Ladeira Abaixo
A gente está lá com nossas bonequinhas e nossos jogos de amarelinha e os carrinhos deles e a bola de futebol, e um dia a gente olha pro lado e vê que tem um menino e que ele tem covinha e que a gente de repente gosta dele, e eles um dia olham pra gente e vêem que a gente tem um sorriso bonito e de repente gostam da gente, e aí depois disso, meu amigo, estamos todos perdidos, depois disso e dali pra frente é só ladeira abaixo.
Eu tinha 12 anos e amava loucamente o Rodrigo Paes, que tinha nome e sobrenome porque tinha mais uns 5 rodrigos na minha classe. Se eu não casasse com ele eu ia morrer, morrer dura preta e seca no salão de festas no aniversário mesmo. E ele não me dava pelota, o sacaninha. Ai, como eu sofri por causa do Rodrigo. Troquei bilhetes com a melhor amiga contando tudo, e dizendo mas ele é tão lindo, porque ele não gosta de mim, o que eu faço de errado?, porque claro que era eu que tava errada, claro que faltava alguma coisa em mim, porque ele era lindo e inteligente e jogava futebol e ele era demais mesmo de maneira geral.
Ele era esse cara. Sempre tem esse cara, a gente sabe, assim como tem aquela garota, e essas pessoas são sempre muito lindas e têm sorrisos lindos e cheiram bem. E geralmente esse cara e aquela garota não dão pelota pra gente, os sacaninhas. Eles estão ocupados sendo incríveis, e a gente está ocupado pensando se não está com uma pizza de suor no sovaco ou com um teco de salsinha preso no dente ou se a saia prendeu na meia calça, porque a gente é esse tipo de pessoa que fica com a saia presa na meia calça e anda pela rua com a bunda de fora até alguém dar um toque.
A gente não é incrível – pelo menos não mais do que todos nós seres humanos somos incríveis máquinas de carne em movimento, cheios de potencial e de alma e de groove no coração – e por isso, amigos, a gente se preocupa mais com a pizza de cecê do que com o sorriso branco que a gente não tem.
Era de se esperar que essa sensação de inadequação melhorasse ao longo da vida, mas olha só um segredinho nosso: melhora não. A gente ainda olha esse cara e aquela garota e acha que vai morrer se não casar com eles, morrer dura preta e seca no meio da rua. Só que a gente não morre, e além de não morrer ainda lembra que tem que pagar o condomínio, o IPVA e o presente do seu chefe, e aí ao invés de suspirar e soluçar a gente acaba indo trabalhar mesmo, normal, e aí entrega mais um job e preenche outra planilha e enche a cara de café, e no fim do dia até se pergunta porque mesmo ele não te chamou pra jantar hoje ou porque é que ela não respondeu sua mensagem espertinha com uma piadinha bem sacada e levemente sapeca. Só que até aí a gente já tá no trânsito e já marcou de ir comer com um amigo legal pra cacete, e aí a gente vai e conta tudo sobre esse cara pra ele, e ele dá conselhos e diz que vai dar tudo certo, porque é pra isso que amigo tá aí, seja via bilhetinho na aula da tia Neide ou ao vivo enquanto ele dá mole pro garçom.
A gente cresce mas nada muda, porque olha, depois que a gente vê que esse cara tem covinhas, é só ladeira abaixo, carrinho de rolimã sem freio, e é tudo culpa deles.
Desses sacaninhas.













