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15
Jun

Por que eu chorei tanto essa semana?

por Gabi

Li o texto lindo da Luiza Pannunzio e comeci a chorar, de novo.

Comecei chorando na quinta, vendo a Choque na Paulista, na minha avenida. Lá onde passei criança indo pra casa do meu pai; depois adolescente indo ao cinema ou ao Objetivo encontrar amigos, mais tarde, onde trabalhei, fui a bares, passeei. A Choque na porta do Trianon. Chorei de raiva e de tristeza.

Chorei com o video do Meu Caro Amigo que a Ana mandou porque ele me lembra do meu pai e da infância.

Chorei de orgulho da minha mãe.

Chorei com o texto do Impedimento, um blog de futebol, que nem precisava falar do assunto.

Chorei de alegria vendo o número de cidades se levantando ao redor do Brasil.

Chorei de emoção vendo o Mobilizados, que em um dia ganhou corpo e virou fanpage pra divulgar idéias pacíficas pros protestos.

Chorei com o relato da Tatiana, que não conheço.

Chorei mais com quem eu conheço, com a Dre contando do que houve na porta da casa dela.

Chorei com o Pedro indo buscar a Fernanda na Paulista.

Chorei ao ouvir o que aconteceu hoje em Brasilia.

Quantas vezes  vou chorar até o fim desses protestos? Não sei. Quantas forem necessárias. Segunda feira eu vou pra rua. Talvez chore de novo, seja de raiva, de orgulho ou de gás lacrimogênio. Não importa.

Eu choro pela minha cidade e pelo meu país o quanto for preciso, desde que no fim a gente mude alguma coisa. Não os 20 centavos da tarifa. Porque agora não é sobre 20 centavos. Talvez nunca tenha sido. É sobre direitos. Sobre respeito. Sobre não ter mais que ler sobre latrocínio no bairro onde morei, nem sobre o custo dos estádios da Copa, sobre corrupção.

Postei no facebook e repito aqui:

 Existe amor em SP. Mas existe tanto amor, mas TANTO, que vai ter cada vez mais gente na rua exigindo respeito. Isso é amor. Amor pela minha cidade, pelo lugar onde nasci e escolhi morar, onde trabalho, onde tenho amigos e familia. Eu amo essa cidade e ela é minha. É nossa. Não sou conduzido, conduzo.

E é por isso que eu vou chorar quantas vezes forem necessárias. É choro de amor por esse lugar e de esperança por acreditar que as coisas podem mudar. Vamos pra rua.

(esse texto é pra todo mundo que tá na rua, tá em casa compartilhando notícia, tá colocando toalha branca na janela. Mas ele é mais pra Aninha, que sei que anda chorando tanto quanto eu, lá em Berlim, enquanto ajuda como pode, mandando as noticias, divulgando um monte de coisa legal. Tamo junto. <3 )

13
Jun

Eu, você, nós todos.

por Gabi

Hoje tem mais uma manifestação em São Paulo. A moçada vai se reunir na frente do Municipal e de lá subir até a Paulista. Vai ser em horário de pico, vai atrapalhar todo mundo de novo, ainda mais que hoje também tem greve dos trens da CPTM.

Mas não consigo deixar de pensar: será que agora é aquela mudança que a gente sonhava quando era jovem e bobinho? Quando eu era novinha fui pra rua pedir impeachment do presidente. Antes ainda, criancinha, meus pais me levaram nos ombros pro comicio das Diretas-Já, de roupinha amarela e tudo. E tivemos mudanças, e eu pensei que vivia num país legal onde a gente pode mudar coisas.

Será que agora vai?

No Rio os ônibus tiveram aumento de preço, mas como houve compensações, como reduçao no preço do ônibus com ar condicionado, ninguém se indignou. O que faz com que as pessoas estejam bravas? Não acho que essa moçada dos protestos esteja na rua por causa de 20 centavos, como a Ana bem explicou num post lindo. Eles estão ali porque o ônibus não passa, porque o metrô tá cheio, porque tem assalto e latrocínio no meio do dia, porque o posto de saúde não funciona. É tudo. É o transporte falido dessa cidade há anos, é o trânsito todo dia. É a lama.

Quando aconteceu aquela merda toda com o PCC na cidade em 2006 a gente não se levantou. A gente deixou que o medo paralisasse e nos prendesse em casa, reféns de notícias assustadoras. Acho que agora estamos levando um pouco mais ao pé da letra o lema da bandeira da cidade. NOM DUCOR, DUCO. É isso que está na bandeira de São Paulo. E acho que esse pessoal nas ruas está acreditando nisso e conduzindo a mudança.

A parte de quebrar coisas eu obviamente acho ruim. Ninguém deve achar bom queimar ônibus ou quebrar banca de jornal. Mas sabe o que é absurdo mesmo? É esse  vídeo do professor apanhando de quase uma dúzia de policiais.

Já estive do lado errado de um conflito com a polícia e sei o que é respirar bomba de efeito moral. Rasga a garganta, faz tossir, arde os olhos. Você entra em pânico na hora, quer correr, quer fugir, não consegue pensar, só quer respirar. E me digam: precisa de uma dúzia de homens armados com cassetetes pra prender um manifestante solitário? Mesmo se ele estivesse quebrando algo ou jogando pedras na polícia. Precisa espancar assim, desse jeito? Não era possível apenas prender esse cara, se ele estivesse fazendo algo de errado? E aí, ele é ativista ou é marginal? A Folha de São Paulo acha que é vândalo:

Na reportagem sobre a Turquia, a descriçao é de “ativistas”. Na de São Paulo, o título fala em “vandalismo”. É a mesma coisa, cara. É gente na rua brigando pra mudar alguma coisa. É um monte de gente protestando e meia dúzia de babacas que acham bacana queimar ônibus. Os maus são a minoria, por mais que essa minoria seja o que é mostrado no jornal.

Eu não sei se essas manifestações são o começo de algum tipo de Primavera Brasileira, se isso vai de fato mudar alguma coisa. Eu espero de coração que mude, mesmo. Eu quero viver num país onde as pessoas protestem de verdade quando não gostam de alguma coisa.

Sábado tem Ato contra o Estatuto do Nascituro, essa aberração em forma de projeto de lei. Eu vou. Eu quero protestar contra o que me incomoda, e incomoda muito. É na Praça da Sé, começa as 13 horas. Eu quero mudar e vou lá falar disso. Vou ajudar a engrossar o coro da mudança, falando de um assunto que me diz respeito.

Hoje é aniversário de uma amiga queridíssima e ela marcou uma festinha bem perto da Paulista, num horario proximo dessa manifestação. Eu trabalho longe e não sei se conseguirei ir. E estou puta com isso. Mas o EU nesse caso é bem menor que o TODOS. E hoje quem está na rua somos NÓS TODOS. Pra mim, hoje, paciência. Pra nós todos, hoje, mudança.

12
Jun

Das Pequenas Coisas Que Fazem A Vida

por Gabi

Li o texto do Antonio Prata que todo mundo compartilhou e PÁ, soco no estômago.

Porque a gente só pensa nas grandes ocasiões e esquece das pequenas coisas. A gente comemora dia dos namorados mas esquece de comemorar uma terça feira qualquer. As pequenas coisas – eu acho que deus existe nas pequenas coisas.  Não é o dia do casamento, foi o dia que seguramos as mãos pela primeira vez. Tem uma diferença aí, porque a coisa importante mesmo não é entrar de branco na igreja (não que eu tenha feito isso, aliás) mas sim a hora que você sabe.

Foi o café sentada na pracinha. A noite que a maré baixou e todo mundo ficou pulando nas pocinhas à beira do mar. O beijo roubado na janela. O cochilo na praia com o sol quentinho nas costas. O bolinho de arroz. A cerveja morna na mureta. O sono à tarde sem hora pra acordar. Descobrir um filme favorito em comum. Acordar com o barulho dos sinos. Dividir o banco do ônibus apertado. Abraçar e sentir um cheiro bom. Caldo verde servido numa noite fria, numa varanda gelada. Fazer um amigo. Ver o sol se pôr e deixar as nuvens rosadas durante uma decolagem que te apavora. Falar em voz alta sobre a decisão mais difícil da sua vida pela primeira vez. Sorrir de volta.Ver o mar da Bahia. Ver o termômetro da Paulista marcando -1C. Jantar no japonês sem motivo especial. Ouvir um elogio. Receber conselho de quem mal te conhece. Falar sobre moda masculina. Acordar olhando pro pé da outra pessoa. Ouvir uma música com assovio e sentir uma saudade enorme. Saber que presente dar logo de cara. Descobrir onde tem a comida especial e mandar um whatsapp avisando. Fazer parar de roncar com cotoveladas. Cozinhar junto como se fosse uma dança, sem tropeçar um no outro. Entrar no mar e levar caldo e comer areia e levantar rindo só pra tomar outra onda na orelha. Admirar loucamente a coragem do outro.

As pequenas coisas.

O jogo de futebol mais importante pode ser aquela final de campeonato onde seu time venceu, ou pode ser aquele gol inesquecível que você marcou descalço com uma bola velha enfiada entre as traves marcadas com duas havaianas, na rua da sua casa. Nada é mais ou menos importante só porque acontece num dia especifico.

 

Feliz dia dos namorados pra quem comemora gol no campinho e namora com a vida todo dia.

 

Update: fui conversando com algumas pessoas e lembrei mais histórias e fui colocando ali. Espero que vocês se lembrem. :)

11
Jun

VRÁ

por Gabi

A adolescência é uma fase estranhíssima da vida. A minha foi muito confusa e esquisita. O corpo mudou pra caramba: de repente eu tinha PEITOS e não eram pequenos, de repente meu cabelo ficou meio cacheado, eu comecei a ter tpm e mais um monte de mudanças esquisitézimas. Até minha voz mudou, mesmo sendo menina.

A única coisa que nunca tive foram espinhas. Nunca. Sempre tive uma pele boa, lisinha. E mesmo sabendo que isso me causaria um futuro de rugas precoces (que comecei a combater com cremes há anos) eu sempre dei graças aos céus por não ter espinhas.

Amigos meus passaram anos sendo chamados de Chokito, de Ralador, sofriam com as piadas – pra não mencionar a dor, o incômodo, a coceira. Disso me livrei.

Aí depois dos 30 um belo dia eu acordo e VRÁ: tem um krakatoa na minha cara. Bem no queixo, bem no meio da fuça. Indisfarçável, enorme, dolorosa. Do tamanho do universo.

Aí eu lembro que nessa semana passarei o dia dos namorados solteira pela primeira vez depois de sei lá quantos anos.

E vocês querem que eu seja uma pessoa otimista. Não tá fácil pra ninguém essa vida.

05
Jun

Os Japoneses, O Engraxate Medroso e o Spa

por Gabi

Agora mesmo saí aqui da agência pra ir até a vendinha comprar coca zero e chocolate. O dia estava longo e eu precisava da energia extra.

Na praça aqui em frente, dois japoneses olhavam pro celular sem entender muito bem. Olhavam pra praça, pra placa, pro moço engraxate. Um deles fez contato visual comigo e soltou um “excuse me” com um sotaque horroroso. O outro só fez cara de perdido. Parei. O primeiro me pergunta:

- Do you know where Olympia Spa is?

Eu não fazia a mais puta ideia de onde fosse o tal Olympia Spa, mas achei que podia ajudar. Saquei o celular pra procurar no google, só que o sinal na região da Berrini também não ajudava. Enquanto eu tentava explicar como pode o 3G não funcionar num dos centros comerciais do país e me atrapalhava um pouco na justificativa, o outro japonês resolveu perguntar pro engraxate da praça onde ficava o Olympia Spa. Assim, em inglês-japonês e sem saber nada de português. Foi algo assim: “HAI. NEED ORIMPIASPA”.

O engraxate arregalou os olhos pro japonês e olhou pra mim de canto de olho. Ao me ver, entrou em pânico: Há uns dias passei por lá de saia, ele falou uma gracinha e eu rodei a baiana, perguntando o que ele queria, muito brava, e mandando ele parar de falar assim comigo e com qualquer uma que passasse por ali. A minha bronca foi tamanha que ao me reconhecer ele preferiu tentar se entender com o japonês, que alheio ao drama que se desenrolava continuava gesticulando, sorrindo e falando sobre o ORIMPIASPA. O engraxate dava seu melhor pra não olhar pra mim enquanto pensava numa maneira de se esconder atrás da cadeira.

Eu e o primeiro japonês conseguimos abrir o site e pegamos o telefone. Eu disse que ligaria lá, ele agradeceu e balançou a cabeça, falando que eu já tinha ajudado muito, e que não precisava, ele mesmo poderia ligar. Não deixei: imaginei o rapaz por telefone tentando perguntar sobre o endereço do ORIMPIASPA. Disquei e descobri que o tal lugar ficava dentro do antigo Blue Tree, ali bem perto da praça mesmo. Expliquei a eles como chegar, eles anotaram o endereço no celular, agradeceram efusivamente com arigatôs e se curvando de leve. O que não falava inglês apertou minha mão e sorriu muito. Eu sorri de volta. Eles atravessaram a praça. Eu fui até a vendinha e comprei coca zero e um monte de chocolate Batom, voltei pra firma e dei um pra cada um aqui na área. O sol se pôs, esfriou um pouquinho.

Mais um dia normal na Berrini. E foi um bom dia.

05
Jun

Meu cabelo e o Rio

por Gabi

Meu cabelo não gosta do Rio de Janeiro. Ele fica armado, errado, cheio de frizz. É fato: meu cabelo detesta a Baía de Guanabara.

É uma sorte.

Porque o resto de mim gosta demais de lá. Fui algumas vezes pro Rio e cada vez que vou me vejo gostando mais. Os prédios sem recuo, debruçando sobre a calçada. As velhinhas em Copacabana. O mar do Leblon. O bolinho de feijoada. O baile na quadra. Os amigos. A cidade, tão bonita. A sensação de sair de chinelo e cara lavada e achar tudo muito normal. Gente batendo boca com o garçom porque ele demorou pra levar a cerveja. Pessoas de casaco com 23 graus lá fora. Mate de latão. O sotaque arrastado, anasalado. Os paulistas que a gente nota de longe. As mineiras de brinco dourado. O Maracanã. As ruas sem sentido algum. O pier. O centro. A Lapa. O vento fresco de Maio, o calor de Janeiro. As curvas na Lagoa.

Não me entendam mal: eu amo São Paulo. Não me vejo morando em nenhum outro lugar. São Paulo é minha esposa, casada na igreja, de véu, grinalda, buquê e tudo mais. Mas o Rio é um amor antigo, aqueles que cada vez que você encontra pensa como pode ficar mais bonita com o tempo, como pode cada vez ficar melhor.

Tenho medo de deixar cada vez um pedacinho do meu coração por lá e um dia perceber que tem mais lá do que em outro lugar. Porque aí eu vou estar apaixonada, e não vai haver casamento nem véu que me segure aqui. Vou abrir a barraca de sucos, vou andar de chinelo de dedo, vou usar vestidinho o ano inteiro.  Aí eu vou. E fico e viro velhinha de Copacabana.

Só preciso encontrar um produto que deixe meu cabelo bom por lá. Só isso.

 

23
May

A Farsa De Uma Mulher Só

por Gabi

Pimenta no cu dos outros é refresco, já dizia minha avó. Com todo respeito à boca-suja da velhota, ouso dizer que muitas vezes é o contrário: é mais fácil ver o sofrimento alheio do que o seu próprio.

Por exemplo: quando minha amiga trabalha 14 horas por dia e fica sem vida e sem vontade de sair de casa no resto do tempo, enxergo isso e dou bons conselhos e ajudo a achar outro emprego. Quando é comigo, só trabalho mais um pouco, só mais um pouquinho, só mais esse job, essa entrega.

Se meu amigo começa a namorar uma mulher muito errada, alguém que não faz bem pra ele, ajudo, aconselho, ofereço um pote de sorvete quando eles terminam, digo que ele vai conhecer alguém bacana, apresento pras amigas solteiras.

Mas quando é comigo? Ah, sou cega-surda-muda. Incapaz de olhar pro meu próprio umbigo e de dar a mim mesma os conselhos que dou a todo mundo.

Eu sou uma farsa, amigos.

Vocês me vêem dizendo que sou forte, segura, incrível, inteligente, super fodona – e engano tão bem que vocês acham que eu sou isso, e me dizem isso sempre. Não sou. Eu sofro, choro, me escondo. Eu me enfio debaixo do edredon e espero amanhecer contando os minutos. Eu olho no espelho e acho que não tá bom, que meu cabelo não tá legal, que a roupa ficou péssima. Eu me acho chata, burra, incapaz de parar com comportamentos nocivos, com coisas que não me fazem bem. Eu penso mil vezes em coisas que não posso mudar, imagino cenários que não vão acontecer. Eu faço o que todo mundo faz quando está escuro lá fora: eu duvido de mim de um jeito que nem dá pra explicar.

Só que os anos me trouxeram uma certeza: que sozinha é pior. Aí eu chamo os amigos, e peço ajuda. Eu conto as coisas dificeis e as coisas tristes e as minhas dúvidas e fraquezas. E me ajudam a ser forte de verdade, ou pelo menos a fingir tão bem que eu mesma acredito, e isso é o suficiente.

Por isso agradeço muito a quem me segura a mão, me dá conselhos, me dá bronca, pescotapa, soco no braço. Gente que me manda email, whatsapp, chat, sms, me liga. Sessão de terapia por chat, email de desabafo, telefonema antes de dormir, Quando o dia não é bom ou quando a noite é comprida, é com essas pessoas que eu conto. Obrigada. Vocês fazem de mim uma pessoa mais normal.

(e vocês sabem quem são)

22
May

Cientista de Rede Social

por Gabi

Hoje fiz um experimento muito científico. Resolvi ser analista de midia social. Da minha midia social.

Acessei o facebook, entrei naquele esqueminha que mostra a timeline como os outros a vêem e avaliei. Na versão pública, aparecem livros que li, filmes que gostei, minhas nerdices simples. E updates que fiz sobre a novela, comentários bobos e engraçadinhos. Muitas músicas que fui postando ao longo do dia, conforme ia ouvindo. Um link de um projeto maneiro no tumblr, outro link com uma noticia fofa sobre crianças. Divulgação da Marcha das Vadias e pedido de ajuda pra ONG.  Uma foto de uma lontra comendo saladinha.

Nada disso é sobre mim, eu acho. Quer dizer, tudo isso é sobre mim, mas de uma maneira mais genérica do que real. Quem eu sou mesmo, o que penso, como me sinto, o que eu faço de verdade, isso tudo não aparece na rede.

No facebook e no twitter aparecem as bobagens que falo, no foursquare as espeluncas que frequento, no linkedin o trabalho que fiz. Nada disso é A Verdade. São pedaços da minha verdade, o que eu escolho pra falar e que quero que todos saibam. Eu não quero que saibam do dia que acordei triste, ou de quando chorei por causa de um comercial de TV. Não conto ali sobre a insônia que vem muitas vezes e sobre como eu olho pro teto e penso se vou dormir de novo ou só esperar o dia clarear. Não conto do dia que desci no elevador com a vizinha e ela disse que emagreci e nem do moço bonito que me mandou um beijo na rua. Não falo dos medos, da insegurança, nem falo das alegrias pequenas e pessoais. Não postei sobre mais coisas do que já postei, por assim dizer.

 

 

A rede social faz com que a gente tenha a sensação de que sabe de tudo. Tamos aí vagando pelos perfis alheios julgando, balançando a cabeça e fazendo cara de sabedoria, como se ali tivéssemos as respostas todas. Que bobos somos. Nós sabemos nada.

16
May

Ladeira Abaixo

por Gabi

A gente está lá com nossas bonequinhas e nossos jogos de amarelinha e os carrinhos deles e a bola de futebol, e um dia a gente olha pro lado e vê que tem um menino e que ele tem covinha e que a gente de repente gosta dele, e eles um dia olham pra gente e vêem que a gente tem um sorriso bonito e de repente gostam da gente, e aí depois disso, meu amigo, estamos todos perdidos, depois disso e dali pra frente é só ladeira abaixo.

 

Eu tinha 12 anos e amava loucamente o Rodrigo Paes, que tinha nome e sobrenome porque tinha mais uns 5 rodrigos na minha classe. Se eu não casasse com ele eu ia morrer, morrer dura preta e seca no salão de festas no aniversário mesmo. E ele não me dava pelota, o sacaninha. Ai, como eu sofri por causa do Rodrigo. Troquei bilhetes com a melhor amiga contando tudo, e dizendo mas ele é tão lindo, porque ele não gosta de mim, o que eu faço de errado?, porque claro que era eu que tava errada, claro que faltava alguma coisa em mim, porque ele era lindo e inteligente e jogava futebol e ele era demais mesmo de maneira geral.

Ele era esse cara. Sempre tem esse cara, a gente sabe, assim como tem aquela garota, e essas pessoas são sempre muito lindas e têm sorrisos lindos e cheiram bem.  E geralmente esse cara e aquela garota não dão pelota pra gente, os sacaninhas. Eles estão ocupados sendo incríveis, e a gente está ocupado pensando se não está com uma pizza de suor no sovaco ou com um teco de salsinha preso no dente ou se a saia prendeu na meia calça, porque a gente é esse tipo de pessoa que fica com a saia presa na meia calça e anda pela rua com a bunda de fora até alguém dar um toque.

A gente não é incrível – pelo menos não mais do que todos nós seres humanos somos incríveis máquinas de carne em movimento, cheios de potencial e de alma e de groove no coração – e por isso, amigos, a gente se preocupa mais com a pizza de cecê do que com o sorriso branco que a gente não tem.

Era de se esperar que essa sensação de inadequação melhorasse ao longo da vida, mas olha só um segredinho nosso: melhora não. A gente ainda olha esse cara e aquela garota e acha que vai morrer se não casar com eles, morrer dura preta e seca no meio da rua. Só que a gente não morre, e além de não morrer ainda lembra que tem que pagar o condomínio, o IPVA e o presente do seu chefe, e aí ao invés de suspirar e soluçar a gente acaba indo trabalhar mesmo, normal, e aí entrega mais um job e preenche outra planilha e enche a cara de café, e no fim do dia até se pergunta porque mesmo ele não te chamou pra jantar hoje ou porque é que ela não respondeu sua mensagem espertinha com uma piadinha bem sacada e levemente sapeca. Só que até aí a gente já tá no trânsito e já marcou de ir comer com um amigo legal pra cacete, e aí a gente vai e conta tudo sobre esse cara pra ele, e ele dá conselhos e diz que vai dar tudo certo, porque é pra isso que amigo tá aí, seja via bilhetinho na aula da tia Neide ou ao vivo enquanto ele dá mole pro garçom.

A gente cresce mas nada muda, porque olha, depois que a gente vê que esse cara tem covinhas, é só ladeira abaixo, carrinho de rolimã sem freio, e é tudo culpa deles.

Desses sacaninhas.

 

14
May

Na estrada

por Gabi

Quando vi Drive pela primeira vez eu sabia que iria gostar. Não só porque é com o Ryan Gosling, que é lindo até lendo bula de remédio, mas porque a história envolvia dirigir. Os créditos iniciais dão um pouco do tom da história: ele dirigindo pela cidade, a noite, as luzes, a música. É essa aqui:

Gosto muito de dirigir. Gosto da sensação de ir pra frente movida por um motor invisível, de pisar num pedal e pronto, me mover sem esforço. Não gosto de correr, não me entendam mal. As poucas multas que levei por excesso de velocidade são a bobeira de passar a 70 na Sumaré, onde o limite é 60. Eu gosto de dirigir. De simplesmente ir. E claro que morando em São Paulo não é todo dia que tenho essa sensação. O trânsito é outra coisa. É stress, é cansaço. Dirigir é estrada aberta na frente, marginal sem carros, avenida sem motoboys zunindo no retrovisor.

Quando posso, dirijo. Por isso que não me incomodo nada de dar carona pros amigos até o aeroporto ou de pegar estrada e dirigir por horas. Sinceramente, é terapêutico. A mente se esvazia de muitas coisas e a atenção focada no caminho e na operação mecânica da direção permite que minha cabeça se aquiete e se acalme.

E penso em outras coisas e tomo grandes decisões. Como numa sessão de terapia, falo sozinha às vezes, noutras crio diálogos na minha cabeça, com outras pessoas ou comigo mesma. Eu pergunto e respondo – e nem sempre gosto do que me digo. Já disse que sou minha maior crítica e comigo sou uma crítica cruel.

Só que às vezes é exatamente o que preciso: uma horinha de volante, uma volta pelas marginais, uma conversa comigo mesma. O bom é que quando a amiga entrou no carro pra ser trazida de volta eu já tinha estruturadinha minha linha de pensamento. Já tinha tido uma grande conversa comigo e pude falar pra ela o que estava pensando, e soar perfeitamente tranquila e consciente. Ela concordou muito com as coisas que disse e me achou uma pessoa razoável, acho.

Se é verdade não sei. Talvez precise de mais 5 voltas ao redor da cidade pra ter certeza. Mas até lá, sei por onde começar. A estrada me leva pra qualquer lugar – mas quem decide como chegar lá sou eu.