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10
Apr

There´s only this

por Gabi

Esses dias me deu a louca de rever musical, e assisti de novo Rent, uma história triste e bonita como algumas vezes são as histórias de amor.

Nesse filme, é amor entre amigos, entra namorados, entre ex-amigos, entre companheiros. Tem amor gay, tem amor hetero, tem amor de mil jeitos. Essa música é a que fecha o filme, é lindíssima e a letra é muito bonita.

Fala de viver hoje, aproveitar o amor, saber que ontem já foi e amanhã não se sabe. E fazer isso de uma maneira bonita, de um jeito que seja memorável. Mesmo que a gente não saiba como vai ser depois.

Acho que entendi um pouco.

 

18
Mar

Pára, mulher.

por Gabi

Eu tenho uma amiga que é tão esperta que consegue entender o mundo inteiro, mas não consegue se entender.

Eu tenho uma amiga que é tão bonita e enxerga a beleza de todo mundo, menos a sua.

Eu tenho uma amiga que tá cada vez mais magra e insiste em achar que a bunda dela é grande.

Eu tenho uma amiga que consegue resolver os problemas de todo mundo mas não sabe por onde começar a resolver os seus.

Eu tenho uma amiga que se sente culpada pelos erros que os outros cometem.

Eu tenho uma amiga que acha que todo mundo é lindo, mas ela é normal.

Eu tenho uma amiga que é segura pra caramba quanto à sua competência profissional mas se acha feia.

Eu tenho uma amiga super segura com o corpo, mas que morre de medo de ser incompetente profissionalmente.

Eu tenho uma amiga que não quer filhos mas não fala isso pra ninguém porque senão acham ela maluca.

Eu tenho uma amiga que morre de medo de desapontar a mãe e o pai e por isso não larga um emprego que odeia.

Eu tenho uma amiga que participa de movimento feminista mas acha normal o namorado ter ciúme da roupa dela.

Eu tenho uma amiga que tem medo de falar alto e ser chamada de mal educada.

Eu tenho uma amiga que é você mesma que tá lendo e se identificando com tudo isso ae. Pára de bobeira, mulher.

 

10
Mar

Você é bonita.

por Gabi

Essa verdade simples é tão difícil de entender. É estranho olhar no espelho e me achar bonita. É estranho colocar uma roupa que me serve, achar uma roupa bonita na vitrine e dentro da loja a vendedora pegar meu tamanho, e não me olhar torto e não me dizer que não tem meu numero ali. É estranho meu rosto fino e meu ombro definido. É estranho o pescoço mais comprido, as costas menos largas.

É estranho e eu não me reconheço, e algumas vezes é preciso ouvir da outra pessoa. É a aprovação do outro, é o olhar do outro em mim que faz com que eu comece a acreditar.

Outro dia andava no shopping e de repente bati o olho e vi uma moça magra, e levei alguns segundos pra reconhecer que era um espelho. Era eu a moça magra refletida na entrada da C&A. Eu não me vi ali, vi outra pessoa. É estranho.

E quando alguém diz pra mim “você é bonita”, minha reação é sempre de falar “obrigada” rapidamente e olhar pro outro lado, e nem é um agradecimento sincero, é só um jeito de fugir dessa situação constrangedora de ser bonita.

Porque ser bonita é sorte, é genética, é loteria. É uma combinação do cabelo da minha avó com a pele do meu pai e o queixo da minha mãe e as bochechas da outra avó e boa alimentação com vitaminas e cálcio desde pequena. É gene que se junta aleatoriamente e forma um malar alto ou um nariz arrebitado ou o que quer que seja considerado bonito na nossa cultura. É sorte, não é mérito. E eu não me sinto à vontade sendo julgada por algo que não é meu mérito.

Mesmo emagrecer: não é exatamente mérito. É obrigação, é saúde, é vontade de entrar num padrão. É só isso.

E é sempre o outro que me diz isso, que me julga bonita. Não sou eu. Eu sempre tive essa cara, sempre vi o nariz sardento no meio da minha cara e enxergo mais as rugas na testa do que as covinhas no sorriso.

No fim do dia, é por isso que eu posto selfie no instagram. Porque eu olho e não vejo essa beleza, e preciso que outra pessoa me diga.

Porque quando eu leio um “você é bonita”, assim, desprendido, despretensioso, sem intenção por trás eu tenho vontade até de chorar, numa mistura de alívio, alegria, tristeza. Eu sou bonita, eu sou magra, e eu não deixei pra trás minha inteligência ou meu profissionalismo por isso. Eu posso viver assim, sem precisar esconder nada. E fico mais leve por dentro.

 

 

07
Feb

#projetoverão2050 – parte 2: A Dieta

por Gabi

As primeiras semanas na combinação dieta + remédio foram horríveis. Não que o remédio tenha me causado qualquer reação: meu corpo se adaptou sem muito problema e a única coisa que sentia era um pouco de secura na boca. Mas a dieta? Porra.

Eu ia ao restaurante por quilo e fazia o maior prato de verduras do universo, uma verdadeira pirâmide de folhas sobrepostas e misturadas com cenoura, tomate, pepino, abobrinha. Meu prato era uma floresta amazônica de folhas espremida numa louça circular. Depois de comer isso tudo, eu voltava ao balcão ~dos quentes~ pra pegar arroz integral, frango ou bife grelhado, eventualmente mais verdura cozida.

Arroz com castanhas e salsão

E era muito ruim. É horrível colar ali e ver as bandejas de massa, de pastelzinho, de feijão preto borbulhando de feijoada. E quando os colegas do trabalho não queriam ir ao quilo, e sim ao restaurante italiano? Ao de carnes grelhadas? Meu alento era o japonês: evitando as coisas fritas, eu podia chafurdar no sashimi e no shimeji sem medo.

Depois de começar a fazer a famigerada reeducação alimentar é que percebi o quanto eu gostava de algumas coisas. É importante identificar quais são esses seus apegos alimentares pra poder comer de vez em quando e matar a vontade. No meu caso, eram:

- Doces
- Lasanha
- Cheese salada + batata frita

Eu tinha convicção de que conseguiria sobreviver sem pastel, sem coxinha, sem bacon (nem gosto de bacon, desculpem) e sem picanha, mas essas 3 coisas tinham que existir no meu cardápio de alguma maneira. A negociação era assim: eu comia doce todo dia. Enfiei na cabeça que ia emagrecer comendo doce. Aí eu almoçava super certinho, voltava pro trabalho e comia um chocolate. Vejam, não era uma barra de chocolate, nem um quilo. Era UM ALPINO. UM. SINGELO. ALPINO. E eu fazia esse alpino render. Eu descascava o Alpino. Eu dava mordidinhas no Alpino. Confesso que cheguei a lamber o Alpino algumas vezes. Esse Alpino era meu melhor amigo, o momento mais bonito do meu dia, o que me fazia sorrir. Uma chocolate microscópico que deixava minha vida um pouco menos lamentável.

Tartar de filé com saladinha

O hamburger com batata frita eu acabava comendo uma vez por mês. Ia na Hamburgeria do Sujinho, que tem um hamburger delicioso, barato e que vem em 3 tamanhos. Pedia o menorzinho, x salada sem maionese, e dividia a porção de fritas com os amigos. Sem culpa, o que é até mais importante. Porque eu acho que a culpa engorda ainda mais. Então eu deliberamente planejava minha refeição, comia e saía de lá feliz e realizada e voltava pra minha salada.

Já a lasanha eu cortei mesmo por um bom tempo porque não consigo comer um pedacinho só. Consciente disso, achei melhor evitar. E foi uma lasanha que me deu a Primeira Crise de Choro da Dieta. Fui ao italiano com os amigos e pedi uma saladona incrivel com filé de peixe. Só que o prato executivo do dia era… lasanha. E eu queria muito comer lasanha, muito mesmo. Mas MUITO. E tava ali com a minha salada. E todo mundo comendo lasanha. E eu não podia. Aí eu fiz o que qualquer pessoa adulta faria: comi a salada, levantei da mesa e fui pro banheiro chorar por uns 10 minutos. Quando voltei, tava rolando café e ficou tudo bem, apesar da minha cara inchada e dos colegas perguntando se eu tava bem. Eu tava bem: eu só era uma mulher adulta chorando por causa de lasanha. Normal.

Iogurte batido com framboesa, linhaça e hortelã

Uma outra coisa que aprendi foi a comer mais vezes por dia. MUITAS vezes por dia. Acordava e tomava café da manha, geralmente leite desnatado, pao integral torrado com cream cheese light e uma fruta. No meio da manhã, fruta, barra de cereal, biscoitos integrais…. o almoço com as toneladas de folhas, no meio da tarde lanchinho, a noite jantar e antes de dormir ainda comia mais alguma coisa. E sempre em pequenas porções. Os únicos momentos de comer mais eram no café da manhã e o pratão de salada do almoço.

Eu raramente sentia fome por causa dessa coisa de comer várias vezes por dia. Eu sentia vontade pra caramba. Além da lasanha, morri de vontade de comer churrasco, pão com requeijão, pão de queijo, sorvete com cobertura.

arroz integral, frango, cenoura e espinafre

Um segredo? a vontade não passou. Nunca. Até hoje ainda quero me afundar em coisas gordas. Comida é bom. Comida é gostoso. Batata frita é mais gostoso que rúcula. Lasanha é muito mais gostoso que arroz integral. E é isso mesmo. Não vai passar essa vontade, não vou acordar um dia achando maravilhoso o gosto do broto de alfafa e péssimo o gosto do sorvete de nutella.

Eu só aprendi a lidar com isso. E faz uns meses que não choro de vontade de comer, olha que mulher forte.

(continua)

06
Feb

#projetoverão2050 – parte 1: A Gorda

por Gabi

Um belo dia eu vi uma foto minha e pensei QUE GORDA. Assim, sem mais nem menos. Eu não havia engordado 10 quilos em um mês nem nada. Eu só me olhei na foto e vi um ser humano gordão e não gostei do que vi. Fiquei preocupada com a história de que depois dos 30 a gente ganha 1 quilo por ano e me assustei ao pensar que ia chegar nos 40 com 100 quilos – porque aos 35 anos eu tinha atingido a marca dos incriveis 95 quilos socados em 1,56m.

Exato, amigos. NOVENTA E CINCO QUILOS. Porra, 95. Era muita coisa, coisa demais pra uma pessoa só.

Tô aqui falando em quilos pra ficar claro que os números em si servem como guia, não como objetivo. Com 1,56m, vocês poderiam achar que meu peso ideal seria em torno de 50 quilos. Mas não é: Eu nunca fui ~magrinha~ e não tenho a menor intenção de sê-lo. Eu não tenho estrutura óssea pra ser esbelta, miúda, mignon. Tenho ombro largo, bundão, falo alto, tenho cabelão, sou meio drag queen e isso não tem o menor problema. Acho que se eu chegasse aos 50 quilos ia ficar parecendo uma refugiada de guerra e não acho isso bonito.

Eu entrei no consultório da endócrino em Abril de 2012 descrente, sem querer chegar aos 50 quilos mas querendo perder uns 5, 10 quilos. E isso é muito importante: PROCURE UM PROFISSIONAL DE SAÚDE. Por favor, não siga o que dizem ~perfis de fitness~ ou ~blogueiras~ ou ~dieta da berinjela/vinagre/sopão~. Um médico, um nutrólogo ou nutricionista são as pessoas habilitadas a te indicar algum tipo de dieta ou medicamentos e suplementos que você possa usar. O que funcionou super bem pra sua amiga pode falhar pra você ou mesmo te fazer mal. Pra dar um exemplo bem idiota: imagina uma pessoa com problemas de ácido úrico que resolva fazer dieta de proteína. Nego vai descascar até a alma, sabe? Enfim. Procure indicação de um profissional de saúde, ok? Promete? Se disser que sim, pode continuar lendo.

A Dra Tatiana foi um doce comigo. Falei que queria perder peso, que nunca tinha feito dieta na vida e que morria de medo de tomar remédio, de falhar miseravelmente, de não emagrecer nada. Ela me passou mil exames de sangue, bioimpedância, medidas, e falou que esse medo é normal, e que de fato muita gente não consegue. Que a imensa maioria das pessoas que começa a fazer dieta pára no meio, não emagrece o que tem que perder, e que isso é muito ruim pro corpo e pra cabeça.

Diante dessas informações super encorajadoras, falei que queria emagrecer uns 10 quilos. Ela respondeu “Você vai emagrecer uns 20″. Eu ri alto no consultório, porque né? VINTE QUILOS? Mas nunca. Saí de lá com as guias de exame na mão, fiz todos bem bonitinha e voltei na semana seguinte pra pegar as orientações.

gorda porém em contato com a natureza

Minha saúde estava ok; colesterol, glicemia e triglicérides estavam dentro da normalidade. Porque apesar de gorda, eu nunca fui de comer fritura, carne vermelha, nunca fumei e bebi muito pouco nessa vida. Isso somado a uma boa herança genética mantinham meus índices dentro do normal. Ou seja: eu nem podia dizer que tava querendo emagrecer por causa da saúde. Eu tava saudável. Só que tava gorda e incomodada com isso. E olha que eu sempre fui uma gorda feliz, sempre namorei, saí com os amigos, fui à praia. Nunca tive vergonha de sair de casa e usar vestido. Portanto, era mesmo estética. Não era saúde nem auto estima. Era pra ficar gata mesmo.

A médica então me indicou um remédio. Expliquei que estava com medo porque nunca tomei essas coisas e tinha medo de ficar doidona, de emagrecer e engordar de novo depois. Ela explicou que no começo da reeducação alimentar remédio ajuda pra caramba: você sai de uma vida onde pode comer tudo pra uma onde tem que se restringir pra caramba, que você tem fome e vontade de comer mil coisas e sofre pacas e que o remedio dá uma força nesse inicio. Mesmo com medo, confiei nela e comprei o remédio numa dosagem baixa conforme ela receitou. Ela também me indicou a dieta dos pontos, semelhante à do Vigilantes do Peso: você pode comer de tudo, em pequenas quantidades, e algumas coisas são liberadas, como verduras, legumes e algumas frutas, o que dá a sensação de PRATO CHEIO e ajuda a não se sentir tão mal.

Comecei a porcaria da dieta duvidando completamente da minha capacidade de continuar nela. E não contei pra ninguem o que eu tava fazendo. O medo de falhar era tamanho que tive vergonha de dizer que estava tentando. Reflitam por um minuto no tamanho da minha insegurança, por favor.

(continua)

04
Feb

Bloquinho ou São Paulo Pode Ser O Túmulo Do Samba Mas Estamos Caprichando Na Lápide (ou ainda Caetano, Tu É Muito Chato)

por Gabi

No último final de semana rolou o bloquinho da Pilantragi, perto da minha casa. Subi a ladeira no sol, cheguei lá em cima esbaforida e dei de cara com um mar de gente na Alfonso Bovero. Muita gente de branco, azul, fantasiado.

Amigos queridos, calorão, todo mundo tomando cerveja, jogando confete pra cima, espuma, serpentina. Uma banda tocava marchinhas. Um monte de gente bonita, gays montadíssimos, heteros xavecando gatinhas, familias com crianças. Nas casas e predios em volta, moradores acenavam, muitos tiravam fotos.

Sei que depois teve gente que reclamou do barulho e da bagunça (mesmo o pessoal do bloco se esmerando pra limpar ao final e tendo acabado cedo). E vi gente falando que teve PM meio agressiva por lá.

Não vi nada disso, por sorte. Eu vi um monte de gente contente celebrando nas ruas do meu bairro. Eu ouvi música boa. Eu dei risada, dancei, cansei até a alma a ponto de chegar em casa, tomar banho e dormir depois de tomar um analgésico.

Eu vi minha cidade ocupada, as pessoas nas ruas sendo felizes, num clima muito, muito gostoso. Gente de idades e cores variadas se divertindo pra caramba, de graça.

É assim que eu gosto. E semana que vem tem mais. Até o carnaval tem mais um monte, e depois tem mais festas na rua, na praça, no parque. A gente precisa ir nesses lugares, a gente precisa ir pra rua fazer coisa boa, também.

(roubei as fotos do álbum colaborativo da festa, vale a olhada pra sentir um pouquinho do que foi)

31
Jan

Seis peças de roupa

por Gabi

Nunca tinha ouvido falar que seis peças de roupa na casa do outro configuram um relacionamento, mas Xico Sá falou, e com ele eu costumo concordar quase sempre, e isso faz sentido mesmo. Seis peças.
Começa sempre com uma camiseta, porque camiseta você geralmente consegue emprestar a sua, fazendo piada: “Deixa essa camiseta suja aí, vai embora com a minha, tá limpa pelo menos”

E aí fica uma camiseta, e você nem fala nada e bota pra lavar, e ainda dá a desculpa de que lavou tudo mesmo, que nem foi você, foi a máquina, e que a faxineira passou, oras, ela passa a roupa da semana mesmo, custa nada, pronto, já foi. Dorme aí, tem uma camisa sua limpa, amanhã a gente almoça.

Um dia vem a segunda camisa. E uma cueca, porque dessa vez tava planejado mesmo que você ia dormir aí, então já tem uma cueca limpa. E uma calça. Ou bermuda, se for nesse calorão, traz uma bermuda que tá calor demais e amanhã a gente pode ir andar de bicicleta. E um desodorante. E meias? Meias seriam uma boa, porque aí já pode roubar no jogo e dizer que temos duas peças, mas meias nunca vêm, porque meia é mais fácil ainda de pegar emprestada do que camiseta. Desodorante é peça de roupa? Entra na conta? Traz o tênis pra gente correr. Quer ir jantar na terça? Minha mãe te mandou um beijo.

Seis peças de roupa.

 

03
Sep

Tenência

por Gabi

Cheguei em casa, botei Wilco pra tocar e fiz bruschetta, porque era isso que eu queria, Wilco e bruschetta.

Abri uma coca zero, tomei enquanto fazia contas e cancelava planos e ideias e fazia outros planos e remontava minha vida pra ver se as coisas dessa vez se encaixavam. Escrevi uma história, não mandei, não publiquei, deu vontade de apagar mas guardei. Olhei fotos antigas de infância e deu saudade do meu cabelo cor de mel. Limpei o focinho sujo do gato, tirei foto, escrevi mais, desisti de escrever porque acho que não sei mais escrever e tudo fica meio ridículo quando a gente não tem certeza do que tá escrevendo, e fica brega e eu ouço aquela vozinha ali ao fundo dizendo “aff ana gabriela, tome tenência”  e eu juro que é a voz da minha avó, mas parece muito com a minha, também.

Eu ajeitei a louça,comi amendoins e dei risada porque eu adoro amendoins, limpei a bagunça toda, conversei com amigos, li um livro e marquei com mini post its as partes que mais gostei. Mandei mensagens, dei conselhos, ouvi segredos, recebi notícias, senti um cheiro guardado numa peça de roupa, bebi água de filtro de barro com gosto de fresquinha, escovei os dentes, pus pijama e separei a roupa de amanhã. Eu fiz tanta coisa nessa segunda à noite que já parece que é sexta, quase.

Porque tudo que eu queria, na verdade, era ouvir Wilco e comer bruschetta, mas não era bem isso. Falta alguma coisa. E eu espero que todos esses meus planos e replanos sirvam pra isso: pra achar essa coisa ae.

19
Aug

Ser feminista é muito chato

por Gabi

Ser feminista é um saco. Um fardo. Um porre.

Todo mundo te acha chata. Todo mundo manda você ficar quieta porque é só brincadeira, é só piada, você não tem senso de humor?

Aí a gente lê os comentários numa notícia sobre uma moça que foi estuprada por 6 caras na saida de um baile funk e vê gente falando que ela mereceu por causa da roupa que usava ou de estar no funk ou de sair à noite na rua.

E uma skatista que fez uma brincadeira sobre a beleza da namorada de outro skatista e levou skatadas na cara, mas o cara depois falou que tava bêbado e até pediu desculpas.

E uma travesti que foi morta com 20 facadas no rosto, e eu demorei pra achar o link da notícia em algum portal sério.

Uma vaga de emprego pede um Diretor de Arte talentoso e com experiência, mas antes pede uma Diretora de Arte cheirosa, mas foi engraçado porque é uma brincadeira moderninha de alguma maneira.

Revista de adolescente publica lista de coisa que fazem uma menina ser pra ficar ou namorar, e ainda romanceia uma coisa que não sei bem o que é mas parece muito com um estupro, só que tiraram o primeiro do ar e explicaram que o segundo foi pra alertar as meninas mesmo.

Uma moça é agredida depois de dançar bêbada na frente de todo mundo mas se recusar a ficar com um cara, e aí dizem que ela tava bêbada e que a culpa foi dela.

Eu fico vendo essas  notícias  e reclamando, e aí me dizem essas coisas todas a respeito de como eu sou chata e não tenho senso de humor, e não vejo como são casos isolados, e eu fico pensando que é muito caso isolado em uma semana só, e fico procurando a parte onde eu devia ter visto graça, mas não consigo achar engraçado e nem ver onde está a piada, e concluo que a piada está em mim, que nasci mulher e cresci feminista.

Deve ser muito engraçado olhar pra uma mulher e ver que ela tá lá tentando ser um ser humano igual aos homens, com os mesmos direitos e deveres. Deve ser divertido ver a gente reclamando. Deve ser hilário a minha cara e as coisas que digo quando leio uma bosta dessas. Só pode ser isso.

E aí eu concluo de fato: ser feminista é muito, muito chato.

(texto inspirado no post da Tanira)

04
Jul

Cuide de Você

por Gabi

A semana passada foi uma semana difícil. Um monte de coisas deram errado, me senti dando passos pra trás e não pra frente, cuidei de pessoas queridas que precisavam de cuidado. Na sexta feira, cansadíssima, decidi: ia cuidar de mim.

Anos atrás, conheci o trabalho de Sophie Calle, artista e escritora francesa, que usa suas experiências de forma bem direta para criar sua arte. Ela criou uma exposição muito bonita chamada Prenez soin de Vous – Cuide de Você. Nela, 107 mulheres de diversos lugares e formações criaram suas interpretações de uma carta mandada a ele por seu namorado, o escritor Grégoire Bouillier. Na carta, ele terminava o relacionamento e a última frase era essa: “Cuide de você.”. Cada mulher criou sua interpretação da carta, através de videos, fotos, pinturas, textos...

Prenez soin de vous

Eu fui a essa exposição e achei muito bonita. Para mim, o “cuide de você” é literal. É cuidar de mim mesma, emocionalmente, fisicamente. Essa semana arrumei o cabelo, marquei médico que estava enrolando, voltei a me alimentar mais direitinho. Falei coisas que precisava falar, coloquei pra fora algumas palavras que me incomodavam há algum tempo. Arrumei meus documentos e contas, fiz uma planilha. Fiz mais uma limpa no armário e doei roupas que não usava mais para uma pessoa que precisava muito.

E comecei a desejar coisas. Fiz a inscrição num curso de bolos, um negócio lindo de se ver. Comecei a planejar a viagem do ano que vem. Decidi a próxima tatuagem. Olhei um pouco pra frente pra poder passar pelo hoje. De certa forma, como Sophie, cuidei de mim, aqui do meu jeito.

Aos poucos, as coisas melhoram. Eu mesma cuido de mim, cuido de quem amo e sou cuidada por eles, mas antes de tudo, eu cuido de mim.