiamente declinou da oferta. Lelê alegou uma falência financeira e não foi.
Fomos: eu, Thiago, Regina e, surpreendemente, Penin. Os quatro heteros. Vá lá, depois de conhecer a Isis eu sou pelo menos uns 90% hetero – já é alguma coisa.
A The Week é um mega clube enorme, que funciona num antigo galpão na Guaicurus. Com diversos ambientes, é caro pra cacete – Para alívio do meu bolso, tomei apenas água com gás, ao módico custo de quatro Reais a unidade.
Chegando, fomos logo pra pista, porque era a unica coisa sensata a se fazer naquele momento. Enquanto eu mostrava todo meu suingue, Regina me aponta:
- Olha aquele cara ali no canto… não parece alguém?
- Caraca, o Joselito é veado!
O personagem de Hermes e Renato, num cantinho, rebolando.
Dali a pouco, pergunto:
- Regina, tem hetero aqui?
- Fora a gente? Talvez…
- Devem ser aqueles caras ali, encostados na parede, com cara de apavorados.
Mudamos de pista, e vi um japonês de cabelo comprido, cerca de um metro e quarenta de altura:
- Regina, olha ali o Celso Kamura!
- Ele é o maquiador oficial da Cori, sabia?
- Quem é o quê de onde?!
- Vocês são heteros mesmo, hein?
Subitamente surgem diversos rapazes sem camisa, usando bermudas de lycra e arranjos de cabeça em formato de penachos de galo. Sim, eram adereços de cabeça feitos de penas, como uma crista de galo. Eles subiram em palquinhos espalhados pela casa e começaram a dançar. Para alívio dos meninos, também havia uma menina de shortinho fazendo uma emocionante perfomance rebolativa. Penin me pergunta:
- Gabi, os caras têm uma propaganda da Flash power na bunda!?!?
- Claro. A propaganda é a alma do negócio. Público-alvo é tudo e eles estão anunciando no local mais visado da noite: a bunda dos go-go boys.
- A propaganda é a arma do negócio, no caso.
- Por deus.
Lá pelas tantas, o Penin:
- Preciso ir ao banheiro. Me ajudem.
Fomos acompanhar nosso amigo, para garantir a sobrevivência do jovem Penin naquele antro. De repente me vi no meio de dezenas de homens sem camisa. Todos malhadíssimos, dançando, suados. Era impossível atravessar a pista, tamanho o aglomerado de corpos masculinos.
- Gente, não dá pra passar!!!
- Penin, dá pra segurar o xixi?
- Claro. Com certeza! Definitivamente.
Achamos outro banheiro do lado de fora logo depois, para alívio dos meninos.
Depois dessa experiência, decidimos ir embora. Esperamos apenas 35 minutos pelo carro e pude enfim descansar a cabecinha nos meus lençóis cor de melancia.
Conforme eu recuperava a capacidade auditiva e massageava meus pés cansados, meditei sobre a noite e descobri que tudo nessa vida é muito relativo: Estar cercada de homens lindos, cheirosos e sem camisa pode ser uma visão do paraíso ou do inferno, dependendo das circunstâncias. Ou como bem definiu a Regina:
- Ali eu estava no Limbo. Não era bom, mas não dava pra dizer que era ruim. Afinal, eram homens lindos, cheirosos e sem camisa.
- Homens?
- Er. É. Né?
- Acho que é.
Hoje acordei meio surda e estou ouvindo Marvin Gaye desde então, para tentar desintoxicar os ouvidos de todo aquele eletrônico.

