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16
May

Ladeira Abaixo

por Gabi

A gente está lá com nossas bonequinhas e nossos jogos de amarelinha e os carrinhos deles e a bola de futebol, e um dia a gente olha pro lado e vê que tem um menino e que ele tem covinha e que a gente de repente gosta dele, e eles um dia olham pra gente e vêem que a gente tem um sorriso bonito e de repente gostam da gente, e aí depois disso, meu amigo, estamos todos perdidos, depois disso e dali pra frente é só ladeira abaixo.

 

Eu tinha 12 anos e amava loucamente o Rodrigo Paes, que tinha nome e sobrenome porque tinha mais uns 5 rodrigos na minha classe. Se eu não casasse com ele eu ia morrer, morrer dura preta e seca no salão de festas no aniversário mesmo. E ele não me dava pelota, o sacaninha. Ai, como eu sofri por causa do Rodrigo. Troquei bilhetes com a melhor amiga contando tudo, e dizendo mas ele é tão lindo, porque ele não gosta de mim, o que eu faço de errado?, porque claro que era eu que tava errada, claro que faltava alguma coisa em mim, porque ele era lindo e inteligente e jogava futebol e ele era demais mesmo de maneira geral.

Ele era esse cara. Sempre tem esse cara, a gente sabe, assim como tem aquela garota, e essas pessoas são sempre muito lindas e têm sorrisos lindos e cheiram bem.  E geralmente esse cara e aquela garota não dão pelota pra gente, os sacaninhas. Eles estão ocupados sendo incríveis, e a gente está ocupado pensando se não está com uma pizza de suor no sovaco ou com um teco de salsinha preso no dente ou se a saia prendeu na meia calça, porque a gente é esse tipo de pessoa que fica com a saia presa na meia calça e anda pela rua com a bunda de fora até alguém dar um toque.

A gente não é incrível – pelo menos não mais do que todos nós seres humanos somos incríveis máquinas de carne em movimento, cheios de potencial e de alma e de groove no coração – e por isso, amigos, a gente se preocupa mais com a pizza de cecê do que com o sorriso branco que a gente não tem.

Era de se esperar que essa sensação de inadequação melhorasse ao longo da vida, mas olha só um segredinho nosso: melhora não. A gente ainda olha esse cara e aquela garota e acha que vai morrer se não casar com eles, morrer dura preta e seca no meio da rua. Só que a gente não morre, e além de não morrer ainda lembra que tem que pagar o condomínio, o IPVA e o presente do seu chefe, e aí ao invés de suspirar e soluçar a gente acaba indo trabalhar mesmo, normal, e aí entrega mais um job e preenche outra planilha e enche a cara de café, e no fim do dia até se pergunta porque mesmo ele não te chamou pra jantar hoje ou porque é que ela não respondeu sua mensagem espertinha com uma piadinha bem sacada e levemente sapeca. Só que até aí a gente já tá no trânsito e já marcou de ir comer com um amigo legal pra cacete, e aí a gente vai e conta tudo sobre esse cara pra ele, e ele dá conselhos e diz que vai dar tudo certo, porque é pra isso que amigo tá aí, seja via bilhetinho na aula da tia Neide ou ao vivo enquanto ele dá mole pro garçom.

A gente cresce mas nada muda, porque olha, depois que a gente vê que esse cara tem covinhas, é só ladeira abaixo, carrinho de rolimã sem freio, e é tudo culpa deles.

Desses sacaninhas.

 

14
May

Na estrada

por Gabi

Quando vi Drive pela primeira vez eu sabia que iria gostar. Não só porque é com o Ryan Gosling, que é lindo até lendo bula de remédio, mas porque a história envolvia dirigir. Os créditos iniciais dão um pouco do tom da história: ele dirigindo pela cidade, a noite, as luzes, a música. É essa aqui:

Gosto muito de dirigir. Gosto da sensação de ir pra frente movida por um motor invisível, de pisar num pedal e pronto, me mover sem esforço. Não gosto de correr, não me entendam mal. As poucas multas que levei por excesso de velocidade são a bobeira de passar a 70 na Sumaré, onde o limite é 60. Eu gosto de dirigir. De simplesmente ir. E claro que morando em São Paulo não é todo dia que tenho essa sensação. O trânsito é outra coisa. É stress, é cansaço. Dirigir é estrada aberta na frente, marginal sem carros, avenida sem motoboys zunindo no retrovisor.

Quando posso, dirijo. Por isso que não me incomodo nada de dar carona pros amigos até o aeroporto ou de pegar estrada e dirigir por horas. Sinceramente, é terapêutico. A mente se esvazia de muitas coisas e a atenção focada no caminho e na operação mecânica da direção permite que minha cabeça se aquiete e se acalme.

E penso em outras coisas e tomo grandes decisões. Como numa sessão de terapia, falo sozinha às vezes, noutras crio diálogos na minha cabeça, com outras pessoas ou comigo mesma. Eu pergunto e respondo – e nem sempre gosto do que me digo. Já disse que sou minha maior crítica e comigo sou uma crítica cruel.

Só que às vezes é exatamente o que preciso: uma horinha de volante, uma volta pelas marginais, uma conversa comigo mesma. O bom é que quando a amiga entrou no carro pra ser trazida de volta eu já tinha estruturadinha minha linha de pensamento. Já tinha tido uma grande conversa comigo e pude falar pra ela o que estava pensando, e soar perfeitamente tranquila e consciente. Ela concordou muito com as coisas que disse e me achou uma pessoa razoável, acho.

Se é verdade não sei. Talvez precise de mais 5 voltas ao redor da cidade pra ter certeza. Mas até lá, sei por onde começar. A estrada me leva pra qualquer lugar – mas quem decide como chegar lá sou eu.

 

13
May

Random Access Memories: Vazou o novo do Daft Punk

por Gabi

Mais uma vez obtive acesso a um novo álbum de maneira absolutamente legalizada (obrigada Gus, Ivan e Raphael): Trata-se do novo do Daft Punk, Random Access Memories, uma belezinha que eu estava ansiosamente esperando desde que eles soltaram um trechinho de Get Lucky um tempinho atrás.

Ouvi e analisei faixa a faixa conforme ia ouvindo e divido com vocês a minha opinião. A classificação é em capacetes brilhantes e/ou blazers de paetês, começando em zero e sem limites, por motivo de:

Além do link que eu espertamente escondi no paragrafo acima, aqui tem uma playlist no Grooveshark pra você ouvir sem medo de ser preso por pirataria. Vamos ouvir juntos, amiguinhos?

Give Life Back To Music: maravilhoso desempenho vocal do robô. Uma música que meus pais ouviriam numa house party descoladinha em 78, bebendo uisque com guaraná brahma, com bigode, lapelas largas e cabelo volumoso. Bacaninha. Nota 3 de 5 capacetes brilhantes.

The Game Of Love: leve a gatinha pra sua casa, abra um vinho Sinuelo e coloque essa pra tocar, garantia de ela liberar o material. Envolvente, sedutora e meio clichê, mas melhor que colocar Smooth Operator pra impressioná-la.  Vou de ranger prata e dou 1 capacete brilhante e  4 blazers de paetê.

Giorgio By Moroder: tive que googlar pra ver quem era o maluco falando mas achei do caralho a explicação de como eles fizeram a disco music acontecer, com os sintetizadores, o Moog e tal. Depois vira uma música maneira pra dirigir por uma estrada escura iluminada apenas pelos seus faróis, com a neblina baixinha na frente e tal. 5 capacetinhos brilhantes e uma luvinha de couro pra dirigir pelo sotaque italiano incrivel do cara e pelo climão da musica em geral.

Within: começa com um pianinho acústico, um clima de bar vazio de hotel meio decadente. Depois dá uma piorada. 2 capacetes brilhantes e não se fala mais nisso.

Instant Crush: carai, que pianinho daora. Quero aprender a letra pra cantar junto. Tô balançandinho a bunda desde o começo. Nada que me faça querer sair correndo e dançando, mas decente. 4 capacetinhos e um blazer de paetês. <3

Lose Yourself To Dance: É DISSO QUE TÔ FALANDO.  Música boa pra cacete, pra sair dançando pelado e/ou fazendo uma coreografia incrível pelas ruas da cidade. Palminhas! Refrão INCRÍVEL! Mais palminhas! Puta merda! Alguem me faça parar de dançar! Porra!! 5 capacetes, 2 ternos de paetê e botas com glitter, certeza.

Touch: pra conseguir respirar depois da música anterior, ok, entendo.  Comprida demais, mas vai ficar daorinha com um remix legal que reduza a introdução. Vocal maravilhosamente brega, uma coisa meio Richard Cheese. Metais, sintetizador breguinha. Boa pra passar vergonha em casamento. 3 capacetes.

Get Lucky: não sei mais o que falar dessa música, exceto que cada vez que eu ouço sinto um desejo louco de sair dançando onde quer que eu esteja, usando blazer de paetê, hot pants, meia calça brilhante e um sapato altissimo coberto de glitter. E capacete. E batom vermelho. E foda-se se você acha que não dá pra ver o batom por baixo do capacete. Não sei que nota dar pra isso. Meu primogênito? Um braço? Sei lá. Música do ano. Calem a boca e me deixem ouvir de novo.

Beyond: Hum. Depois de Get Lucky nada soa muito bom, mas essa abertura à la filme da Metro é classuda. Depois vem o robô cantando de maneira articulada e com muita calma, acho que pra gente poder voltar à realidade aos poucos. A letra é boa também, fala de uma “land of love” e uma parte “beyond love, common life” que é bacana. Boa. 4 capacetes pra ela enquanto tomo uma coca zero.

Motherboard: Sei lá o que é essa flautinha peruana no começo, cara. Não dá pra ser genial o tempo todo.  Vibe world music, juro que tem chuva na música. Imagino a galera bemloca no show pirando nessa música, de olhinhos fechados e pans. Sei lá, só bebo coca zero então fico devendo. 1 capacetinho e 1 engov pra vocês não dizerem que sou ruim.

Fragments of Time: Já comecei fazendo uma dancinha e tentando dar aquela disfarçada na firma pra não estranharem. Delícia. Vai tocar muito no carro, certeza. Já me vejo cantando e fazendo passinhos manuais enquanto encaro o trânsito da Marginal. Apaixonada.  5 capacetes e um blazer bem ajustado.

Doing It Right: EVERYBODY WILL BE DANCING IF YOU’RE DOING IT RIGHT. Taí uma grande verdade e olha, eu mandei o decoro na firma às favas e subi na bancada fazendo passos de disco. True story. Podem perguntar pros colegas. Tô no aguardo dos remixes. 5 capacetinhos brilhantes, 2 ternos de paetê e uma coca zero pra beber e repor as energies no final da coreô. <3 <3 <3

Contact: todo album deles tem que ter uma musica esquisita e sem sentido, e no caso vem a ser esta aqui. Mas foda-se, o resto é maravilhoso e a essa altura já estou descabelada, suando e jogando champagne na cara mesmo. Dane-se.

 

09
May

Não Tenho Dinheiro Mas Pelo Menos Sou Legal

por Gabi

Na sexta o manobrista de um posto de gasolina bateu no meu carro, um acidente menor e sem muitas consequências. Obviamente, arrumar o estrago teria um custo. A gerente do posto fez questão de deixar claro que quem arcaria com o custo do conserto seria o funcionário e não o posto. Eu não sei quanto ganha um frentista-manobrista, mas aposto que é pouco.

Essa informação vinha me corroendo por dentro. Cheguei ao ponto de pensar em pagar eu mesma e pronto, mas uma rápida olhada na minha conta bancária mostrou que uma planner de midia social também ganha menos do que vocês podem imaginar e por isso não poderia pagar por uma coisa que, afinal de contas, nem foi minha culpa. Eu só tava ali parada querendo abastecer meu carro popular e ir encontrar os amigos no karaoke. Enfim.

Passei dias pensando no que fazer e concluí: nada. A culpa não foi minha, foi do rapaz. E ele tem que resolver os erros dele, assim como eu resolvo os meus. Cada um que arque com as consequencias de seus atos, seja uma grana ou o bad karma que eles possam trazer.

Hoje na hora do almoço fui ao posto fazer orçamento. Já tinha feito um perto de casa e o valor não havia sido animador. Achei caríssimo, mas sabia que o posto iria indicar um cara que faz uma série de serviços pra eles, e por isso o preço seria menor. Cheguei sorrindo, apertei a mão do funileiro, cumprimentei o frentista-manobrista e fiz cara de quem sabia o que estava acontecendo enquanto Nenê, o funileiro, avaliava o ocorrido.

- Hummmmm… vai ter que trocar o pára-choque… quebrou na curvinha, tá vendo? Aí não tem como arrumar, não fica bom. E tem esse amassado aqui em cima… e esse outro de trás…

Interrompi Nenê e disse que o amassadinho na parte de trás do pára-choque era meu mesmo, e não do Cláudio, o frentista.

- Pôxa, esse aqui fui eu mesma que fiz barbeiragem. Faz o preço à parte, me fala quanto dá e eu acerto, pode ser?

Eles meio que se olharam, depois voltaram a olhar o carro. Nenê anotava tudo num bloquinho pra fazer a conta, disse que me ligava depois pra ver se o posto tinha autorizado fazer, mas pra eu ficar tranquila, tava tudo certo. Fui dar uma palavrinha com a gerente, dizer que ia ver se a gente fazia por ali pra ficar mais em conta. Ela ofereceu café, pediu desculpas, foi gentil. Na hora que eu estava saindo, Cláudio veio falar comigo.

- Dona Gabriela?
(Já desisti de convencer as pessoas a não me chamarem de dona e senhora, porque é inútil. Acho que a idade bateu.)
- Oi, Cláudio.
- Legal o que a senhora fez.
- O que? fazer aqui com o funileiro de vocês? É mais prático, né?
- Não, falar pra ele que o amassado de trás era seu. Foi muito legal.
- Nada, era meu mesmo, né?
- É que foi muito legal, mesmo. Obrigado, viu?

E me estendeu a mão, que apertei. Entrei no carro pensativa. Será que existem mesmo pessoas que tentariam se aproveitar de uma situação assim? Passar a perna num cara que ganha pouco, que admitiu a culpa, que vai pagar certinho o que fez de bobagem? Pelo alívio do cara, sou forçada a pensar que sim.

Ao chegar na agência, Nenê me ligou. Disse que tinha passado o orçamento e que tava tudo certo, que o pessoal tinha autorizado. Marcamos a data, combinamos a entrega. Na hora de desligar, lembrei:

- Nenê, e o outro amassado? Ficou quanto?
- Ficou nada não. É por minha conta.
- Que é isso, como assim?
- A senhora foi muito legal com o menino. É coisa simples, de cinco minutos, deixa que eu vejo por aqui. Fica com Deus.

Agradeci e fui sorrindo almoçar no quilo. Eu gosto de Instant Karma.

08
May

De fila de banheiro, blush, aquele cara e felicidade

por Gabi

Era noite, já tarde, a fila do banheiro crescia na mesma proporção do consumo de bebida alcoólica no local – que era alto, dada a consumação mínima elevadíssima da qual me livrei devido a uma amizade de longa data com o DJ residente.

De vestido, encostei na parede pra esperar minha vez. A demora me levou a soltar um suspiro, que fez com que a menina na minha frente virasse pra trás e começassemos a conversar, aquela amizade de fila de banheiro de balada que só acontece nas filas de banheiro das baladas e que não dura mais do que o tempo de um xixi.

A moça, bonita, simpaticamente perguntou se queria passar à frente dela na fila, e eu declinei, uma vez que água não dá tanta vontade de fazer xixi quanto cerveja, e pelo jeito dela andar calculei que houvesse bebido várias. Começamos a conversar. Em frente ao espelho, ela sacou um pincel chanfrado de dentro de uma bolsa muito pequena e ofereceu:

- Blush? Adoro blush. Deixa a gente corada e com cara boa.

Aceitei. Havia alguma coisa nela que parecia impedir que eu dissesse não – uma tristeza nos olhos, um cansaço. Fiquei com medo de dizer que não e ela começar a chorar. Estiquei a bochecha e ela pincelou blush, ao mesmo tempo que me contava coisas.

- Eu estava com umas amigas, mas elas foram embora. Fiquei por causa desse cara, mas o cara não quer nada comigo. E eu gosto dele, gosto tanto dele. Queria que ele gostasse de mim, sabe?

Eu concordei: entendo. Quem não entende?  Sempre tem esse cara, que é legal e você gosta, e que te faz rir, e que é demais. Ele pode ser o menino mais bonito da escola ou o cara mais inteligente da pós graduação ou o cara mais tatuado que entrou na banda dos seus amigos: o que importa é que ele é incrível, e muitas vezes ele não liga pra você. Então quando a moça falou desse cara, eu sabia bem de quem ela estava falando. Aquele cara.

- Eu queria que ele gostasse de mim. Eu queria era ser feliz. Feliz de verdade, acordar feliz e saber que ia passar o dia feliz. Ter essa certeza de que sou feliz. Você é feliz?

E me olhou com uns olhos tristes, muito escuros e enormes. Fiz que sim com a cabeça, que eu era feliz, dei um abraço nela, disse que ela era bonita e jovem e ia ser feliz também na vida, com certeza. O que mais eu poderia fazer? Ela me deu blush e abriu seu coração. Eu voltei pra pista e abri uma coca zero.

Não sei se ela conseguiu fazer com que o carinha gostasse dela ou se terminou a noite sozinha com seu blush, mas espero que tenha descoberto a esta altura que colocar a sua felicidade na mão do outro é sempre arriscado demais. Se alguém tiver que errar e fazer bobagem com a minha felicidade, que seja eu mesma. Assim, se alguém fizer algo certo, serei eu mesma também, e poderei me congratular pela minha alegria sem ter que dar crédito aos outros.

07
May

As Coisas Mais Importantes São As Que Eu Nunca Disse A Você

por Gabi

Pra ler ouvindo: Pato Fu, Perdendo Dentes. 

Tem post que nasce parido já. Nasce com as frases prontinhas, as imagens já escolhidas. E tem post que fica muito tempo parado no rascunho porque não fica como deve, ou porque não quero que ninguém leia, ou porque não consigo colocar tudo que gostaria.

Tem rascunho com mais de mês salvo aqui. Tem rascunho com mais de ano. E não sei se serão publicados algum dia.

Tem rascunho que fala de coisa que me dá raiva e me deixa puta e me faz espumar. Tem até um onde a responsável por me deixar com raiva sou eu mesma. Já houve outro onde eu colocava toda a culpa de todos os problemas em uma pessoa específica, e que não postei pra não magoar ninguém.

Já teve post xingando quem eu gostava que nunca foi ao ar. Teve post de choro, de vergonha, de reclamação, de comemoração, de lembrança, de tristeza.

Assim como há email que escrevo e não aperto o “enviar”. Algumas vezes, era só desabafo e um desejo de colocar em palavras uma raiva grande, noutras pura vergonha de mandar, ou ainda simplesmente preguiça de explicar, de comprar uma briga ou responder obviedades.

Houve momentos na vida onde eu queria tirar uma foto e não tirei, queria abraçar e não abracei, queria chorar e não chorei, queria fugir e não fugi. Me arrependo de algumas dessas coisas. De outras não.

Meus posts favoritos talvez nunca tenham sido publicados, as melhores cartas foram as que não enviei, e sem dúvida, as melhores frases são as que eu nunca falei. Mas tá tudo aqui, guardado numa gaveta trancada dentro do coração, esperando clicar no ok.

Tem um blog inteirinho sobre textos e cartas e fotos não enviadas aqui, ó.

04
May

Mulherzinha

por Gabi

Ontem à noite um manobrista desatento bateu em meu carro num posto de gasolina. Foi um acidente simples: o rapaz deu ré sem olhar direito por onde ia e acabou amassando meu pára-choque e entortando o pára-lama. Ninguém se machucou. Nesse momento, fiquei muito calma. Essas coisas acontecem, repeti pra mim mesma algumas vezes. Encheção de saco à parte, problema resolvido, eu calmíssima sem nem alterar a voz.

Fui comer, não pedi coisas gordurosas, comi uma salada. Controlada.

Passei num karaoke pra dar um beijo nos amigos. Serena.

Fui pra festa, esperei na fila para entrar. Impassível.

Festa cheia, pessoas passando, calor. Fleumática.

Dancei a noite toda seguindo a música. Imperturbável.

Passei na padaria pra comprar o tradicional pãozinho do dia seguinte. Tranquila.

Cheguei em casa, guardei o leite na geladeira, tomei banho, lavei o rosto, passei creme, coloquei o pijama. Deitei.

Chorei até adormecer, aos soluços, cansada, nervosa, irritada, impaciente, exasperada.

Acordei hoje com dores no corpo, pescoço duro e uma tensão esticando a pele sobre os ossos, um nervosismo me cobrindo, aderindo à minha pele como uma camada fina de poeira num quarto fechado há muito tempo.

Porque quando ninguém tá vendo eu sou só uma mulherzinha mesmo.

03
May

It almost feels like a joke

por Gabi

Pra ouvir todo dia e manter em mente. Todo dia.

You’re hard to hug, tough to talk to
And I never fall asleep, when you’re in my bed
All you give me is a heartbeat
I’ve turned into a statue
And it makes me feel depressed
Cause the only time you open up is when we get undressed

You don’t love me, big fucking deal
I’ll never tell, you how I feel
You don’t love me, not a big deal
I’ll never tell you how I feel

It almost feels like a joke to play out the part
When you are not the starring role in someone else’s heart
You know I’d rather walk alone, than play a supporting role
If I can’t get the starring role.
Sometimes I ignore you so I feel in control
Cause really, I adore you, and I can’t leave you alone
Fed up with the fantasies, they cover what is wrong
Come on, baby, let’s just, get drunk, forget we don’t get on

You like my dad, you get on well
I send my best, regards from hell

It almost feels like a joke to play out the part
When you are not the starring role in someone else’s heart
You know I’d rather walk alone, than play a supporting role
If I can’t get the starring role

I never sent for love, I never had a heart to mend
Because before the start began, I always saw the end

Yeah, I wait for you to open up, to give yourself to me
But nothing’s ever gonna give, I’ll never set you free
Yeah I’ll never set you free

It almost feels like a joke to play out the part
When you are not the starring role in someone else’s heart
You know I’d rather walk alone, than play a supporting role
If I can’t get the starring role.

The starring role

02
May

Cotidiano

por Gabi

Feriadinho de meio de semana, aquela coisa modorrenta, saí, dancei ate o dia clarear, e estava voltando pra casa de manhã depois de um pão na chapa e um suco de laranja na padaria, quando um senhor de boné no farol estende um prospecto e me diz, sorrindo:

- Compre um apartamento.

Parei e refleti um pouco sobre o que eu faço de bom e de ruim com meu dinheiro, e em como poderia parar de gastar. Nunca havia pensado em comprar um imóvel a sério, mas acho que às vezes deus se disfarça de velhinho de boné pra dar dicas de vida pra gente.

 

Amo essa época do ano. O outono é a estação mais bonita pra mim: a neblina matinal que ainda persiste existindo no meu bairro a despeito da poluição, a luz dourada do sol, o vento fresco que esfria minhas pernas que insistem em usar saias, as noites muito claras.

Daqui a uns meses vai estar tudo muito seco e eu vou sofrer pra respirar, mas por enquanto o clima me deixa feliz de maneira genérica. É o tipo de tempo que me faz ter vontade de sair assoviando pela praça aqui em frente, mão no bolso e tal, dançandinho com essa música na cabeça:

 

Peguei na costureira umas saias de dez anos atrás, compradas na Luiza Pannunzio. Ainda estão em ótimas condições, mas tive que apertar a cintura, depois de emagrecer vinte quilos. Aproveitei e encurtei um pouco, pra deixar mais proporcional. Achei que ficou bom; lembrei que não paguei barato nas saias mas pensei que ao dividir isso ao longo de dez anos ficou bem em conta; concluí que me sinto muito bem usando uma roupa de dez anos atrás, ainda mais sendo em tamanho menor.

E sim, faço fotos de look do dia e publico no meu instagram. Só deus pode me julgar, especialmente se ele for um velhinho de boné me entregando um folheto de imóveis num farol qualquer logo de manhã cedo, depois de uma longa noite.

30
Apr

Caipira

por Gabi

Eu não sei ser elogiada. Nunca soube. Isso não é um post em busca de confete: é só a verdade. Quando elogiam qualquer coisa minha, a unica coisa que sei fazer é baixar a cabeça e balbuciar um “obrigada”. E se a pessoa insiste, eu fico vermelha e desconverso, faço piada, finjo que não é comigo.

Coisa de caipira, eu sei. Coisa de coió.

Sempre me lembro de gente que é melhor que eu no mesmo segundo que recebo o elogio. Gente mais inteligente, que escreve melhor, mais bonita, mais engraçada, mais forte, e penso que essas pessoas deviam ser elogiadas também.

Talvez por ser filha única e não ter tido competição dentro de casa na infância eu tenha me tornado uma das pessoas menos competitivas que conheço. Não me entendam mal, eu adoro ganhar. Acho ótimo quando sou premiada por alguma coisa, ou quando ganho um sorteio. Mas a coisa de ter que ganhar dos outros não mexe comigo. Prefiro ganhar de mim mesma, da minha maior inimiga e competidora, aquela vozinha que sussurra no meu ouvido à noite e me deixa acordada, dizendo que não sou boa o suficiente, não sou legal o suficiente, que não dou conta.

Essa vozinha (que não surpreeendentemente se parece muito com a minha, mas mais insidiosa, anasalada e irritante) me inferniza o tempo todo e me faz duvidar. Por isso que colei esse adesivo no espelho, pra ser a primeira coisa que vejo de manhã.

Aí quando eu acordo e a voz ainda tá ali me atazanando, eu olho pra esse adesivo e penso no que Churchill faria, e a resposta é: chutaria bundas. Aí eu levanto e chuto bundas, começando pela minha própria por dar ouvidos a vozes idiotas que acham que eu não consigo.

É só fingir que não ouvi e tá tudo bem.