<
31
Mar

Eu e a boqueta

por Gabi

- Gabrrriele, boqueta!!

Ouvi esta frase no primeiro dia de estágio em hotelaria. Ela saiu da boca do chef de cozinha do Hotel Maksoud Plaza, o senhor Andre Serva, um negão antilhano muito bravo e malvado,com um sotaque carregadíssimo.

Mas o terror deve ter transparecido em meus olhos, porque ele se apressou a explicar:

- Boqueta é aquele janele porrr onde se entrrregá os prrrratos pras garçons. Eles colocám o pedido ali, num papelssim, a boquetêre passa prrro pessoal de cozinhe, depois devolve pra os garçons.

Lembrando que isso ocorreu há muitas luas, antes do advento do palm top e dos pedidos eletrônicos.

A boqueteira, no caso eu, tinha que traduzir os garranchos dos garçons e gritar bem alto, mas bem alto mesmo, acima do barulho ensurdecedor de panelas batendo, frituras fritando, assistentes de cozinha recebendo queimaduras de terceiro grau no braço com calda quente de açúcar:

- Filé madeira, ao ponto, batata corada, arroz com brócolis!!
- Salmão dourado, molho alcaparra, purê de mandioquinha!!

E essa foi minha função no começo do estágio: boqueteira. Fiquei umas duas semanas nisso, antes de ser colocada pra trabalhar de verdade, cortando salsinha, refogando cebolas e mexendo uns panelões enormes de boulabaisse.

O problema foi um só: fiquei conhecida na cozinha como uma excelente boqueteira. Porque eu gritava muito alto e conseguia entender todas as letras dos garçons.

Esta fama é boa por alguns motivos: ganha-se o respeito dos colegas cozinheiros, porque não é mole administrar todos os pedidos, na ordem certinha e tudo mais. E é péssima, por motivos óbvios.

Imagina contar pra sua família que você é excelente na boqueta. É o tipo de frase que provoca arrepios em tias mais conservadoras. E vamos combinar que se eu tivesse um namorado naquela época ele não ia gostar nada disso.

Lembrei desta história hoje, depois de conversar com uma colega hoteleira que trabalhou no Transamérica e soltou no meio do expediente:

- Preferia quando eu era boqueteira!
- Eu também! Eu era ótima nisso, menina!!!
- Ninguém enchia o saco, era só dar uns gritos e pronto.
- E eu só tinha que me preocupar com o negão…

Foi aí que vimos que o andar inteiro olhava pra gente, abismado. Os colegas de trabalho nos contemplavam com um olhar de Nelson Rodrigues para as cunhadas. As colegas com uma expressão de inveja. Eu comecei a explicar:

- Em cozinha de hotel tem um lugar chamado boqueta e…
- Deixa quieto, Gabi. De repente assim sai nosso aumento.

29
Mar

Eu e o vestido da Zara

por Gabi

Segunda feira é sempre um dia difícil. Cyntia me liga:

- Vamos na Zara comprar roupa pra minha viagem?
- Mas eu não posso! Não tenho dinheiro! Tô cansada! Nem vai dar!
- Só te trago chocolates da Suíça se você for comigo comprar roupa hoje.
- Me pega em casa.

Aí eu falei com o Julio no telefone:
- Vou na Zara com a Cyntia.
- Tem certeza?
- Tenho. Já sei o que vou fazer pra não gastar: vou deixar um dos cartões de crédito em casa!
- VOCÊ PENSOU EM LEVAR OS DOIS???
*silêncio constrangido*
- Desculpa. Me exaltei.
- Tudo bem. Agora entendi como você se sente quando eu falo de cigarro…

Cada um com seus vícios.

Cyntia me pegou e fomos pro Villa Lobos. Saímos do elevador direto pra Zara.

A Zara. Templo máximo do vestir feminino. Roupas lindas, modernas sem serem pretensiosas, com modelagens fantásticas e desenhos incríveis.

A Zara. Metros e metros de araras, cabides, expositores. Milhares de blusas, regatas, camisas, calças, terninhos, saias, boleros, trench coats e vestidos.

Cyntia precisava de um casaco e uma calça, mais algumas blusinhas pra usar por baixo de malhas. Eu não precisava de absolutamente nada, mas é humanamente impossível entrar naquele lugar e não provar algumas peças.

Uma blusa marrom bordada, linda. Uma regata verde com um drapeado na frente. Um bolerinho preto básico.

- Olha que vestido fofo, Gá.

Pendurado inocentemente em uma arara num canto da loja, um vestido verde escuro. Feito de um tecido com caimento pesado, saia com corte evasé, acinturado, decote em V e costas um pouco abertas.

- Ah, meio lambido, Cy…
- Experimenta, a cor vai ficar ótima em você.
- Só tem tamanho P, não vai servir nunca.
- Experimenta logo!
- Tá, tá…

Fui até o provador. Botei o vestido.
*Um holofote se acende. Música de fundo inicia*

Por Deus. O vestido parecia costurado no meu corpo. Meus ombros enormes pareciam delicados. Minha cintura, minúscula. Minha bunda… oras, minha bunda ficou linda!

A cor era um verde escuro que combinou exatamente com meus olhos. Meu pescoço parecia longo e delicado como o de Audrey Hepburn.

- Oh meu Deus.

Pasma, fiquei me olhando no espelho. E foi aí que eu vi refletida a etiqueta de preço, pendendo inocente da costura da manga.

- Caraleo!!!

Cyntia, enfiada dentro do provador, bota a cabeça pra fora:

- Que acontec… puta merda, que vestido lindo!
- E é tamanho P.
- Minha nossa…
- Custa quase quatrocentos reais.
- Mentira.
- Olha aqui!

Estendi o braço balançando a etiqueta ofensiva. Lágrimas afloraram aos meus olhos. Eu nunca mais queria tirar aquele vestido.

Cyntia provava roupas e mais roupas. E eu lá, com o vestido verde escuro.

Nove e meia da noite, Cyntia com uma pilha de roupas prontas pra passar pelo caixa, inclusive um trench coat maravilhoso e uma bermuda social que só pessoas que têm mais de um metro e setenta podem almejar usar sem ficarem ridículas.

E eu ainda com o vestido. Num momento de temeridade, perguntei à vendedora em quantas vezes ela poderia parcelar a compra. Em três vezes, no máximo. Eu cheguei a fazer cálculos mentais: “Se eu parar de gastar o telefone, e não comprar besteira no supermercado, e vender meus tickets alimentação e…”

Mas me lembrei da voz de Mariazinha, minha gerente do Itaú, que havia me ligado na semana anterior e suavemente informado o quão negativa minha conta estava.

Voltei ao provador, tirei o vestido e me despedi dele num momento horrível de separação. Ao me afastar lentamente, olhei para trás para um último adeus.

O desgraçado do vestido já estava nos braços de outra mulher.

Bah, vestidos. São todos iguais. Ainda bem que eu já estava tendo um caso secreto com uma regata verde, um bolero preto e uma blusa marrom.

27
Mar

De cachorros e cachorras

por Gabi

Eu ia escrever aqui uma descrição engraçadinha do meu fim de semana na praia. Tudo bem que teve momentos impagáveis, como certos recados deixados na minha caixa postal, mas ontem à noite vi umas coisas absurdas e resolvi fazer um texto feminista de protesto.

Assisti ao Pânico, na Rede TV, numa sala com 3 mulheres e 4 homens. Em alguns momentos, os rapazes do Pânico são divertidíssimos. A crítica política, com Lula, Enéas e Bob Jeff (falsos) tentando entregar um bolo de aniversário pro Zé Dirceu (verdadeiro); ou a crítica social, com um vídeo satirizando aquelas imagens que mostram assaltos no centro, filmados de cima, no qual um cara vestido de Bozo e usando máscara de bandido “sorrateiramente” dava voadoras em transeuntes inocentes para pegar bolsas obviamente vazias dos figurantes.

Quando eles optam pelo nonsense, pela comédia rasgada, são ótimos. O homem berinjela surpreende pelo absurdo da situação, o rapaz andando pela feira do Pacaembu, falando ao celular, com uma berinjela dentro da cueca. Os feirantes olham, dão risada. Velhinhas se assustam, uma moça quase cai no chão de tanto esticar o pescoço. Num outro momento, eles filmam pessoas saindo de uma sex shop – apagando o rosto delas da imagem – com suas sacolinhas pretas cheias de apetrechos: chicotinho, lingerie, vídeos. Não faz muito sentido, mas diverte e não ofende ninguém. Ou quase ninguém.

Na seqüência, entrou uma disputa: cachorros versus cachorras. Ou seja, Sabrina Sato mais duas moças, estas de biquíni, entrariam em uma competição contra alguns cães pitbull treinados. Os cães escalavam árvores, mergulhavam em piscinas e saltavam obstáculos. A proposta era que as moças deveriam fazer o mesmo.

Assisti durante vários minutos. Os rapazes presentes na sala davam risadas, contemplando aquela humilhação em rede nacional. As moças, colocadas no mesmo nível que os cães, mergulhavam de mãos amarradas para tentar pegar um peso no fundo de uma piscina, usando os dentes.

Por fim, Bola colocou uma lata de ração de cachorro num prato. Venceria a competição quem comesse mais daquela ração. As moças se colocaram de joelhos e uma câmara bem próxima do rosto delas mostrava a expressão de nojo enquanto elas comiam a ração. Uma delas chorava. Meus amigos, homens com faculdade, bem educados, de classe média alta, riam a valer.

Me levantei, muito brava. Saí da sala, informando que não iria assistir àquilo. Deixei-os à vontade para continuar a ver o programa, mas pedi que cada um deles imaginasse ali, de joelhos, suas mães, suas irmãs, suas namoradas. Uma das meninas se levantou comigo, muito irritada.

Fiquei muito chateada ao ver amigos meus se comprazendo com a humilhação das mulheres.

Um deles me respondeu que se elas estavam ali, ganhando dinheiro, era porque queriam.

Não era. Vivemos numa sociedade que obriga a mulher a fazer muitas coisas que não queremos. As duas moças ali certamente imaginavam que aparecer na televisão usando um biquíni mínimo poderia abrir muitas portas para elas. Talvez suas carreiras de modelos pudessem finalmente deslanchar. Ninguém avisou a elas que fazendo isso elas jamais poderão desfilar. Jamais emprestarão seus belos rostos e corpos para fotos de lojas de departamento, marcas de roupas, comerciais de margarina. Serão sempre lembradas como as moças que comeram ração de cachorro.

Voltei para São Paulo, pensando em como isso podia ser exibido na tevê. Em que mensagem este programa está passando aos milhares de adolescentes que o assistem. É isso que queremos, que nossos jovens cresçam achando engraçado duas moças se humilhando em público em troca de um cachê?

Não me sinto à vontade em saber que estas coisas vão ao ar. Me dá um aperto na garganta que isto seja considerado normal.

Lamento pelos rapazes do Pânico, que são muito engraçados em diversos momentos. Lamento mais pelas moças que se submeteram a este constrangimento. Mas lamento muito mais pelo telespectador, refém de uma televisão pobre, burra e vexatória.

24
Mar

Garçom, uma bruschetta!

por Gabi

Que roupa se usa pra ir a uma festa lésbica?

Essa era a questão que me martelava o cérebro em frente ao espelho. Botei uma blusa e achei muito decotada, botei uma camiseta e me senti a Cassia Eller, botei uma regata e me achei uma caminhoneira… no fim coloquei uma blusa neo-romântica toda fofa e pensei que tava bom.

Seguindo o conselho do Julio, não usei meu xampu afrodisíaco. Lavei o cabelo com um outro aí.

Peguei mamãe em casa e fomos pro Farol Madalena. Minha tia ficou super feliz em nos ver e saiu apresentando as amigas.

Como sempre, por lá, um mar de mulher. Mulher de todos os tamanhos, cores, modelos. Mulher sozinha, mulher acompanhada, mulher bêbada… Uma concentração de estrogênio gigantesca na Vila Madalena. Comecei a ter coceira.

Minha blusa foi um sucesso. Mulher, apesar de lésbica, continua sendo mulher.

- Mas que blusa linda!
- De onde é?
- Que cor ótima!
- Nossa, que peit..ops, que blusa linda, não?

Pedimos umas porções de bruschetta – fina ironia, esse nome – e ficamos conversando. Uma amiga da minha tia de eras atrás é apaixonada pela minha mãe desde que a conhece. Trata-se de uma respeitável senhora de seus 60 anos, de cabelos louros naturais, muito simpática, que parece uma professora que tive no pré. Minha mãe se levantou pra ir ao banheiro.

- Eu vou junto!
- Fazer o quê, Tutty?
- Ué, acompanhar sua mãe. Se eu não pego, ninguém pega!
- Isso. Cuida dela.

Oras, minha mãe é viúva e tá encalhada faz um tempo. E a Tutty é legal, ela podia ser meu padrasto. Mas mamãe nem deu bola.

Tive uma longa conversa com três mulheres. Falamos sobre nossos gatos de estimação. Aliás, 95% das mulheres que estavam lá têm vários gatos. Eu sempre tive uma terrível suspeita de que vou morrer velha e sozinha e meus 19 gatos vão comer meu cadáver. Depois de conversar com as moças ontem, percebi que basta combinar com suas amigas donas de gatos: se uma não responder o telefone por mais de dois dias, arrombe a porta antes que comece a feder. Achei ótimo.

Aí eu vi uma moça toda meiga sentadinha lá do outro lado da mesa, me olhando insistentemente.

- Ô, tia, até que aquele sua amiga é bonitinha…
- Você vai de mal a pior.
- Por quê? Ué, ela é bonitinha!
- Pois é. Mas é hetero, minha filha.
- Como assim, tia?
- É uma amiga do trabalho…
- Mas ela tá me olhando!
- É porque ela sabe que vocês também não são gays. Ô, Cris, vem cá conhecer minha sobrinha e minha irmã…

Meu gaydar falhava ali dentro. Também, com tanta mulher, era mesmo pra dar alguma distorção. Comi mais uma bruschetta. Aí começou a tocar um samba e eu comecei a sambar sentada.

Sambar sentada é uma técnica mística desenvolvida por todas as mulheres que gostam de dançar mas não podem por algum motivo, seja namorado ciumento, pai proibitivo ou o fato de estarem no meio de um bar lésbico. Mas a Zezé percebeu.

- Marília, vou dançar com sua sobrinha!

E me puxou. Aí eu saí mostrando o que que a a italiana tem. Sambei, depois dancei forró e até gafieira. Confesso que houve alguns momentos difíceis – afinal, quando duas mulheres estão dançando gafieira, quem conduz? – mas a Zezé era uma pé de valsa, assim como as 5 ou 8 amigas que apareceram depois.

Saí de lá quase meia noite.

Graças aos céus, a Isis não apareceu.

23
Mar

Timão a-la-laê

por Gabi

Bom, eu ia fazer um post bem completinho sobre o jogo de ontem.

Mas agora eu tô pensando em outra coisa e por isso vai só um resuminho básico:

Deixamos o carro longe e fomos andando. Hoje de manhã, percebi que não ia precisar fazer caminhadas, uma vez que minha bunda já estava doendo naturalmente.

Lelê e Mari conhecem vinte mil das trinta e duas mil pessoas que foram ao jogo de ontem. Os doze mil restantes são amigos dos amigos.

Sentamos entre um perneta e um grupo de traficantes recém foragidos de Presidente Bernardes. Isis adoraria o local, porque ali tinha pó pra caramba.

O perneta pulou bastante e quase sentou em cima do meu pé. Eu puxei o pé bem a tempo. Imagina só um perneta sentando em cima do meu pé.

Eu ainda não descobri exatamente que tipo de comida o Franz come. Não é carne, nem frango, nem peixe, nem ovo, nem queijo, nem leite, nem mel. Proteína de soja e arroz integral? Mas nem uma torta de chocolate?

Eu e Lelê vamos ter que ir a todos os jogos do Timão de calcinha vermelha. Funcionou a simpatia involuntária. Agora vamos ter que repetir, para alegria da galera que nos viu subindo os degraus do estádio.

Cuspiram fanta na gente. Ou não era fanta. Eu prefiro pensar que era fanta.

É isso.

Daqui a pouco vou pro aniversário gay da minha tia. Família é sempre uma beleza.

22
Mar

13 diálogos pertinentes

por Gabi

1.

- … porque o namorado da Cyntia é hiperativo…
- Ele não é meu namorado, Gabi.
- Tá, então o cara que a Cyntia sai direto, do qual ela não pára de falar, que acabou de ligar no celular dela e vocês ouviram o mimimi momomó, que apresentou ela pra mãe e leva ela pra viajar de casalzinho com os amigos, mas que não é o namorado dela, é hiperativo.
- Bom, quando você coloca desse jeito…

2.

- Se enrolar com homem casado é uma merda. Eles nunca deixam a mulher!
- Só o meu, né?
- Ah, Gabi… mas ele é burrinho…

3.

- Ai… ninguém trouxe uma frutinha pra sobremesa?
- Vamos parar com essa hipocrisia. Passa essa torta de chocolate pra cá que eu vou comer mais um pedaço.
- Lidere-nos, Gabi!

4.

- Eu tô nadando todo dia…
- Eu tô fazendo academia…
- Eu tô com uma personal trainer…
- E eu ando no parquinho na frente da MTV, tento correr, desmaio na barraquinha de coco e encontro o Paulinho Moska diariamente.
- Pô, Gabi, porque sempre você faz as coisas mais bizarras?
- É um dom divino.

5.

- Ok, quem não está sendo bem comida aqui e gostaria de fazer um protesto levante a mão!

6.

- Eu vou no estádio amanhã ver o Timão.
- Mas você fica lá, no meio da Gaviões?
- Claro.
- Nossa…. aquele monte de homem suado…
- É, o cheirinho não é dos melhores mesmo.
- Me leva?
- Sua pervertida!!
- Não. Mas eu fui uma das únicas levantando a mão agora há pouco!
- Putz.

7.

- Terminei tudo com o André. Ele me traiu com uma idiota.
- E eu descobri que meu ex-marido tinha outra.
- Eu descobri que o meu ex tem outro.
- Nossa. E eu preocupada com a bolsa de Tóquio…

8.

- O meu namorado é super fiel.
- Mas ele não é dono de agência de DJ e sai toda noite?
- É…
- Não vai em lugares da moda, cheios de mulher?
- Vai…
- E não atende o celular de vez em quando?
- Não…
- Pois é.
*pega o celular liga liga liga*
- Caixa postal.
- Pois é.
- Dá aqui o vinho e a torta.

9.

- Preciso ir no dentista.
- Vai no Xan!
- Cyntia, é em Ubatuba.
- Ah, mas Ubatuba é pertinho e…
*olhares sarcásticos das amigas*
- Tá, Ubatuba é longe pra caraleo. Eu é que tô apaixonada.
- óóóóóóóóuuuuuuuuu…. que fofo….
*corinho das amigas*

10.

- Gabi, vamos pra praia?
- Fazer o quê?
- Eu vou fazer sexo. Você pode tomar aquela caipirinha de tangerina deliciosa do barzinho.
- Putz.

11.

- Vamos ver a eliminação do Big Brother.
- Eu nunca vi. Gabi, faz um resumo.
- Bom, hoje vai sai ou o monge que não toma banho ou o cara que parece um besourinho. O alto ali tá pegando a morena magra e a morena gordinha vai ganhar só porque o povo tem pena.
- De tudo isso eu só ouvi que tem um cara que não toma banho.

12.

- Agora o Gustavo posa na G Magazine.
- Mas Gabi, ele é ex-padre!
- Querida, como a única católica dessa mesa, eu digo: isso é apenas uma tempero a mais.

13.
- Bom, gente, pra fazer essa salada eu usei meio abacaxi e uma cenoura ralada, mas daquelas grandes, sabem?
*Gabi mostra com as mãos o tamanho de uma cenoura bem grande*

*Amiga do outro lado da sala dá um berro*
- Mas por isso que você tá rindo a toa, hein!
- Pelamordedeus, Paula, isso é só uma cenoura!
- Compra um vibrador que é mais higiênico.
- Mas eu só tô falando de salada, sua louca!
- Afe… cada uma com a sua perversão, já dizia Freud…

21
Mar

Minhas amigas

por Gabi

Aí ontem, quase na hora de ir embora, cansada e estressada, sem café, a Cyntia me manda um e-mail: “Vamos jantar juntas”.

Tradução: vamos comer salada de grão de bico e fingir que gostamos.

Fui pra casa dela, comemos saladinha, comemos manga e abacaxi, assistimos séries da Warner estreladas por louras.

Falamos do caso secreto que eu não estou tendo, do relacionamento à distância dela, da mãe dela, da minha mãe, do meu cabelo, do nosso regime, do trabalho, de não ter dinheiro, de ex-maridos filhos da puta, de fazer exercícios, de amigos que vão morar longe, de coisas que fazem bem pra pele, de procurar apartamento, de ter quase 30 anos, de fazer coisas que te deixam feliz, de outras que te deixam triste, de não dormir, de pescar, de ir no cinema, de perder o fôlego, de segurar o ar.

E isso só nos intervalos das séries.

Aí eu fui pra casa e tava tocando no rádio uma música que me fez lembrar que coincidências não existem mesmo:

Groove Armada
My friend

Whenever I’m down
I call on you my friend
A helping hand you lend
In my time of need

Listen..

Whenever I’m down
And all that’s going on
Is really going on
Just one of those days
You say the right things
To keep me moving on
To keep me going strong

Whenever I’m down

Apesar dela não ler isso aqui, me senti obrigada a deixar registrado. Porque amigas mesmo eu tenho pouquíssimas, de contar nos dedos de uma mão. E se não fossem por elas, oh my god.

Sabe o que é gostoso delas? Elas não me perguntam como estou. Uma me dá salada, outra me leva no estádio, outra me faz rir que nem idiota com piadas muito retardadas. E eu falo, falo, falo… e elas falam, falam, falam… Não é uma conversa. São dois monólogos simultâneos e surpreendentemente coerentes e complementares, que servem para que ambas as partes tirem um peso danado de seus ombros.

Tá certo que a música aí em cima fala de momentos em que estou triste, mas não é só nessas horas que as amigas se apresentam. Elas surgem também quando eu estou feliz, e me deixam ainda mais feliz. Amiga é como se fosse um chocolate em forma de mulher.

Hoje à noite tem jantar de amigas na casa da Danni. Funciona assim: cada amiga pode levar uma amiga. Aí junta um bandinho de mulheres, todas conhecidas em maior ou menor grau. E a gente janta e fala besteira.

Também tem que levar um prato de doce ou salgado. Umas vão levar salada, tortas salgadas, sopa fria.

Eu, é claro, que sou a italiana que engorda a todas, vou levar uma torta de chocolate bem cheia de calorias.

Ah, e sempre tomamos vinho. Um perigo.

Mas antes vou passar na Renner: a calça vai ter que ser tamanho 40 mesmo.
(obrigada Senhor obrigada obrigada obrigada)

20
Mar

Só largo meu cartão de crédito depois de abrirem meus dedos mortos

por Gabi

E aí eu fui almoçar com a minha mãe ontem. No shopping West Plaza. Em dia de jogo no parque Antartica.

Assustada com o enorme número de palmeirenses que vagavam por lá, mamãe propõe:

- Vamos na Renner ver umas blusinhas…

Tradução: vamos comprar desbragadamente e estourar o limite do cartão Renner.

Fomos. Enchemos duas sacolas com milhares de peças de roupa. Para entrar no provador, você deve estar com no máximo 10 peças. Cada uma de nós teve que fazer três viagens. Mesmo.

Eu peguei os tamanhos que estava acostumada a comprar. Experimentei uma saia tamanho M. Ficou grande. “Corte largo”, pensei com meus botões. Na seqüência, experimentei uma calça 46. Enorme. Peguei a 44. Grande. Cheguei na 42. Serviu confortavelmente, sem ficar justa nem nada. Ia pegar a 40, mas achei que seria um desplante. A saia, tamanho P.

Só as blusas que continuam grandinhas. Os ombros delicados como os do King Kong não permitem diminuir muito o manequim, sabem?

Feliz com as compras em tamanhos menores, comemorei comendo um suflê de chocolate, com calda de chocolate e sorvete de creme, indecentemento gostoso.

Endorfinas, endorfinas.

*******************************
Enquanto isso, no sábado, fui ao Teta Jazz Bar. Logo na entrada, o pequeno físico lamenta:

- A música aqui é boa, mas tem uma coisa ruim…
- Qual?
- O cara ali na porta acha que eu me chamo Jersom. Com jota e eme.
- Acontece.

Depois, horas de Miles Davis, Coltrane e quetais. Uma banda fantástica, com um baterista impressionante. Eu sempre me impressiono com bateristas de jazz. Pura inveja.

O Teta é um lugar ótimo. O Penin tomou Mojitos, eu tomei caipirinhas de saquê e o Gerson tomou conhaque. Porque quem é físico não perde tempo com bebidinhas leves. Comemos pastéis e discutimos variados assuntos, como política, futebol e mulher. Porque eu sou praticamente um cara.

Eles comentaram que minha pele estava ótima. Neguei até o fim. Ou quase.

*********************************
Update: a máquina de café do trampo está quebrada.

Meu rendimento caiu 48%.

18
Mar

O monstro debaixo do tanque

por Gabi

E como eu nem quero ficar batendo aqui na mesma tecla, vou contar pra vocês uma história que aconteceu com a minha tia há muitos anos atrás.

Minha tia era uma jovem recém casada e morava na rua Frei Caneca, o que é uma grande coincidência, uma vez que hoje ela é uma senhora lésbica e frequenta o shopping Frei Caneca. Mas vamos à história.

Ela trabalhava na finada Fiorucci, loja de roupas da moda nos idos de 1985. Um dia, chegando do trabalho meio tarde, mas ainda assim antes do marido, foi lavar roupas na área de serviço. Foi quando ela percebeu um barulho estranho debaixo do tanque. Ao observar melhor, notou que de lá escorria uma estranha baba, um líquido pegajoso, transparente e gosmento.

Ela esticou o pescoço lentamente e viu o brilho de dois olhos que a encaravam fixamente. Um assobio altíssimo partiu do monstro, e minha tia saiu correndo e bateu a porta da área de serviço.

Trêmula, ligou para o zelador:

- Seu Antonio?
- Não, dona Marília. É o filho dele. Meu pai deu uma saída.
- Então sobe aqui por favor… preciso de ajuda pra matar um bicho.

Ela achou melhor não mencionar a baba e os assobios pra evitar pânico. O rapaz toca a campainha, entra, vai até a área de serviço, analisa a situação. Recua.

- Dona Marília, a senhora tem uma arma?
- Er… não.
- E um espeto? A senhora tem um espeto?
- Não.
- Então não posso fazer nada. Tô descendo. Se meu pai chegar eu peço pra ele subir.

Minha tia, desconsolada, assustada, apavorada, sentou-se no banquinho da cozinha com uma faca na mão até o marido chegar.

- Luís, tem um monstro debaixo do tanque!!

Ele foi até a área de serviço, cautelosamente, entender o que exatamente era um monstro. Voltou, foi até o quarto e retornou com uma caixa de sapatos na mão. Com um gesto rápido, capturou o terrível animal. Foi até a janela e abriu a tampa. Um morcego de mais ou menos 7 centímetros, desorientadíssimo, saiu voando meio torto.

Minha tia pôde enfim lavar roupa e seu marido se sentiu muito útil e heróico. O morcego conseguiu voltar para seu lar, casou-se e teve 5 lindos morceguinhos.

Eu adoro finais felizes.

**********************************

Descobri porque Isis e Carlos não puderam resistir ao meu charme. Até mesmo Luís, o gay, não pôde resistir ao meu convite para uma dança.

Meu shampoo é afrodisíaco.

Juro.

Ontem fui tomar banho, e ao ler o rótulo do shampoo, lá está, depois de dizer que o produto é ótimo, desenvolvido por especialistas e tal:

“Seu perfume exclusivo apresenta notas quentes e afrodisícas, como sândalo, jasmim e ylang ylang, que ganham um caráter brilhante e efusivo, deixando você sofisticadamente atraente.”

Apesar de não conseguir compreender exatamente o que é um cabelo efusivo, o efeito afrodisíaco confere.

17
Mar

Argh

por Gabi

Eu gosto de estar certa. Mas nem sempre. Por vezes, tudo que eu queria era estar errada. Mas já haviam me dito que eu era esperta demais pro meu próprio bem.

Por isso eu digo que odeio estar certa; e odeio ser forte o suficiente pra agüentar as coisas. Odeio ter estrutura. Queria ser bem fraca. Bem frágil; e sofrer até morrer de tuberculose, que nem mocinha romântica de novela das seis.

Ou queria ser louca, daquelas que quebram tudo e jogam as coisas pela janela. Que gritam e arrancam os cabelos. Que dão tapa na cara. Que vão tirar satisfação.

Queria ser bem cínica e esperar sempre o pior das pessoas. Queria ser pragmática e saber que às vezes as coisas acontecem exatamente da maneira que devem acontecer. Queria ser furiosa e perder o controle. Queria ser zen e saber que tudo passa. Queria ser poliana de verdade e achar que tudo vem para o bem. Queria saber onde colocar essa raiva toda.

Não queria ser inteligente e saber as coisas antes de saber de verdade. Não queria ser realista e saber que a vida é assim. Não queria me sentir estranhamente feliz agora. Não queria ir trabalhar daqui a umas poucas horas. Não queria estar no controle da minha vida e conseguir lidar com coisas que me afetam de maneiras que não podia imaginar. Não queria me sentir absolutamente livre. E surpreendentemente leve. Não queria achar alguem pra culpar.

Eu não sei do que sou capaz. Eu me assusto comigo às vezes. E noutras vezes olho no espelho e nem reconheço os olhos que me encaram de volta.

Hoje me pediram perdão. Como é que eu posso perdoar alguém? Cada um é guardião de sua própria consciência e eu não posso interferir nisso. O importante a respeito de karma é só isso: ele volta pra morder sua bunda.

Eu queria fazer um texto coerente. Mas são quase quatro horas da manhã e não vai ser possível.

Eu escrevi um e-mail também, que eu não vou mandar. O diabinho pousado no meu ombro mandou eu postar aqui. Mas eu sou uma moça fina e elegante e não farei isso.

Por enquanto.