Eu e a boqueta
- Gabrrriele, boqueta!!
Ouvi esta frase no primeiro dia de estágio em hotelaria. Ela saiu da boca do chef de cozinha do Hotel Maksoud Plaza, o senhor Andre Serva, um negão antilhano muito bravo e malvado,com um sotaque carregadíssimo.
Mas o terror deve ter transparecido em meus olhos, porque ele se apressou a explicar:
- Boqueta é aquele janele porrr onde se entrrregá os prrrratos pras garçons. Eles colocám o pedido ali, num papelssim, a boquetêre passa prrro pessoal de cozinhe, depois devolve pra os garçons.
Lembrando que isso ocorreu há muitas luas, antes do advento do palm top e dos pedidos eletrônicos.
A boqueteira, no caso eu, tinha que traduzir os garranchos dos garçons e gritar bem alto, mas bem alto mesmo, acima do barulho ensurdecedor de panelas batendo, frituras fritando, assistentes de cozinha recebendo queimaduras de terceiro grau no braço com calda quente de açúcar:
- Filé madeira, ao ponto, batata corada, arroz com brócolis!!
- Salmão dourado, molho alcaparra, purê de mandioquinha!!
E essa foi minha função no começo do estágio: boqueteira. Fiquei umas duas semanas nisso, antes de ser colocada pra trabalhar de verdade, cortando salsinha, refogando cebolas e mexendo uns panelões enormes de boulabaisse.
O problema foi um só: fiquei conhecida na cozinha como uma excelente boqueteira. Porque eu gritava muito alto e conseguia entender todas as letras dos garçons.
Esta fama é boa por alguns motivos: ganha-se o respeito dos colegas cozinheiros, porque não é mole administrar todos os pedidos, na ordem certinha e tudo mais. E é péssima, por motivos óbvios.
Imagina contar pra sua família que você é excelente na boqueta. É o tipo de frase que provoca arrepios em tias mais conservadoras. E vamos combinar que se eu tivesse um namorado naquela época ele não ia gostar nada disso.
Lembrei desta história hoje, depois de conversar com uma colega hoteleira que trabalhou no Transamérica e soltou no meio do expediente:
- Preferia quando eu era boqueteira!
- Eu também! Eu era ótima nisso, menina!!!
- Ninguém enchia o saco, era só dar uns gritos e pronto.
- E eu só tinha que me preocupar com o negão…
Foi aí que vimos que o andar inteiro olhava pra gente, abismado. Os colegas de trabalho nos contemplavam com um olhar de Nelson Rodrigues para as cunhadas. As colegas com uma expressão de inveja. Eu comecei a explicar:
- Em cozinha de hotel tem um lugar chamado boqueta e…
- Deixa quieto, Gabi. De repente assim sai nosso aumento.

