Essa semana estive correndo muito no trabalho. Entre milhares de coisas, preciso contratar urgente duas pessoas. De cabeça cheia, meio maluca, soltei no Twitter que estou procurando um profissional de social media. Na correria, não dei detalhes. Os amigos retwittaram, os amigos dos amigos também, e muita gente soube da vaga. No meio do caminho, o Marmota me fez uma pergunta legítima, e eu, de mau humor, fui grosseira na resposta. Pedi desculpas, e elas foram aceitas na forma de um post excelente, onde ele conta um pedaço da sua experiência em redes sociais.
Essa discussão toda me deixou pensando um pouco na minha profssão e no que eu faço pra viver. Eu trabalho com mídia social. Dizer apenas isso seria vago. Midia social não é medicina, por exemplo. Quando alguém diz “sou um médico”, entendemos que é um profissional que trata e/ou previne doenças. Todo mundo entende. Um publicitário é um cara que vende produtos. Um professor ensina. E a tal mídia social, onde está? O que diabos nós fazemos?
Bom, no fundo a gente vende coisas. Não como um publicitário, mas através de pessoas. A gente monitora foruns e blogs pra ver se esta ou aquela marca é a favorita. Entramos nas conversações pra entender o que está sendo dito e de que maneira é melhor que a empresa converse com os usuários. Somos aqueles que ao invés de entrar no seu perfil do orkut e deixar um recado spammer dizendo “Limpe seu nome! Gatas nuas na cam! Festa do Farol!”, nos preocupamos em saber que sua banda preferida é tal - e te avisamos que o novo álbum dela já saiu.
Por conta disso, ficamos horas no orkut, no facebook, no twitter: essas são nossas ferramentas de trabalho. Também fazemos ações com formadores de opinião. Blogueiros, donos de foruns e comunidades. O grande desafio é fazer essas pessoas falarem da marca ou produto que queremos. Pra isso, tentamos sempre fazer com eles ações interessantes: levar fãs de música na passagem de som de um show muito legal; colocar blogueiros de moda pra assistir um desfile exclusivo; mandar uma nova campanha pros caras que falam de publicidade antes mesmo que ela vá pro ar.
Por conta dessas características, muitas pessoas acham que somos um bando de folgados, que vivemos o dia inteiro no orkut brincando, ou que fazemos festinhas pros nossos amigos. Não é verdade. As tais festinhas e bocas-livres não são pra dar de comer e beber aos amigos. São pra mostrar um produto, proporcionar uma experiência, causar impacto. Quem diz que estamos “comprando” alguém ao fazer isso nao sabe do que está falando.
Aliás, se o blogueiro se vender em troca de um prato de coxinhas e 3 copos de chope, eu nem quero a opinião dele. Quero opiniões sinceras, porque é assim que a gente vai conquistar os leitores desse cara. Não adianta achar que o Morróida, por exemplo, vai fazer um post bem bonitinho dizendo que a festa da bebida tal foi deliciosa. Ele vai falar que encheu a cara, vai contar da garota que ele pegou, vai fazer uma piada besta e colocar alguns palavrões no post. E se ele passar mal de ressaca, vai meter o pau na tal bebida. Ou achar que o pessoal do Meio Bit vai falar bem do celular que eu mandei pro teste se o dito-cujo não for bom. Se o celular for ruim, eu sei que eles vão falar mal. Por isso que a opinião deles é tão importante, aliás. Porque é assim que eles conquistaram o crédito junto a seus leitores. É assim que eles formam opiniões, e não simplesmente dizendo “a Gabi é muito legal e me levou numa festinha!
Mas ainda assim, muita gente não nos respeita. Entendo que como em todas as profissões, tenho colegas de ramo que não são corretos. Assim como há médicos malintencionados, professores burros, escritores obtusos e porteiros sem-vergonha, há profissionais de mídia social incompetentes. Pode ter gente fraudando resultados, ou se preocupando mais em chamar os amigos pra balada do que em chamar quem realmente combina com o produto. Eu não sou assim, e conheço muita gente que não é assim. Então me ofende quando começam as gracinhas, piadas e comentários negativos a respeito da minha profissão. Não estou falando de humor: o SurfHype me faz rir. Mas é como se você chegasse pra classe dos dentistas e dissesse: “vocês não manjam nada de dentes e só são dentistas pra fazer receitas de medicamentos controlados!” ou algo assim. Não é humor. É ofensivo e me incomoda demais.
Só peço respeito pra mim e pros meus colegas. Não precisa gostar de mim nem necessariamente aprovar o que fazemos. Mas respeite nossa profissão. É assim que eu ganho meu salário, honestamente, trabalhando todos os dias. É com esse trabalho que compro ração pros meus gatos. Meu trabalho não prejudica, machuca ou ofende as pessoas. É só um trabalho.
E por isso que na hora do nervoso eu ofendi uma pessoa que não merecia: o Marmota, pego no fogo cruzado entre meu stress e o bando de infelizes que não entendem patavina sobre o mercado de mídia social. Desculpa de novo, André. Agora, em forma de post.
(agradeço também ao Chico Barney que me deu a idéia dos dentistas safardanas)